Quando se toma exclusivamente o mercado doméstico, o programa de eliminação dos HFCs, no âmbito da Emenda de Kigali, não traz grande preocupação. Em termos: há que se considerar que o Brasil é importador de fluidos refrigerantes e de muitos dos componentes e equipamentos utilizados. Neste aspecto, ainda que com algum tempo para se programar, uma vez que a redução do consumo só tem início a partir de 2029, há que considerar outros aspectos.

“Devemos estar preparados, pois não há como não pensar em um contexto globalizado da tecnologia. Nos países ditos Artigo 2 (ou não-Artigo 5) a mudança na opção do fluido refrigerante está impactando rapidamente as características construtivas dos projetos e devemos acompanhar a evolução desse cenário. A Bitzer Brasil, por exemplo, é desenvolvedora e produtora de tecnologia de refrigeração para o mercado doméstico e América do Sul, estando em consonância com as diretrizes da nossa casa matriz. Em nosso mercado existe um grande número de clientes finais que seguem as premissas de regimento da sede matriz europeia que, portanto, necessitam do equipamento alinhado com essa legislação local, assim como OEM nacionais que não estão poupando esforços para entregar a melhor tecnologia com base nas referências observadas no mercado dos países desenvolvidos, e que devemos prontamente atender. Nesse contexto, o impacto econômico para o Brasil deverá ser positivo pela condição de fornecimento da tecnologia de ponta, o que contribui para manutenção e crescimento da força de trabalho nacional, ou seja, devemos estar prontos para substituição da obsolescência tecnológica que gradualmente atingirá os equipamentos de refrigeração”, afirma Marcos Euzébio, engenheiro de aplicação da Bitzer.

Se no curto prazo as empresas deverão rever suas estratégias em relação aos produtos, haverá outras consequências com a mudança. “Em médio prazo, destacamos a questão dos preços, uma vez que seguindo a teoria da oferta x demanda, provavelmente os preços dos fluidos utilizados hoje vão subir e os novos vão reduzir o valor. Em algum momento isso será mais perceptível e a questão econômica fará com que qualquer mudança seja acelerada. O treinamento de pessoal técnico para aplicação e manuseio dos novos fluidos também deve estar na agenda para não enfrentarmos problemas que podem se refletir na qualidade das instalações e da aplicação dos equipamentos de frio e ar-condicionado”, entende Eládio Pereira, gerente de desenvolvimento de negócios da Danfoss.

Julio Kemer, da engenharia de aplicação da Trineva, chama a atenção para outros aspectos. “A hidrofluorolefina (HFO) foi desenvolvida para substituir os HFCs, sendo um fluido com zero potencial de destruição da camada de ozônio e potencial de aquecimento global reduzido em relação aos HFCs. Algumas substâncias são puras e outras misturas, e cada uma possui sua particularidade quanto a aplicação e segurança. Alguns HFOs possuem classificação de segurança A2L, levemente inflamáveis, o que exige projeto especial para que ofereça segurança ao sistema de refrigeração, e, também, apresentam custo elevado de aquisição. Quando misturas, é necessário o recolhimento do fluido durante manutenção ou substituição do equipamento, pois, está presente nesta mistura os HFCs, cujo descarte não é permitido.”

Na posição de fabricante de compressores para o mercado mundial, Homero Busnello, diretor de marketing e relações institucionais da Tecumseh do Brasil, salienta que a empresa desenvolve “tecnologia em soluções para refrigeração e condicionadores de ar no Brasil; como visamos o mercado internacional além do nacional, nosso portfólio de produtos está alinhado aos novos requisitos estabelecidos para os países membros da CE, por exemplo.” A empresa já identifica vários fabricantes, os chamados grandes OEMs, que já adotam os fluidos naturais em seus novos desenvolvimentos, quer sejam eles em refrigeração doméstica ou comercial.

Corroborando os argumentos de Busnello, o engenheiro da área de desenvolvimento técnico da Paranapanema/Eluma, Francisco Pereira de Almeida Barboza, diz que a empresa já pode observar “alguns fabricantes de equipamentos para o segmento utilizando fluidos alternativos aos HFCs e outros investindo em pesquisa e desenvolvimento. Então é possível notar que há um planejamento do setor para que a transição seja realizada sem grandes impactos.”

“De qualquer forma, os tubos de cobre, com exceção da amônia, são compatíveis e têm seu uso recomendado tanto para os fluidos à base de CFCs, HCFCs e HFCs, que estão em processo de redução de uso, quanto aos fluidos refrigerantes à base de hidrocarbonetos (HCs),  hidrofluorolefinas (HFOs), CO2 e sistemas a água”, completa Barboza.

