Em meados do século XIX, os doentes de febre amarela que desembarcavam no Porto de Salvador eram imediatamente encaminhados para o Hospício dos Bentos, em Mont-Serrat. Os casos de maior gravidade eram encaminhados para a parte alta do bairro, com maior circulação de ar. Com a ampliação das atividades, em 1953 o estabelecimento muda o nome para Hospital de Isolamento Mont-Serrat.

Em 1917 o hospital ganha um novo e, para a época, portentoso edifício. Afinal, as necessidades cresciam; foi, por exemplo, o centro de tratamento do surto da gripe espanhola em 1918, da varíola em 1919 e da febre tifoide, em 1924. Ainda em 1912, o jovem e idealista médico Augusto do Couto Maia assumiu a direção da instituição, posto que só abandonaria em 1936, forçado pela invalidez, após ter uma perna amputada em decorrência do diabetes. Em sua homenagem, a instituição passa a chamar-se Hospital Couto Maia.

Em 2018, uma nova mudança. Rebatizado Instituto Couto Maia, o tradicional centro de tratamento de doenças infecto contagiosas, como HIV e DSTs, ganha modernas instalações no bairro de Cajazeiras. Se no século XIX os responsáveis pelo hospital buscavam as partes altas da antiga Salvador em busca da ventilação natural, agora recorrem às mais recentes tecnologias e soluções da qualidade do ar interior no tratamento das moléstias.

Geração a gás natural

Com investimento de cerca de R$110 milhões, o hospital é o segundo no estado a ser construído por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP). O contrato firmado garantiu, além da construção, a aquisição dos equipamentos e também a gestão dos serviços não clínicos. A Companhia de Gás da Bahia – Bahiagás, já atende seis hospitais no estado, fornecendo o energético para o provimento de serviços nas cozinhas e lavanderias das instituições de saúde. Este é o primeiro estabelecimento do setor a usar o energético para climatização.

O assessor de Tecnologia de Gás Natural da Bahiagás, Celestino Boente, destaca as vantagens da utilização da nova tecnologia para o hospital. “Estamos falando de uma economia de aproximadamente 90% na conta de energia elétrica. E do uso de equipamentos com menor custo operacional e de manutenção. Além disso, o sistema diminui o impacto dos gases nocivos ao meio ambiente, pois utiliza água, ao invés do HFC”, pontua.

Trocadores de calor de placas fazem o reaquecimento da água

O sistema de climatização foi concebido pela MSA Projetos e Consultoria Ltda, de Salvador, comandada pelo engenheiro Mário Sérgio Almeida. É ele quem dá as razões para, além das flutuações conjunturais, o estado da Bahia optar pelo gás. “O governo do estado detém 51% da Bahiagás, pertencendo o restante das ações à Mitsui e à Petrobras. Assim, seguindo uma sugestão nossa, em lugar de pagar a energia à Coelba, o governo resolveu investir no próprio negócio. E o negócio tem se mostrado tão vantajoso que estão pensando em trocar o sistema de outros hospitais.”

Para viabilizar operacionalmente o empreendimento, foi construída uma linha com 3 quilômetros de tubulações, num investimento de 1 milhão de reais, bancado integralmente pela Bahiagás. “Mas sempre surgiu o medo, por ser um hospital, da falta do gás, apesar de o Polo Petroquímico de Camaçari operar há 30 anos de operação, inclusive abastecendo Shopping Bahia, que também é uma instalação de cogeração a gás natural segura. E mesmo que falte gás, ou seja, uma interrupção, a própria tubulação é praticamente um reservatório. E a Bahiagás possui caminhões com gás natural liquefeito, garantindo que o caminhão chegue no local em meia hora. Para não deixar margens para o acaso, pensou-se numa segurança elétrica, instalando um chiller elétrico de 200 TR, somando-se aos dois chillers à gás, com 800 TR no total, que garantirá o provimento a todos os sistemas essenciais do hospital: salas de cirurgia, UTIs e quartos de isolamento, porque trata-se de um hospital voltado para o tratamento de doentes infectocontagiosos”, avança Almeida.

Mas a redundância vai além, caso falte energia elétrica e gás natural, um gerador a diesel acionará o sistema de ar condicionado elétrico. Então, todas as garantias foram tomadas para que nunca falte energia. “Hoje temos lá dois chillers de absorção com queima direta de 400 TR, a carga térmica mais ou menos 600 TR, então pode funcionar os dois chillers de absorção com queima direta ou pode funcionar um chiller de absorção de 400 TR com um chiller elétrico de 200 TR, ligado na própria concessionária. Na ponta, quando a energia é mais cara, a carga térmica é menor, o chiller elétrico é desligado, mantendo apenas o funcionamento a gás nas 24 horas do dia”, completa o consultor.

