Segundo dados do Departamento de Economia da Associação Brasileira de Aquecimento, Refrigeração e Ar Condicionado (ABRAVA), o mercado nacional de ar condicionado em 2017 foi de 3,5 milhões de TR (toneladas de refrigeração). Os sistemas mini-split perfaziam 72% do total, com perto de 3 milhões de unidades vendidas.

Com tais números, não é de estranhar a preocupação do engenheiro Oswaldo de Siqueira Bueno,  consultor da Abrava e coordenador do CB-55 da ABNT, quando disse, durante apresentação no seminário “Programa Brasileiro de Etiquetagem em Eficiência Energética para Sistemas de Refrigeração e Ar Condicionado”, em 22 de agosto último, que este é “um mercado ingovernável, todo mundo vende e todo mundo instala”.

Por certo, a enorme demanda elétrica que esses equipamentos apresentam, além dos riscos para a saúde e integridade física das pessoas, motivou a criação da NBR 16655, que normatiza o projeto e a instalação de sistemas residenciais de ar condicionado divididos e compactos. Não raro pode-se conferir unidades condicionadoras despencando de edifícios devido à más condições de dimensionamento e instalação de suportes de máquinas.

A Norma pretende estabelecer procedimentos para ensaios de estanqueidade, desidratação e carga de fluido refrigerante no ar condicionado, e um método simplificado de cálculo de carga térmica, dentre outros aspectos, fugindo aos “consagrados” 25m2 por TR. Apesar de representar um passo significativo, não se espera da Norma, assim como de qualquer outra, a solução de problemas como os que Fernando Villarrubia, engenheiro de aplicação da Trane do Brasil, enumera:
1. Falta de capacitação e qualificação profissional dos instaladores é o principal problema do mercado brasileiro hoje. O mercado de splits e mini-splits cresceu mais rápido do que a difusão de conhecimento para a mão de obra de instalação, um cenário que se repete em outros mercados e é um grande desafio no Brasil.

  1. Existem algumas práticas no mercado que não são aceitáveis. Por exemplo, é muito comum a pessoa instalar uma máquina muito grande ou muito pequena, sem o cuidado de verificar a real necessidade do espaço. Ao errar na dimensão do produto, o resultado será um desconforto ao usuário.
  2. Não respeitar os procedimentos descritos nos manuais dos fabricantes. Muitas vezes os equipamentos são instalados de forma inadequada, não respeitando as distâncias para se obter uma boa ventilação e para que o equipamento condicione a sala de uma forma efetiva.
  3. Os dimensionamentos e o tipo das tubulações. Por exemplo, já observamos algumas obras em que os tubos não eram para ar condicionado. Eram tubos utilizados para água. É importante observar o dimensionamento e fazer o selecionamento correto das tubulações.
  4. Vácuo nas tubulações. Muitos instaladores não fazem vácuo nas tubulações e, dessa forma, não é possível retirar a umidade que existe dentro dos tubos. Quando o vácuo não é feito, a umidade existente nos tubos pode reagir com o gás refrigerante do equipamento, formando um ácido que pode queimar o compressor.

“A instalação da unidade condensadora é fator determinante para o bom funcionamento do sistema, deve haver condições mínimas recomendadas para perfeita circulação de ar e acesso à manutenção. Não obedecer aos procedimentos básicos prévios ao startup podem resultar em um mau funcionamento do equipamento”, alerta Cristiano Miranda, da área de instalação e manutenção da BHP.

Marcelo Pires, supervisor técnico da Elgin, acrescenta questões como “ajuste incorreto da carga de fluido refrigerante; escolha de local inadequado para a instalação das unidades, seja a externa como também a interna, e a interligação das unidades externa e interna com tubos de comprimento inferior ao especificado”. Já a falta de testes de vazamentos antes da aplicação da carga de gás refrigerante, acarretando no baixo rendimento do equipamento, devido às perdas do gás e falha na avaliação das tubulações de drenagem, são, para Renato Kohn, diretor de manutenção da Ambient Air, problemas que precisam ser superados.

