O conceito de Indústria 4.0 começou a ser esboçado no início da presente década como estratégia de alta tecnologia para a década seguinte. A expectativa é que essa, que se convencionou chamar quarta revolução industrial, traga melhorias nos diversos processos industriais, como, operação, engenharia, planejamento e controle da produção, logística e análise contínua durante todo o ciclo de vida de produtos e serviços. A expectativa é que, apoiada nos sistemas cibernético-físicos (CPS) e Internet das Coisas (IoT), a produção fabril será levada a um novo patamar em que a configuração dinâmica é elevada acima da produção e seus processos. O projeto inicial do produto pode ser alterado a qualquer momento. Interconexão de dados, integração e inovação marcam a nova fase da indústria.

A quarta revolução industrial, como alguns conceituam, está lastreada em conceitos e ferramentas desenvolvidas particularmente a partir dos anos 1970. Big data, computação em nuvem, internet industrial das coisas, realidade virtual, autonomia robótica, segurança cibernética e simulação e impressão 3D pareciam, há 50 anos, criações alucinadas de mentes como as de Isaac Asimov, Philip K. Dick ou Arthur C. Clark. Nada a estranhar, um século antes Julio Verne aguçava a imaginação de gerações com suas fantásticas viagens espaciais e com as aventuras do capitão Nemo e seu inimaginável submarino Nautilus, artefato sustentável movido a energia elétrica.

Traduzindo para a cotidiana linguagem dos negócios, Jorge Zato, Gerente Corporativo de Engenharia e P&D da Trox do Brasil, resume: “A Indústria 4.0 é resumidamente conectar o cliente diretamente com a produção, e essa aos seus fornecedores de forma a obter uma resposta mais rápida e com menor custo. No chão de fábrica a Indústria 4.0 é, essencialmente, automação, inclusão de sensores de forma ostensiva e conectividade. A indústria em geral, incluindo a do setor de AVAC-R, pode se beneficiar do potencial de ganhos de produtividade, melhor atendimento às expectativas dos clientes, redução do consumo energético, redução de custos de manutenção, redução de estoques, redução de custos administrativos e melhoria da previsibilidade.”

O conceito Indústria 4.0 conecta-se diretamente ao de Internet das Coisas, ou Internet of Things (IoT), que na explicação didática de Zato é, simplesmente, a conectividade de todas as coisas que estão ao nosso redor, de um carro à uma turbina de aviação, de um garfo à um saco de lixo. “Esta conectividade permite o compartilhamento de dados e até ações conjuntas. Por exemplo, um saco de lixo pode estar conectado de forma a propiciar aos órgãos públicos a verificação da sua correta destinação. Um garfo conectado à internet pode nos informar todos os dados nutricionais de um alimento em contato com o mesmo.  Os termos “Internet das Coisas” e “Indústria 4.0” têm em comum a conectividade, o primeiro voltado aos objetos ao nosso redor, o segundo voltado para a produção destes objetos”, explica.

Rogério Pires, da Epex, considera que a Indústria 4.0 é uma realidade sem volta. “Para ser didático, tomo emprestado da página oficial da ABDi (Agência Brasileira de Desenvolvimento industrial) a seguinte definição: ‘As 3 primeiras revoluções industriais trouxeram a produção em massa, as linhas de montagem, a eletricidade e a tecnologia da informação, elevando a renda dos trabalhadores e fazendo da competição tecnológica o cerne do desenvolvimento econômico. A quarta revolução industrial, que terá um impacto mais profundo e exponencial, se caracteriza por um conjunto de tecnologias que permitem a fusão do mundo físico, digital e biológico.’  Visto desse prisma, podemos, sim, chamar de revolução e seus efeitos começam a esboçar os primeiros impactos em nossa vida cotidiana e acarretará, em um futuro muito próximo, mudanças profundas em todas as áreas de nossas vidas, e essas mudanças  não passarão ao largo do nosso setor de AVAC-R.”

Ou, como prefere Ranieri Calza, gerente industrial da Midea Carrier, “Indústria 4.0 ou Quarta Revolução Industrial é uma expressão que engloba algumas tecnologias como conectividade, robótica entre outras. Na produção de equipamentos AVAC-R surge através da possibilidade de acompanhamento da manufatura em tempo real e rastreabilidade dos produtos e processos. IoT é a possibilidade de interconectividade de vários dispositivos e diferentes plataformas permitindo a interação entre processos. Essa conectividade é o fundamento da Indústria 4.0.”

A Midea Carrier já incorpora os conceitos em sua linha de produção com iniciativas de integração de abastecimento logístico e produção através de um AIV (Autonomous Intelligent Vehicles), bem como nas máquinas operatrizes com programação e monitoramento via escritório e rastreabilidade de testes dos produtos manufaturados.

Na fábrica da Midea Carrier em Canoas, RS, sensores instalados nas máquinas informam a porcentagem de utilização de recursos e, com um sistema online, é possível ter a supervisão do parque fabril. “Em alguns setores da fábrica estão mais avançados, outros ainda em implementação. Os conceitos mais evidentes estão na estampagem de peças. A utilização destes conceitos deixa a indústria mais competitiva, com melhor aproveitamento dos recursos disponíveis e, com uma supervisão online, temos um tempo reduzido para tomadas de decisões importantes”, explica Calza.

