Ambientes hospitalares e estabelecimentos de saúde, em geral, são edificações complexas, dadas a diversidade de usos e público, exigindo a aplicação de parâmetros únicos na busca pelo bem-estar de enfermos, profissionais envolvidos e visitantes. Tais parâmetros, que regem do projeto à operação e manutenção, são determinados por normas que a comunidade do AVAC, em conjunto com outras disciplinas, vem elaborando e aperfeiçoando por anos.

Mário Sérgio de Almeida, diretor da MSA, empresa de projetos e consultoria de Salvador, Bahia, e até recentemente presidente do Departamento Nacional de Empresas Projetistas e Consultores (DNPC) da Abrava, esclarece que os parâmetros são muitos e dependem essencialmente da finalidade do ambiente. “A norma ABNT NBR 7256 dividirá os ambientes conforme proposta de estrutura abaixo apresentada:

TABELA 1. Unidade de atendimento imediato – Emergência e Urgência

TABELA 2. Unidade de Internação e Unidade de Queimados

TABELA 3. Centro Cirúrgico

TABELA 4. Central de Material Esterilizado

TABELA 5. Diagnóstico e Terapia

TABELA 6. Apoio Técnico/ Apoio Logístico

  • Farmácia
  • Lavanderia
  • Lactário
  • Revelação de filmes e chapas
  • Limpeza e zeladoria

TABELA 7. Ambientes Diversos”

Cada tabela apresenta os diversos ambientes com as características de sua operacionalidade. Almeida ilustra sua explicação com a tabela 1 (em apreciação pelo Comitê que participa da revisão da norma 7256) (Ver tabela)

O projetista Anderson Rodrigues, da Artécnica, explica que “o sistema de AVAC deve ser concebido para interagir com o envelope arquitetônico do edifício para controlar a entrada de ar não condicionado, juntamente com contaminantes externos e umidade. Três diretrizes de parâmetros de temperatura, umidade e velocidade do ar de insuflação são estabelecidos: condicionamento de ar para conforto, condicionamento de ar terapêutico e condicionamento de ar para controle de infecções. Para cada situação existe uma condição de parâmetros de temperatura, umidade e velocidade do ar de insuflação e filtragem. No Brasil, a ABNT NBR 7256 estabelece estes parâmetros.”

Rodrigues aponta incoerências. “Os parâmetros variam conforme o ambiente, por exemplo, na recepção do hospital ou Estabelecimento Assistencial de Saúde todos os pacientes com suas doenças e patogenias são cadastrados e direcionados para atendimento; pela ABNT NBR 7256 os parâmetros deste ambiente são considerados ar para conforto, deveriam ser considerado ar para controle de infecções, com 100% de ar exterior.”

O engenheiro de vendas da Munters, Murilo Leite, tampouco deixa de provocar alguma reflexão. “Se tomarmos como exemplo o parâmetro conforto, a temperatura ideal é diferente para médicos, enfermeiros e pacientes, pois, quando a temperatura e velocidade do ar são constantes, o conforto depende muito da taxa metabólica de cada um. Do mesmo modo, níveis de umidade mais altos ou mais baixos podem favorecer ou inibir a proliferação e formação de fungos, ácaros, vírus e bactérias. Entretanto, há um certo consenso de que áreas comuns geralmente são mantidas entre 22°C  e 24°C e 30% a 60% de UR, e salas cirúrgicas frequentemente demandam condições mais frias (20°C ou menos), mas devem também conservar os mesmos níveis de umidade relativa.”