Eficiência energética

Como a temperatura de condensação é mais alta que no sistema convencional, e possível obter a água de condensação a 37ºC, utilizada para o sistema de reaquecimento, uma necessidade particularmente para os quartos de isolamento que necessita de controle de umidade entre 40% e 60%. “A água quente gerada pelo sistema de condensação é conduzida, ao longo do hospital, para nas salas de cirurgias, UTIs, patologia clínica, laboratórios, farmácia e todos os quartos de isolamento, e também no sistema de urgência e emergência. Todos os fancoils são com controle de umidade através da água quente de condensação, com o auxílio de dois trocadores de calor de placa, um reserva do outro”, explica Almeida.

A temperatura de condensação entra a 32ºC nos trocadores de calor dos chillers e sai a 37ºC. Quando sai a 37ºC, passa pelo trocador de calor, possibilitando a obtenção de água a 35ºC nas serpentinas das unidades de tratamento do ar, suficiente para fazer o controle da umidade com água quente de graça. Já a água sanitária do empreendimento é toda feito por caldeira a gás.

UTAs eficientes e dutos com alto fator de estanqueidade

Qualidade do ar interior

Todas as unidades de tratamento do ar estão na cobertura do prédio. Não existem máquinas dentro dos ambientes. Os dutos descem para o primeiro e segundo andar, e vão do térreo para o primeiro andar, tanto os de insuflação, quanto de retorno. Toda manutenção é feita neste andar técnico, ou seja, não existe a interferência da manutenção no funcionamento do prédio. Um sistema de gerenciamento computadorizado gerencia todas as temperaturas, o controle de umidade, as válvulas de duas vias, enfim, tudo gerenciado na cobertura.

“Nas áreas de isolamento, existem diversos quartos com antecâmara do tipo bolha, para pacientes infectocontagiosos, chamadas de A2, sendo todo o ar de exaustão conduzido para a cobertura e passando por filtragem G4, M5 e F9; na saída, equipada com filtro H13, que é o filtro Hepa A3, de classificação absoluta, é descartado para atmosfera descontaminado.  Entre a tomada de ar e a admissão do ar, temos 20 metros de distância. O ar é tomado de um lado onde o vento é favorável, e descarregado do outro lado, para evitar a contaminação cruzada. As UTIs são todas com filtros F9, G4, M5; as salas de cirurgias, com F9, G4, M5, e Hepa no difusor terminal. O hospital atende as normas de renovação do ar, do ar exterior e de movimentação de ar e a classificação dos filtros, antecipando a nova revisão da Norma 16.401. Existe muita preocupação na parte de contaminação, o médico que está atendendo a pessoa tem que ter cuidado para não ficar contaminado, por isso existem as máquinas que trabalham com 100% de ar exterior; sem contar as pessoas que chegam com problemas de tuberculose, pneumonia, bem debilitadas, que, de outra maneira, poderiam piorar ainda mais”, como explica o diretor da MSA.

Na área administrativa foram utilizados climatizadores hidrônicos e para o sistema de ar exterior foi usado roda entalpica com admissão de ar exterior resfriado, umidificado, filtrado e insuflado no ambiente. Os ambientes especiais, como patologia clínica, lactário, farmácia, laboratórios, receberam tratamento de ar especial com filtragem especial e renovação especial também. Nas salas de cirurgia, a renovação é feita por recirculação de ar, assim como nos laboratórios, dotados de muitas capelas de fluxo unidirecional.

As tomadas de ar guardam distância da exaustão para evitar contaminação cruzada

“O bloco de utilidades, com a CAG afastada do prédio, fez a diferença nesta obra. Os fancoils ficaram no pavimento técnico exclusivo, achei isso muito importante. Existem alguns dutos que foram para fora do prédio e o arquiteto criou dispositivos especiais através de venezianas para esconder esses dutos. Tem um cuidado também na parte da iluminação natural, com claraboias e utilização de vidros especiais com alto fator de proteção solar (0,3) em todo o hospital”, completa Almeida.

O princípio de funcionamento dos chillers por absorção é por queima direta funcionando 24 horas com água gelada a 7ºC e água quente a 37ºC. O fluido refrigerante é a água, sendo o brometo de lítio usado no processo químico da máquina, muito conservadora, de concepção antiga, com funcionalidade excelente.

