No último dia 17 de março, morreu Aldo Bianco, aos 86 anos. Em 2012, a revista Climatização+Refrigeração, publicou a história de Aldo Bianco, que segue na íntegra abaixo.

Arnaldo Basile, presidente da Abrava, presta sua homenagem:“Aldo Bianco é um ícone no mercado AVAC-R. Engenheiro competente e dedicado, não se limitou a somente projetar grandes obras com soluções inovadoras, foi também professor de muitos profissionais do setor. Foi laureado em 2017 com o prêmio “Fair Play” da Smacna-Abrava em reconhecimento pela sua contribuição para on desenvolvimento de ações em prol do setor e pela maneira respeitosa e atenciosa como sempre se se relacionou com os amigos e colegas do setor. Que o Grande Arquiteto do Universo receba nosso amigo Aldo Bianco com paz e luz”.

Nascido no bairro paulistano onde foi fundado seu time de coração, o Corinthians, Aldo Bianco, com seus quase 80 anos bem vividos, ainda carrega o sotaque de sua descendência italiana e muito bom humor. História é o que não falta desse engenheiro. Graduado em Engenharia Mecânica e Elétrica pela Escola Politécnica de São Paulo, a primeira experiência profissional foi como professor de máquinas térmicas.

“Quando me formei, em 1955, a cadeira de máquinas térmicas era regida pelo professor Felix Hegg, que iria se aposentar. Na ocasião, o professor Remi me propôs assumir a função de professor assistente, enquanto eu esperava a minha nomeação. E assim, comecei a dar aula. Naquela época dava aulas 12 horas por semana e aceitei outro convite do professor Remi para trabalhar Byington & Cia”, conta Bianco. E foi no ano de 1958 que Bianco começou sua carreira no setor de AVAC-R, acumulando ainda a função de professor na FEI e na Poli.

Em 1959, ingressou como engenheiro de ar condicionado na Starco, junto com Hans Sonnenfeld, onde permaneceu até 1962, passando posteriormente pelas empresas Switf do Brasil, Tecfril e Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. “Nessa época me casei, formei família e com três empregos. A Starco era uma instaladora neste tempo e chegavam muitos trabalhos e as vantagens financeiras não estavam compensando, até que num certo ponto que decidi largar os três empregos e fui trabalhar na Cia Switf do Brasil, na área de engenharia em frigoríficos”, diz Bianco.

E foi pegando uma carona com um amigo engenheiro, hoje o presidente da Figueiredo Ferraz, que surgiu a oportunidade para avalizar um projeto de engenharia específico na área de ar condicionado proposto pela Tecfril, empresa ligada a área de refrigeração, e querendo ampliar sua atuação na área de climatização como fabricante e instalador. “Eles precisavam avalizar um projeto que a Figueiredo Ferraz havia feito para a Tecfril, no caso, um edifício situado na Av Paulista, e fiz as minhas observações no relatório. O então diretor da Tecfril, Floriano Godoy, me chamou para acertar o projeto e comecei a trabalhar na Tecfril, isso em 1964”.

Naquela época, conta Bianco, o mercado de ar condicionado não tinha uma divisão definida entre projetista e instalador, “todo mundo fazia um pouco de tudo”, e a maioria dos instaladores fabricavam suas máquinas, como a Cebec, por exemplo. Na sua passagem pela Tecfril  Bianco lembra e destaca a obra  da Assembléia Legislativa de São Paulo, e daí para frente outras grandes obras vieram impulsionando o sucesso e o crescimento da Tecfril.

“Porém, a mentalidade dos diretores da Tecfril não era a mesma que a minha no que dizia respeito ao ar condicionado. Várias sugestões foram dadas, mas eles achavam que tudo deveria ser feito por eles. Por exemplo, as serpentinas fabricadas não davam a fixação suficiente causando baixo rendimento e isso começou a causar problemas em algumas obras. E assim, em 1970, me desliguei da empresa. Um mês depois recebi em casa a visita de Willem Scheepmaker e Celso Koshi, antigos funcionários também da Tecfril, e me convidaram para montar uma empresa de projetos. Coincidentemente, a Hitachi estava inaugurando sua fábrica, o Tosi já havia fundado a Coldex, o Kayano a Thermoplan, e o mercado já dava sinais da demanda de projetistas na área de ar condicionado, que até então não existia. Em 1972 fundamos a Engetherm Projetos Térmicos onde permaneci como diretor técnico até 2004.