Pereira, da Danfoss, alerta para uma possível obsolescência do mercado brasileiro, caso não abrace seriamente a questão. “Grande parte das fábricas dos produtos e equipamentos usados está fora do país. Isso criará uma pressão sobre o mercado brasileiro para acelerar qualquer mudança. Do contrário, o mercado pode correr o risco de não ter mais produtos disponíveis para os fluidos atuais, já que, em alguns países, existe a política de não se produzir mais produtos e equipamentos de fluidos refrigerantes em phase-out, pois isso pode impactar o mercado e acelerar qualquer movimentação às novas opções.”

Hidrofluorolefinas e os equipamentos em uso

Primeiramente é importante salientar que os HFOs não são opções drop-in, ou seja, para substituição direta dos HCFCs ou HFCs. Sendo, portanto, recomendados para novos projetos. “De maneira geral a vantagem no uso dos HFOs (hidrofluorolefinas) é a adequação à condição de menor impacto ambiental, requisito da legislação. A faixa de aplicação é majoritariamente AT (alta temperatura) e MT (média temperatura), sendo também utilizados como componentes de misturas para os refrigerantes de transição (blends HFC+HFO). Por estarem em princípio de viabilização de mercado o preço ainda é elevado, mas, a exemplo dos antecessores, a maior demanda terminará por reduzir os preços, não havendo como arriscar uma previsão para essa acomodação no mercado”, esclarece Euzébio.

Quanto à aplicação, o engenheiro da Bitzer alerta para a classificação A2L de inflamabilidade dos HFOs, o que eleva os requisitos de segurança dos projetos. “HFOs puros basicamente estão disponíveis como R-1234yf, R-1234ze, R-1336mzz-Z e DR-2. Faixa de aplicação para alta e média temperaturas de evaporação, e com vários cases em bombas de calor. São refrigerantes A2L, ou seja, com grau de inflamabilidade intermediário e o COP apresentado para as aplicações recomendadas é ligeiramente inferior ao R-134a nas mesmas condições.”

Euzébio diz, ainda, que além de seu grau de inflamabilidade (A2L) , o que requer projetos especialmente desenvolvidos para tal grau de segurança, caso a caso deve-se observar as características termodinâmicas do fluido para que a seleção dos componentes esteja adequada à compatibilidade do material, velocidade requerida, miscibilidade com o lubrificante, assim como a garantia do grau de superaquecimento do vapor de sucção requerido pelo fabricante do compressor.

“Em relação às tubulações (tanto as tubulações utilizadas na fabricação dos equipamentos quanto as utilizadas na interligação entre equipamentos), os aspectos mais importantes a serem observados são a compatibilidade dos fluidos refrigerantes e dos óleos utilizados nos sistemas com as tubulações. Este cuidado deverá ser tomado não apenas para as tubulações, mas para as demais partes constituintes dos sistemas que terão contato com os novos fluidos. É importante que sejam sempre seguidas as recomendações dos fabricantes dos equipamentos, que as normas técnicas vigentes também sejam obedecidas e que sejam utilizados fluidos refrigerantes e tubulações de boa procedência, de forma a garantir um bom funcionamento dos equipamentos e sistemas. A qualificação do profissional que vai trabalhar com esses equipamentos também é importantíssima para a observação destes cuidados”, recomenda Barboza, da Eluma.

Busnello, da Tecumseh, aponta o propano R-290 como a escolha ideal para a refrigeração comercial, “possui baixo GWP e  temos tecnologia de alta eficiência energética; não nos preocupamos somente com a adoção de fluidos de menor impacto, mas também com o uso mais eficiente da energia gerada, são importantes fatores em nossos novos desenvolvimentos de compressores e unidades condensadoras.”

O diretor de marketing da Tecumseh recomenda outros substitutos, a depender da aplicação. “O R-134a pode ser substituído pelo R-513A numa condição direta, sem a necessidade de modificações no projeto do gabinete, é drop-in portanto. Já para a substituição do R-404A recomendamos o R-449A e o R-452A, além do propano R-290. A ser considerado que o R-449A possui alta temperatura de descarga, portanto os compressores aplicados com esse fluido precisam seguir em suas aplicações a conformidade restrita às condições estabelecidas no Guia de aplicações Tecumseh, no original Tecumseh Policy Bulletins and Application Guidelines. Em complemento, os fluidos refrigerantes R-499A e R-452A são misturas não-azeotrópicas e, portanto, com temperaturas diferentes de glide que devem ser levadas em conta.”

Da redação

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