O Brasil é signatário do Protocolo de Montreal, em vigor desde janeiro de 1989, cujo objetivo inicial era a eliminação de substâncias nocivas à camada de Ozônio. Num primeiro momento os alvos foram os CFCs para, em seguida, incorporar os HCFCs ao programa de substituições. Composições de HFCs (hidrofluorcarbonos) pareciam ser as escolhas seguras e eficientes.

Não demorou para que o mundo percebesse que, se não causava danos à camada de Ozônio, a nova geração de fluidos trazia um impacto brutal sobre o sistema climático global. Em outubro de 2016 os Estados Partes do Protocolo de Montreal decidiram, em sua 28ª. reunião, realizada em Kigali, Ruanda, pela inclusão dos hidrofluorcarbonos na lista de substâncias a serem substituídas por compostos mais amigáveis, a chamada Emenda Kigali.

Na refrigeração passou-se a trabalhar com diferentes alternativas capazes de aliar desempenho energético, segurança das instalações e reduzido dano ao meio ambiente. Parte das aplicações ensaia uma volta aos refrigerantes naturais, como amônia, CO2, propano e butano. Renascem alternativas que combinam dois ou mais refrigerantes em sistemas cascatas.

Como a solução única inexiste, a indústria continua a desenvolver refrigerantes que ofereçam saída às diversas aplicações. É o caso das HFOs (hidrofluorolefinas), substâncias químicas desenvolvidas para substituir HCFCs e HFCs em retrofits ou novos equipamentos. Uma notícia alvissareira, quando se observa que os limites para o uso dos HCFCs – sendo o R22 o mais usual na refrigeração – se estreitam cada vez mais. Marcados para morrer em 2040, as limitações e barreiras para sua utilização são cada vez maiores, tendendo para a elevação do seu custo no mercado.

Segundo Joana Bercht Canozzi, coordenadora técnica de fluorquímicos da Chemours, HFOs constituem-se em “uma solução que não degrada a camada de ozônio, além de possuir baixo potencial de aquecimento global (GWP). Atualmente essa classe de produtos já vem sendo selecionada para aplicações industriais e em centros de distribuição (CD) apresentando desempenho bastante positivo e equilíbrio entre performance, segurança e sustentabilidade. Novos equipamentos projetados com HFOs também podem substituir antigos sistemas de amônia, caso a toxicidade seja uma preocupação e a empresa tenha interesse em investir em um novo equipamento, já que esse tipo de solução vem sendo proposta por empresas projetistas do setor.”

Entretanto, é necessário estabelecer algumas diferenças, diz Carlos Obella, vice-presidente de serviços de engenharia e gestão de produtos na Emerson. “Cabe diferenciar HFOs puros das misturas que contam com HFO em sua composição. Na realidade, as aplicações industriais tendem a ser 100% natural, combinando amônia em pequenas quantidades, em ciclos de resfriamento secundário com glicol e CO2 subcrítico para baixa temperatura. Sistemas 100% CO2, subcrítico e transcrítico, também formam parte desta mesma ‘tendência natural’. Os HFO puros podem substituir a amônia neste tipo de arquitetura de sistema.”

Canozzi ressalva que o desempenho do sistema dependerá do produto selecionado, já que a linha de HFOs oferece diferentes soluções. “Bons resultados têm sido obtidos, como no caso da empresa Frigo Foods que optou pelo fluido refrigerante OpteonTM XP40 para substituir o R-404A em uma de suas câmaras frigoríficas. Além de reduzir em 67% o impacto ambiental da operação do equipamento, a adoção do fluido proporcionou economia de 9% no consumo de energia, o que cobre o investimento da mudança de fluido em um curto prazo.”

Ainda, de acordo com informações da Chemours, o OpteonTM XP40 (R-449A) é uma mistura a base de HFO que pode ser aplicada tanto em equipamentos novos, quanto para retrofit de equipamentos existentes que operam com R-404A ou R-22 em média ou baixa temperatura. Trata-se de um fluido refrigerante que não degrada a camada de ozônio (ODP = Zero), reduz o GWP em 67%, quando comparado ao R-404ª, e em 27%, em relação ao R-22. No Brasil mais de 50 instalações já operam com esse fluido, ainda de acordo com a empresa.

“Entretanto”, continua a coordenadora técnica da Chemours, “caso o objetivo seja redução máxima de GWP, o cliente poderá optar pelo OpteonTM XL20 (R-454C) ou OpteonTM XL40 (R-454A). Estes fluidos refrigerantes substituem o R-404A e o R-22 somente em equipamentos novos, oferecendo ótimo desempenho e baixíssimo impacto ambiental. Porém, sua aplicação requer pequenas alterações no projeto dos equipamentos uma vez que são produtos classificados como levemente inflamáveis (Classe A2L). O OpteonTM XL40 apresenta redução de GWP de 94%, quando comparado ao R-404ª, e o OpteonTM XL20 de 96%. Confrontado ao R-404A, sendo que este último atende aos mais rígidos requisitos da F-Gas e Eco-Design com valores de GWP abaixo de 150. Ambos fluidos já estão sendo utilizados globalmente.”

