É senso comum que trabalhar em ambientes que proporcionem os mais diversos tipos de conforto tendem a ter rendimentos individuais e coletivos superiores a ambientes que não disponham desta qualidade.  A grande questão é como quantificar este acréscimo de rendimento em termos que seja possível avaliar financeiramente o retorno do investimento como fazemos, por exemplo, com questões relacionadas a energia.  A intuição nos diz que o investimento vale a pena, mas é muito difícil vender esta ideia sem ter como avaliar em planilhas ou similares os impactos financeiros de construção ou retrofit para atendimento destas necessidades.

Quando falamos em qualidade de ambientes interiores (IEQ), estamos focando em diversos aspectos tais como qualidade de iluminação, qualidade de materiais aplicados, nível de potência sonora, ergonomia, qualidade de ar interior, velocidades de ar, etc.  A maior parte do investimento nestes quesitos costuma apresentar custos iniciais superiores aos investimentos de referência de mercado destes requisitos.

Para cobrir algumas destas lacunas, nos últimos anos foram lançadas diversas certificações de construções que de alguma forma tornavam estes investimentos em pré-requisitos e, desta forma, os tornavam praticamente obrigatórios.  Por exemplo, a certificação LEED possui diversos pré-requisitos ligados a IEQ e diversos créditos que exigem níveis mínimos a serem cumpridos, de forma análoga, todas as demais certificações como  AQUA e BREAM,  têm seus mecanismos de garantia para prever níveis mais altos de IEQ que os edifícios referência de mercado.

Com a evolução de mercado foram aparecendo certificações especificas ligadas a IEQ como, por exemplo, a certificação WELL ou HBC (Healthy Building Certificate) que trabalham focadas em aspectos ligados às condições ambientais no trabalho.  Assim como certificações que têm como foco o impacto das condições de IEQ no ambiente interno e suas interações e integrações com a vizinhança, como o Living Building Challenge.

Através de todas estas realidades estamos nos familiarizando com termos como footprint (pegada) que deixamos durante o uso de nossas edificações e o impacto que este uso causa no meio ambiente, assim como as instalações podem causar impactos no ser humano que as habita.  Este é o ponto de partida para entendermos quais são as nossas metas e objetivos para interagir os ambientes externo e interno das edificações.

Com relação ao ambiente interno e suas implicações financeiras vamos nos guiar por alguns dados levantados pelo Dr. Joe Allen e sua equipe da Universidade de Harvard, em colaboração com o EPA (Environmental Protection Agency – Agência de Proteção Ambiental estadunidense).  Os dados colhidos na América do Norte representam números que não são muito diferentes dos nossos e servem como base para nossa conceituação.  Nós passamos aproximadamente 90% do nosso tempo em ambientes fechado,s seja moradia, trabalho ou em atividades de lazer ou cotidianas.   Com relação aos ambientes de trabalho temos uma relação de custos entre operação e custos com colaboradores de um para nove, ou seja, 90% dos custos ligados a uma edificação são relacionados ao capital humano e 10% a custos operacionais da edificação, incluindo custos com energia.  Obviamente estes números são nos EUA e têm algumas diferenças em relação aos nossos, mas para o desenvolvimento deste artigo vamos relevá-los.

A ideia é que mesmo sendo uma parcela significativamente maior dos custos, como não há métricas financeiras para cálculos de retorno, a única ferramenta de convencimento do investidor é o bom senso e, convenhamos, muitas vezes não há como tomar este caminho e grandes oportunidades são desperdiçadas.

Os estudos da Equipe do Dr. Joe Allen do HPSH da Universidade de Harvard

Para buscar maneiras de quantificar o valor financeiro de investimentos em IEQ diversos estudos estão sendo feitos por variados institutos e universidades e temos, a seguir, algumas informações sobre esses estudos.  A Universidade de Harvard está realizando um estudo liderado pelo Dr. Joe Allen para desenvolver métricas e considerações sobre o impacto dos Green Buildings nas funções cognitivas dos seres humanos.

No gráfico 1 podemos ver as diferenças de respostas cognitivas em variadas situações relacionadas a edificações convencionais, edificações certificadas e edificações com elevadas interações de IEQ.  (Figura pag 33 pdf Harvard )

O resultado mostra como se comportam os domínios cognitivos e como o ambiente os influencia, com estes dados é possível avaliar o potencial de acréscimo de produtividade relacionado aos investimentos a serem considerados.   O resultado acima é de 2015 e de lá para cá foram levantados dados para tornar estes resultados mais acurados.  Para obtenção destes dados foram observados em um primeiro momento trabalhadores em condições monitoradas em laboratório na Universidade de Siracuse (taxa de renovação de ar, índice de CO2 e VOC) e, em um segundo momento, trabalhadores em seus postos de trabalho em dez diferentes edifícios.   Em números absolutos o ganho de desempenho foi de aproximadamente 26% em edificações certificadas em relação a edifícios convencionais, sem contar índices de absenteísmo relacionados a ocupação de edifícios doentes; adicionalmente foi realizada pesquisa que demonstra que a qualidade do sono em ocupantes de edificações certificadas é 25% acima em relação a ocupantes de edifícios convencionais.