Buscando soluções

Kohn, da Ambient Air, começa recomendando o básico aos instaladores. “Executar a pressurização das tubulações, eliminando qualquer risco de vazamento, avaliar as cargas elétricas, cabos e proteções elétricas e realizar o vácuo no sistema, eliminando a umidade nas tubulações”.

“Os procedimentos a serem obedecidos são os descritos no manual de cada fabricante. Lá estão detalhados todos os procedimentos corretos de instalação, tubulação, dimensionamento etc. Em relação à parte elétrica, é importante que o instalador garanta que a energia que chega aos equipamentos seja estabilizada e protegida. Além disso, é importante que o instalador esteja sempre atualizado e que faça cursos para acompanhar as mudanças de cada equipamento para que a instalação não traga risco para os usuários”, defende Villarrubia.

O respeito ao manual do fabricante é uma recomendação geral. “Consideramos essencial que o profissional siga as instruções elaboradas pelo fabricante e que estão nos manuais de instalação. Isso assegura o perfeito funcionamento do produto, bem como propicia a durabilidade do mesmo”, corrobora Pires.

“Após passagem de infraestrutura, é imprescindível a realização de testes de estanqueidade nas tubulações; a limpeza da infraestrutura com fluído 141B; e atenção às conexões, sejam roscadas ou soldadas. Em seguida temos o processo de desidratação do sistema (processo de vácuo) que é realizado com uma bomba de vácuo e deve ser monitorado por uma ferramenta chamada vacuômetro até atingir o nível orientado pelo fabricante, que pode variar entre 300 a 500 micra. Após isso, é liberada a carga de fluído do equipamento e, caso haja necessidade, é feita uma carga complementar de fluído monitorado com uma balança eletrônica”, completa Miranda.

Ferramentas e instrumentos

Mauro Mendonça, diretor de vendas da Vulkan Lokring, entende que os split e mini-split, de até 60.000 BTU/h são muito fáceis de instalar. “Eles já vêm com a quantidade de gás refrigerante e totalmente de acordo com as especificações de fábrica para tubulações mais usuais, de pequeno comprimento, normalmente até 3 metros. As atenções do instalador neste caso devem estar voltadas para a correta ligação elétrica, furação correta dos suportes das condensadora e evaporadoras nas paredes e na análise de melhor posição do equipamento dentro do edifício, para tirar o maior proveito da sua climatização e evitar gastos desnecessários com longas tubulações e linhas de dreno. Um ponto muito importante que gera problemas de vazamento é a flange malfeita, aliado ao fato de se apertar a porca com torque errado, excessivo ou folgado demais. Seguramente os pontos de flange são os mais sensíveis em termos de vazamentos. Pesquisas nos Estados Unidos mostram que mais de 70% dos vazamentos em ar condicionado ocorrem em flanges feitas manualmente”. O diretor da Vulkan diz, ainda, que o uso de conectores Lokring, ou a brasagem, são raramente utilizados em pequenos condicionadores de ar, uma vez que até 15 metros (nas panquecas de tubo de cobre ou alumínio) geralmente não é necessária a realização de emendas e uniões.

“As ferramentas básicas para uma instalação são: flangeador, curvador, conjunto manifold, balança eletrônica, bomba de vácuo, vacuômetro, termômetros e ferramentas gerais”, esclarece Miranda.

Villarrubia insiste que o instalador se atenha ao manual do fabricante, também no que toca ao ferramental. “Porém, hoje notamos uma deficiência nas bombas de vácuo. Muitos desses equipamentos no mercado estão ruins e com falta de manutenção.  Além disso, um equipamento adequado para fazer brasagem (solda) é fundamental durante a instalação. Também é imprescindível que o profissional possua um bom equipamento que garanta a limpeza interna das tubulações.”