“Para a automação, existe um sistema de supervisão e controle que gerencia todas as UTAs, com função liga/desliga, controla os filtros e as sujidades, e comanda temperatura e umidade de todas as UTAs também. É um sistema totalmente automático. A CAG também, totalmente automática em termos de controle de temperatura, de pressão, é um sistema bem abrangente”, conclui Mário Sérgio Almeida.

A partir da esquerda: Marcelo Marinho, responsável pela operação e manutenção; Emerson Tuboni, engenheiro da obra; e Mário Sérgio de Almeida, o responsável pela concepção da instalação

Resumo da obra

Segundo Delane Prates, diretor da Controltec, empresa responsável pela instalação dos sistemas de climatização do Instituto Couto Maia, o sistema utiliza como matriz energética o gás natural, de expansão indireta, com 2 chillers por absorção, com capacidade unitária de 400TR. Para a condensação, o sistema dispõe de 3 torres de resfriamento, com parte da água, antes de seguir para as torres, passando por trocadores de calor de placa para gerar a água quente que é utilizada no controle de umidade dos ambientes requeridos. A água gelada gerada nos chillers por absorção é conduzida por bombas centrífugas através das tubulações até as UTAs e fancoletes hidrônicos por 3 sistemas secundários distintos: essencial, não-essencial e hidrônicos. O sistema essencial atende os ambientes fundamentais, que não podem paralisar seu funcionamento. Além de possuírem UTAs reservas, foi instalado um Chiller elétrico à ar, de 200TR para eventual falta de gás natural ou parada para manutenção dos chillers por absorção, de modo a garantir a confiabilidade, redundância e funcionamento ininterrupto deste sistema secundário. O sistema hidrônico atende as áreas administrativas e ambulatoriais com necessidade de conforto térmico e/ou ambientes que possuem controle de temperatura individualizados (consultórios, salas de reunião, áreas comuns etc.). O sistema não-essencial atende as demais áreas (enfermarias, centro médico, refeitório, imagem etc.), com tratamento de ar e controle de umidade. Os ambientes considerados críticos com alto risco de contaminação (salas de isolamento, laboratórios de análise bacteriológica, salas de coleta etc.), são atendidos por UTAs com 100% de ar externo e caixas de exaustão especiais dotadas de filtros absolutos que retém possíveis microorganismos antes do descarte para o meio exterior. Estas salas são dotadas de manômetros indicativos de pressão diferencial possibilitando a visualização imediata da pressão interna do ambiente, que deve manter-se sempre negativa. Também foram instalados ventiladores e exaustores para atender as condições operacionais necessárias para o funcionamento das áreas da cozinha com coifas convencionais e lavadoras, farmácia, laboratórios, sanitários e vestiários em geral. Além do sistema central (água gelada) foram instalados equipamentos individuais de expansão direta tipo split system em salas específicas com necessidade de back-up (salas técnicas, salas de quadros, salas de rack, sala de vacinas, estoque de hemocomponentes, imunológicos etc.) ou em prédios anexos (guaritas, de manutenção, subestações etc.).

Equipamentos e fornecedores:

  • Nome da obra: Instituto Couto Maia
  • Projetista:  MSA Projetos e Consultoria Ltda.
  • Instalador: Controltec Engenharia
  • Integrador da automação: Múltipla Tecnologia
  • Chiller elétrico: 1 chiller condensação a ar, de 200TR, Trane
  • Chillers por absorção: 02 chillers, capacidade unitária 400TR,LG
  • Difusores: grelhas, difusores, dampers de regulagem, dampers sobre pressão, dampers corta-fogo, caixas terminais com filtro absoluto, caixas de volume de ar variável, Trox
  • Bombas de água gelada: centrífugas tipo base/luva, primárias; secundárias; de condensação; de água quente – KSB
  • Variadores de frequência: Schneider
  • Fancoils para tratamento do ar exterior: Berliner Luft
  • Fancoils de ar de recirculação:Berliner Luft
  • Válvulas de balanceamento e controle independente de pressão: IMI Hydronics
  • Roda entálpica: Heatex
  • Ventiladores: Berliner Luft
  • Controles e sensores : Sensores de temperatura e umidade, transdutores de pressão diferencial Dwyer
  • Coifas lavadoras e convencionais: Halton Refrin
  • Dutos de ar condicionado:  MPU Clean – Multivac
  • Isolamento da tubulação da água: Epex
  • Torres de arrefecimento:Thermotank
  • Trocador de calor de placa: Tranter
  • Quadros elétricos: Múltipla Tecnologia

Ronaldo Almeida – ronaldo@nteditorial.com.br

 

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