Na Epex a presença dos novos conceitos mostra-se, por enquanto, na área de logística. Mas Pires entende que, até em função da pressão do varejo, eles devem difundir-se para as áreas de produção. “Estamos em fase de projetos de investimentos, mas no nosso tipo de indústria imaginamos que haverá sim automação do sistema fabril, mas o maior impacto será no sistema de logística.”

Também a Trox tem buscado incorporar os novos conceitos à produção. “Algumas ações pontuais já foram iniciadas, como o desenvolvimento e aplicação de ferramentas de MES e APS na Produção com a inclusão em poucas semanas de painéis digitais para acompanhamento em tempo real da produção no chão de fábrica. A base para a implantação da Indústria 4.0, que é a adoção do Lean Manufacture, já é adotada na Trox há vários anos, e temos um programa próprio apelidado internamente de TPS (Trox Production System)”, conta Zato.

No caso da Trox, a introdução dos conceitos 4.0 e IoT começou com a participação em diversos eventos relacionados ao tema, inclusive treinamentos específicos, de forma a desmistificar o assunto e assim conhecer as ferramentas disponíveis e a sua aplicabilidade no contexto da empresa. Zato diz que, por iniciativa da matriz alemã, o grupo criou um comitê Internacional composto por 9 grupos de trabalho voltados para a transformação digital que iniciou as atividades este ano. “Em 2016”, continua Zato, “quando comemoramos 40 anos da Trox no Brasil, paramos para avaliar o que faríamos nos próximos 40 anos de forma a manter o sucesso e a liderança de mercado, e a partir desta reflexão surgiram várias propostas a serem adotadas nos próximos anos. Uma delas foi a de iniciar a jornada digital, então, em 2016, surgiu o projeto IoTrox, aplicado num primeiro momento aos seus produtos.”

Aplicação aos produtos

 Ranieri Calza exemplifica a aplicação dos conceitos com o aparelho de ar-condicionado split Springer Midea Inverter com Wi-fi. “Com o kit de conectividade, comprado a parte, o consumidor consegue controlar a temperatura à distância por meio de um aplicativo no celular”, diz ele.

O projeto IoTrox, lançou a prototipagem tanto de IoT como de realidade aumentada em alguns produtos que seriam expostos na Febrava de 2017. “Os trabalhos iniciaram de forma acelerada e em setembro de 2017 lançamos a prototipagem de IoT e realidade aumentada de uma UTA e em um Split Inverter, com os quais ganhamos o selo inovação da feira. Todo este trabalho foi desenvolvido no Brasil e por equipe própria, que teve que desvendar novos conceitos para encarar o desafio. Após o evento iniciamos os trabalhos para implementar a solução de IoT e, no fim de 2018, lançamos o primeiro produto conectado. A Cabine de Segurança Biológica TLF 4.0 já nasceu com conectividade, todas as informações podem ser armazenadas na nuvem Trox e o cliente pode acessá-las em tempo real de qualquer lugar do mundo e o sistema promove ações automáticas sem a necessidade de intervenção humana. Em mais algumas semanas estaremos lançando nosso segundo produto conectado, o Split Inverter TSI e, na sequência, teremos mais produtos Trox conectados. Também temos previsto para o próximo ano investimentos em realidade aumentada”, adianta Zato.

Ainda que não estejam totalmente disseminados, os conceitos de IoT e Indústria 4.0 tendem a se impor em pouco tempo. É o que pensa Calza, da Midea Carrier, para quem “é notório o ganho que traz para o setor, é importante lembrar que precisamos primeiramente aprimorar os processos antes de aplicar conceitos da Indústria 4.0. Ainda estamos no início dessa transformação, com grandes oportunidades de explorar cada vez mais este tema, que com certeza se torna cada vez mais importante para garantir a competividade das empresas do setor.”

Para Jorge Zato a jornada digital está apenas começando e em constante transformação. “São novos conceitos, quebras de paradigmas, e com muitas alternativas. Alguns setores já estão mais desenvolvidos, no setor AVAC-R a transformação digital ainda está iniciando.

E este conceito tem dois lados, o olhar para dentro da empresa (Indústria 4.0) e o olhar para fora, para o cliente (IoT). Algumas empresas estão mais avançadas em um, e outras no outro, e raramente nos dois.”

O setor de isolamentos é um exemplo da situação descrita acima. “Creio que logo veremos a influência do IoT agindo diretamente no isolamento térmico. Digo isso, não somente  para grandes sistemas, mas para unidades split, com as unidades inteligentes conseguindo detectar o momento que o isolamento perde sua eficiência, devido má instalação, absorção de umidade, craqueamento por ação de UV etc. Então, a unidade não avisará somente sobre necessidade de manutenção básica como troca ou limpeza de filtro, mas indicará esse detalhe da instalação, que hoje passa despercebido da grande maioria dos usuários, mas está diretamente ligado à eficiência e custo energético do equipamento”, acredita Pires.

“O conceito de IoT está voltado para o cliente final e este em geral ainda não conhece as tecnologias e os benefícios disponíveis. Cabe à indústria do AVAC-R e às instituições de fomento divulgar este novo conceito. Especificamente a Trox tem participado de eventos divulgando IoT e contribuindo com a formação do conceito no mercado. Mas é um trabalho difícil porque trata-se de quebra de paradigmas”, entende o gerente da Trox.

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