“Executamos diversos projetos e instalações de grande porte, e destaco esse aqui que estamos sentados agora, o Cenesp – Centro Empresarial de São Paulo”, diz Bianco, orgulhoso pelo seu feito. Também não é para menos, o Cenesp foi uma das primeiras grandes obras, e já divulgava o conceito de distric cooling, isso em 1973. Composto por 4 blocos, foi projetado pela Engetherm e a Cebec que cuidou da instalação. Posteriormente, foram agregado mais 2 blocos com a participação da Heating Cooling. Ele conta que foi aos Estados Unidos para conversar com os fabricantes de máquinas, apresentar o projeto e fazer o selecionamento dos equipamentos. Nessa época a York estava fornecendo as máquinas para o World Trade Center, eram 7 centrífugas de 7 mil TRs.

“Nós só fazíamos projetos para ar condicionado e realizamos grandes obras com vários parceiros como Sami Bittar, a obra do Aeroporto de Cumbica, Valter Vaccaro e muitos outros. A Engetherm permanceu na ativa até 2004 e passou por várias mudanças, como a separação da sociedade com o Koshi. O volume de obras era imenso e convidamos o Pedro Ditore para integrar a equipe de diretores. Fizemos muitas obras como a Casa da Moeda do Brasil (1977), um dos meus maiores desafios, pois o projeto teria que ser desenvolvido e realizado em cinco meses, desde um pré-estudo, tanto na área de engenharia como na de arquitetura. Aí pensei comigo, se o pessoal da área de estrutura fez, nós também podemos fazer o projeto, e começamos a traçar as especificações, com o agravante da questão da segurança, pois só podíamos entrar ou sair da fábrica para fazer o levantamento dos dados em horários estipulados e com acompanhamento de seguranças. O projeto exigia características especiais de temperatura e controle rigoroso de umidade para cada área específica, como a de confecção de cédulas, outra para confeccionar papéis de ações, outra para moedas e por fim a de passaporte, enfim muito complexo e cheio de particularidades como resfriamento, exaustão de gases, etc, e com previsão de expansão. Outras obras também importantes foram a do INPE (1986), Centro Empresarial do Aço (1979), SBT (1994), SESC Vila Mariana, Aeroporto de Belo Horizonte, Aeroporto Afonso Pena, Frigorífico Anglo, Fundação Padre Anchieta, Mercedez Bens do Brasil, Petrobrás, entre tantas outras. No total, realizamos por volta de 2.600 projetos”, relembra Bianco.

“Fizemos também o projeto do primeiro shopping center a incorporar a climatização, o Ibirapuera, em São Paulo. Na época o Shopping Iguatemi não tinha ar condicionado. Partimos da estaca zero, e juntamente com a C&A, começamos a especificar o projeto. Como era a maior loja, utilizamos os dados que nos foram passados com base nas lojas de outros países e calculamos e dimensionamos para a circulação de 2 mil pessoas/dia e um rateio de despesas em função da carga térmica por loja”, diz Bianco.

Ele conta que a engenharia começou a dar saltos muito altos e surgiram muitas empresas projetistas como a MHA, Jaakko Poyry, entre outras. Em 2004, Aldo Bianco assumiu o cargo de diretor técnico adjunto da MHA Engenharia, onde permanece até hoje.

“Muitas coisas aconteceram nesses 54 anos que atuo no mercado. Hoje em dia, o mercado é definido por projetistas, fabricantes e instaladores, tecnicamente os projetos são pensados para a otimização tanto na parte operacional quanto na de eficiência energética e dispomos de tecnologias para incorporar nos sistemas e adequados as funções das necessidades. O Brasil tem condições de realizar grandes obras, em especial as voltadas para a energia renovável, pois dispomos de recursos para isto”, finaliza Bianco.

Ana Paula Basile Pinheiro

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