Obella alerta para os detalhes. “HFO puros possuem ODP próximo a zero e GWP igual a 1. Muito similar ao CO2 e ao propano (GWP = 3). Os HFOs puros são ligeiramente inflamáveis (A2L, segundo a Ashrae 34).”

Segurança

Outro item a ser observado quando da utilização de fluidos refrigerantes é a segurança, tanto do pessoal de operação e manutenção, quanto da própria instalação. Importante lembrar que riscos existem e para preveni-los existem normas e orientações. “Os fluidos refrigerantes compostos por hidrofluorolefinas (HFO) atendem, sim, aos requisitos das normas e recomendações técnicas vigentes. Entretanto, é importante salientar a importância de seguir estritamente as normas de construção de equipamentos e segurança, bem como as instruções dos projetistas e fabricantes de equipamentos. Porém, é importante esclarecer que nem todas as misturas de HFOs são inflamáveis. A linha Opteon™ de HFOs da Chemours oferece tanto fluidos não inflamáveis, categoria A1, como o OpteonTM XP40 (R-449A), quanto opções levemente inflamáveis, classificadas como A2L, como o OpteonTM XL20 (R-454C). Independente da sua classificação, todos os fluidos refrigerantes oferecidos pela Chemours já estão contemplados nas normas brasileiras vigentes, mas reiteramos a importância de atentar para a aplicação indicada pelo fabricante e o uso correto em equipamentos desenhados para operar com o tipo de produto adequado a aplicação, a fim de garantir não somente segurança mas também a eficiência esperada”, orienta Canozzi.

Sem dúvida, independente da aplicação ou da substância utilizada, cuidados devem ser tomados para evitar ocorrências danosas ou até mesmo fatais. Numa instalação de proporções industriais, que comporta significativas quantidades de refrigerante, os cuidados devem ser redobrados. Por isso, Canozzi faz algumas recomendações:

  • 1 – Utilizar sempre EPI (Equipamento de Proteção Individual), como óculos de segurança, luvas de proteção, roupas de manga, calças compridas, sapatos fechados e outros itens que podem ser recomendados conforme as instruções da FISPQ e dos profissionais de segurança no trabalho; é importante ainda adequar os EPIs conforme os equipamentos e produtos que serão manuseados no local.
  • 2 Manter as áreas sempre ventiladas e protegidas do sol, tendo a certeza que a área para armazenar e manusear o produto é adequada conforme os limites seguros necessários.
  • 3 Ter atenção ao recolher o fluido refrigerante, não reutilizar ou reaproveitar as embalagens descartáveis e fazer o recolhimento dos fluidos em recipiente próprio.
  • 4 Atenção à carga de fluido refrigerante: recomendamos utilizar uma balança para pesar a massa do produto e não utilizar mantas térmicas.
  • 5 Garantir que o equipamento de refrigeração opere com um fluido refrigerante adequado e de qualidade. É importante que o fluido não apresente qualquer tipo de impureza, umidade, partículas sólidas e muito menos contaminantes em sua composição, pois, do contrário, compromete a garantia de qualidade e rendimento do sistema, além de oferecer riscos à saúde e segurança do profissional; procurar adotar um sistema de controle e inspeção eficiente na operação, para melhorar a qualidade e eficiência do produto.
  • 6 A atualização do conhecimento é uma poderosa ferramenta para o profissional que deseja se manter ativo no mercado; normas e regulamentos, tais como as normas brasileiras da ABNT e normas internacionais como as da ISO, são sempre revisadas para garantir os aspectos de segurança adequados aos profissionais.
  • 7 Conhecer as características de inflamabilidade e toxicidade do fluido que será utilizado é importante para garantir as medidas de segurança adequadas. Verificar sempre o manual do produto químico, mais conhecido como FISPQ (Ficha de Informação de Segurança do Produto Químico), antes de manusear, transportar e armazenar o produto; é importante manter a FISPQ sempre em mãos pois em caso de acidentes ela é uma importante fonte de informações para o socorrista.

“A aplicação e manuseio de fluidos classificados como A2L requer alguns cuidados adicionais que devem ser considerados tanto pelo projetista ao selecionar os componentes do sistema, quanto pelo técnico que irá manusear o produto, o qual deve receber treinamento adequado e utilizar os equipamentos próprios para essa classe de produto. Por isso recomendamos consultar sempre o fabricante do fluido que poderá orientar detalhadamente”, conclui a profissional da Chemours.

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