Instalação das unidades externa e interna

Cada fabricante ou cada produto tem a sua particularidade a respeito das distâncias máxima e mínima. Essas são devidamente informadas no manual de instalação do produto e devem ser respeitadas. O não atendimento dessa especificação pode levar o produto a problemas precoces, tais como: vibração, quebra de tubos, danos ao compressor e até mesmo ter o seu rendimento afetado.

“As condensadoras devem estar em uma área livre e de fácil acesso para a manutenção preventiva ou corretiva. O local deve ser aberto, obedecendo as distâncias para não haver bloqueio de troca de ar com o condensador; e deve ser adequado para prevenir eventual ruído que afete o usuário ou a vizinhança. A condensadora deve estar bem fixada por suportes ou apoio em pés de borracha para garantir que não haja ruídos excessivos”, recomenda Pires.

No caso das evaporadoras, segundo Renato Kohn, é importante avaliar a localização da instalação de modo a viabilizar a perfeita distribuição de ar, evitar instalações sobre equipamentos elétricos e eletrônicos e respeitar o desnível entre as unidades.

“Os distanciamentos e desníveis devem obedecer rigorosamente às orientações do fabricante. Outro fator que deve ser respeitado são as espessuras e diâmetros dos tubos, que podem ser alterados de acordo com capacidade ou metragem da infraestrutura. Devemos respeitar o acesso para manutenções e que não haja qualquer impedimento para circulação do ar. Assim como observar a rede de dreno e a posição adequada do evaporador para que haja uma boa distribuição do ar no ambiente a ser condicionado”, explica Miranda.

O técnico da Trane insiste na importância de respeitar as distâncias mínimas entre a parede e a condensadora, especificadas nos manuais dos fabricantes. “Isso é importante para garantir que o equipamento tenha uma boa ventilação. Caso não tenha uma boa ventilação, a condensadora pode perder eficiência. A distância da tubulação também deve ser respeitada para não impactar no funcionamento do equipamento. Vale lembrar que a condensadora é uma fonte de ruído e que é preciso levar em conta esse aspecto durante a instalação.
O ideal seria que todas as instalações tivessem um projeto para que, ao ser instalado, o ruído emitido não interfira na vizinhança. Por isso, é importante um projeto preliminar para levantar os prós e contras de cada instalação e saber exatamente onde a condensadora ficará posicionada. Na maioria das vezes esse projeto não existe, e a instalação do equipamento acaba sendo feita no local mais fácil. Mas, muitas vezes, o local mais fácil não traz a melhor condição para o ambiente”, diz ele.

“Os responsáveis pela arquitetura de um projeto tentam “esconder” as condensadoras por uma questão visual. É possível fazer isso desde que a condensadora esteja preparada para esse tipo de projeto. O problema é que alguns profissionais acabam criando artifícios para resolver o problema de ruído que não são adequados para o funcionamento da unidade condensadora, acabando por não atender as distâncias mínimas necessárias ou até mesmo adotando medidas equivocadas. Ou seja, para qualquer instalação de condensadora que foge do padrão descrito nos manuais, o instalador não deve tomar a decisão sozinho. O caminho correto seria o instalador entrar em contato com o fabricante do equipamento e expor a situação encontrada para obter as orientações corretas para cada tipo de instalação”, recomenda Villarrubia.

Existem vários modelos de evaporadoras. Cada modelo tem um perfil de cliente, uma altura adequada e uma distribuição de ar diferente. Assim como nas condensadoras, também devem ser respeitadas as distâncias mínimas durante a instalação, mas o ideal é que seja realizado um projeto para entender a necessidade de cada cliente em cada local. Através do projeto é possível definir e selecionar qual evaporadora atenderá a necessidade do ambiente.

“Cada modelo de evaporadora tem um tipo de distribuição de ar diferente. E o que acontece muitas vezes é que a arquitetura preza por uma solução que nem sempre é a melhor opção para o usuário. Por exemplo, se o jato de ar está direto numa pessoa, isso pode gerar problemas de saúde ou no mínimo um desconforto. Por isso, a distribuição de ar precisa ser estudada. Infelizmente no mercado brasileiro muitas instalações não possuem projetos e são feitas de forma inadequada. Ainda falta no mercado uma integração total da engenharia civil, arquitetura e profissionais de ar condicionado. Tem muita obra ainda que não leva em consideração o sistema de ar condicionado”, diz Villarrubia.