Para conclusão deste estudo, foi avaliado que melhorando a qualidade do ar interior através do acréscimo na taxa de ar externo, ao custo com energia de US$ 40 ao ano per capita, a produtividade individual seria acrescida em torno de US$ 6,000 a US$ 7,000 ao ano; obviamente estes números não são passiveis de transposição mecânica para nossa realidade, mas podemos fazer avaliações referenciadas nos salários médios e chegar a números em torno de R$ 5.000,00 por posto de trabalho, se considerarmos um salário de R$ 2.000,00 mensais na média.

A chancela de uma equipe multidisciplinar de uma universidade com a credibilidade de Harvard – O Dr. Joe Allen é médico e sua equipe faz parte da Harvard T.H.Chan School of Public Health ( HPSH) – ajudam a endossar estes números.

Com estes resultados podemos avaliar a possibilidade de criar tabelas e equações que nos permitam ao menos entender as taxas de retorno financeiro para os investimentos ligados ao bem-estar dos ocupantes de edificações.

Os estudos da equipe do Dr Manoel Gameiro na Universidade de Coimbra

A Universidade de Coimbra desenvolve atualmente um trabalho dirigido à monitoração das variáveis ligadas à qualidade do ambiente interior, o protótipo deste analisador armazena dados relativos a temperatura de bulbo seco, umidade relativa do ar, temperatura de globo, concentração de CO2 , iluminância, velocidade do ar e índices de VOC.  Todos estes dados geram bancos de armazenamento e classificam o ambiente em relação aos dados colhidos.  Esta categorização se dá em bases às normas EN 16798-1 e EN 15251-Iluminação.

Na figura 1 é possível visualizar inúmeras variáveis de conforto ambiental simultaneamente e gerar gráficos sobre cada uma delas. Figura ppt gameiro pag 30

O estudo já colheu dados de diversos ambientes e analisou o impacto destas condições na produtividade humana.

Abaixo temos dados monetários relativos ao decréscimo de produtividade de 2% relativos a condições ambientais de menor bem-estar.

Edifício de escritórios com indicador de consumo de energia final de 120 kWh/(m2 ano) e taxa de ocupação de 12 m2 / pessoa

Custo energético de uma pessoa por ano:

12 m2/p x 120 kWh/(m2. ano) x 0.13 €/kWh = 187.2 €/(p. ano)

Considerando um custo por hora de 20 € / h e uma produtividade do trabalho, muito modesta, de 60% para a empresa sobre o custo do trabalho, o benefício gerado em um ano por um trabalhador é:

11 meses/ano x 22 dias/mês x 7 h/dia x 20 €/h x 0.6 = 20 328 €/(p. ano)

Se há uma redução de 2% no rendimento do trabalhador devido a uma mudança de 2ºC em relacão com o intervalo ideal de temperatura interior, ou porque a taxa de fluxo de ar fresco se reduz a 80% do valor ideal. A perda de produtividade por redução do bem-estar corresponde a:   0,02 x 20 238 €/(p.y)  =  406 €/(p. ano)

Conclusão

Ainda que não tenhamos uma métrica acurada para avaliar financeiramente os benefícios da qualidade do ambiente interior, os exemplos contidos neste artigo podem ao menos indicar um caminho mais seguro de como avaliar tais impactos em ambientes com alto grau de IEQ  e todas as vantagens para quem decide investir no bem-estar humano.

Estamos desenvolvendo cálculos que nos permitam avaliar de forma cada vez mais acurada o retorno destes investimentos, traçando de um lado os ganhos cognitivos relativos ao grau de bem-estar gerados pelos índices de IEQ a serem implantados e, do outro, a redução de absenteísmo ligado às condições ambientais dos espaços de trabalho.  Por enquanto estas avaliações estão sendo desenvolvidas caso a caso, mas nossa intenção é criar formatos genéricos que nos permitam interação com os resultados obtidos.

Creio que com estas ferramentas a nossa capacidade de convencimento das vantagens de se investir em bem-estar e sustentabilidade de edificações será mais fácil de ser demonstrada e compreendida pelos ocupantes e investidores, dando, assim, mais um passo no caminho que leva a uma produtividade saudável e menos estressante.

Referências

CAPPELEN, Leo Van; GAMEIRO DA SILVA, Manuel; SANJUANELLO, Eduardo. Avaliação e Comunicação da Qualidade de Ambientes Interiores in CIAR Chile 2019.

SWENSON, Michael. The Blackstone Harvard Green Tour in GBC Conference 2017.

BABUR, Oset. The Cognitive  Benefits of Healthy Buildings. in Harvard Magazine, Maio/Junho de 2017 (https://harvardmagazine.com/2017/05/cognitive-benefits-of-healthy-buildings)

ALLEN, Joseph G.; MAcNAUGHTON, Piers; SANTANAN, Suresh; SATISH, Usha; SPENGLER, John D. The impact of green buildings on cognitive function. Harvard University Site. (https://green.harvard.edu/tools-resources/research-highlight/impact-green-buildings-cognitive-function)

Marcos Antonio Vargas Pereira, engenheiro mecânico sênior (FAAP 1988), pós graduado em Refrigeração e Ar Condicionado (FEI 1998), extensão em QAI pelo PECE da POLI-USP (2008), Building Commissioning Professional (ASHRAE -2018), membro do sub-comitê de exames profissionais da ASHRAE desde 2015, diretor técnico-comercial da Térmica Brasil

 

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