O que é uma instalação de qualidade

Pires, da Elgin, entende que uma instalação de qualidade é aquela que “atende aos requisitos técnicos definidos pelos fabricantes, bem como respeita as normas técnicas para a instalação elétrica e de segurança, garantindo não só a vida útil prolongada do equipamento, e que o consumidor usufrua do conforto de um equipamento que funcione dentro das especificações de fábrica. Destacamos, também, que as empresas prestadoras de serviço que são autorizadas dos fabricantes, possuem instaladores capacitados, treinados e aptos a executarem esses serviços de forma padronizada e em total sintonia com as melhores práticas recomendadas pelos fabricantes. Adicionalmente, essas, por serem autorizadas, oferecem ao consumidor peças originais e serviço coberto pela garantia original do produto.”

“Uma boa instalação é aquela que o cliente nem percebe o ar condicionado. Ele não escuta ruído. Entra no ambiente e o local está homogeneamente condicionado. Ou seja, qualquer lugar em que ele for estará com uma temperatura agradável, sem o desconforto do jato de ar batendo direto etc. Para chegar nessa boa instalação é imprescindível obedecer a todas as orientações e especificações descritas no manual dos equipamentos, respeitar os limites das salas condicionadas, saber exatamente a rotina do cliente e qual o tipo de utilização do ambiente para selecionar o equipamento adequado. Por exemplo, existem equipamentos específicos para locais onde as pessoas ficam sentadas o dia inteiro e outros para locais de grande circulação, como farmácias, academias etc. Além disso, é preciso estar atendo para os equipamentos tipo mini-splits que hoje possuem recursos de automação para garantir a facilidade de operação do usuário. Outro ponto fundamental no nosso mercado é utilizar equipamentos que tenham uma boa eficiência energética. Quando você seleciona equipamentos com uma eficiência energética melhor e mais sazonal, você promove uma boa prática de instalação, conservando energia e migrando para um mundo cada vez mais sustentável”, conclui Fernando Villarrubia.

Recomendações adicionais

Mauro Mendonça, diretor de vendas da Vulkan Lokring, opina que para alcançar bons resultados na instalação, no caso de splits de pequeno e médio portes, basta seguir a quantidade de fluido refrigerante recomendado pelo fabricante. “No caso de ser necessária a utilização de uma bomba de dreno por falta de acesso à drenagem por gravidade, sugerimos utilizar uma bomba de boa qualidade. Muitas bombinhas atuais disponíveis no mercado são de baixa qualidade e podem comprometer instalações, danificar gesso e acabamentos, caso travem ou vazem. Por isto, procure as mais confiáveis do mercado, mesmo que com preços maiores. Existem geralmente dois tamanhos: vazão até 24 L/h (pequenos e médios) e para grandes equipamentos, ou seja, acima de 50.000 BTU, uma bomba de dreno (ou também chamada de remoção de condensados), de 40 L/h. Importante sempre instalá-la na posição horizontal.”

No caso de instalação de ar com linha de mais de 15 metros, Mendonça diz que geralmente é preciso fazer uniões, “já que os tubos comumente encontrados no mercado são de até 15 metros. Além disto, por este mesmo motivo, deve-se completar a carga de gás. Por isto, nestes casos, geralmente para equipamentos maiores, se faz necessário seguir as recomendações de instaladores qualificados e experimentados, que vão desde o uso de uma junta Lokring ou uma solda muito bem feita e com nitrogênio passante (algo que poucos fazem na prática e que pode comprometer toda a parte interna da tubulação); uma bomba de vácuo duplo estágio de qualidade; e uso do manifold e balança de precisão para a correta pesagem do gás refrigerante a ser injetado no sistema.”

Da redação

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