“Antes de tudo, é importante dizer que embora instalações hospitalares sejam similares às utilizadas para fins de conforto, a Norma ABNT NBR 7256 deve prevalecer, em casos de conflito ou divergência. E, de acordo com esta Norma, as instalações de tratamento de ar devem controlar os seguintes parâmetros:

– condições termohigrométricas – visando manter as condições de temperatura e umidade favoráveis a tratamentos específicos e operação de equipamentos especiais, e inibir a proliferação de microorganismos, favorecida por umidade alta;

– grau de pureza do ar – cerca de 99.9% dos agentes microbiológicos presentes no ar de EAS podem ser retidos em filtros finos de alta eficiência, assim, categoria e eficiência mínima de filtragem variam de acordo com a classe de risco do ambiente e/ou dos procedimentos desenvolvidos nos diversos ambientes;

– renovação e movimentação do ar , necessárias para reduzir a concentração de poluentes transportados pelo ar; o ar novo deve ser filtrado com grau de filtragem estipulado pela Norma para o ambiente.

a) O diferencial de pressão, em relação aos ambientes adjacentes, deve ser no mínimo de 5 Pa, para permitir a leitura.
b) Quando citado “Não” na coluna exaustão, deve-se considerar uma recirculação parcial de ar em proporções a serem
determinadas pelo projetista.
c ) Ver anexo C.
NOTA 1: o “Posto de enfermagem” deve atender os mesmos parâmetros do ambiente no qual este estiver inserido.
NOTA 2: quando for citado UR máxima de 60 % deve ser considerado um intervalo de umidade absoluta de 4,0 g/kg a
10,6 g/kg.
NOTA 3: as temperaturas são referenciais, podendo ser alteradas com um diferencial de 3 K para menos ou para mais
dos valores indicados, em função da necessidade da equipe médica ou do processo.

Tratamento e distribuição do ar

Almeida, da MSA, aponta para a importância primordial da renovação de ar em instalações de ar condicionado hospitalar, dada a extrema necessidade de qualidade do ar interior e do controle de pressão entre ambientes. “A Norma ABNT NBR 7256, em revisão, apresenta no item renovação de ar os seguintes apontamentos: 1) a renovação do ar ambiente é feita com o ar proveniente do exterior e é necessária para diluir a concentração de contaminantes (bioaerossóis, partículas não biológicas, componentes químicos e gases);2) recomenda-se que seja feita uma análise da qualidade do ar exterior, conforme a ABNT NBR ISO 16890-1 e documentos legais vigentes, para a identificação do melhor ponto de tomada do ar exterior e dos procedimentos para o tratamento do ar, quando necessários. 3) vazão mínima de ar de renovação é estipulada, de forma a garantir a diluição adequada dos poluentes gerados internamente; 4) a vazão de ar de renovação também deve contemplar as exaustões das cabines de biossegurança e das capelas de exaustão; e, 5) deve ser instalado no mínimo filtro classe G4 na tomada de ar exterior conforme ABNT NBR 16401-3.”

“Existem requisitos mínimos e padrões que devem ser respeitados dentro dos hospitais. O excesso ou falta de umidade nos ambientes hospitalares podem desencadear graves problemas e uma das maiores preocupações é a infecção hospitalar, neste caso, a temperatura do ambiente também é um fator determinante para evitar a proliferação de doenças. A falta de controle sobre a umidade, velocidade e temperatura do ar podem também acarretar sérios problemas nos equipamentos do hospital, podendo danificá-los, além dos prejuízos à saúde dos pacientes e funcionários. Uma grande atenção também deve se voltar ao centro cirúrgico, pois o excesso de umidade pode aumentar o risco de infecção, devido a presença de bactérias no ambiente. Além das bactérias, fungos, ácaros e vírus se disseminam quando a umidade do ar está descontrolada. Neste caso o controle de umidade do ar atua no combate à poluição de ambientes internos. Existe também uma preocupação com a limpeza e manutenção do sistema de climatização hospitalar”, alerta Patrice Tosi, diretora da Indústrias Tosi.

Distribuição e condução do ar são, também, motivos de atenção dos projetistas. “Devem ser respeitadas as premissas estabelecidas pela SMACNA, no que tange ao material construtivo, isolamentos e qualificação de instalação e operação das redes de distribuição de ar”, diz Felipe Mironiuc Marte, gerente técnico da Neu Luft.

“Para as áreas comuns e demais ambientes não há uma norma que exija especificamente o teste de estanqueidade de dutos, normalmente é uma exigência do cliente que realiza a obra e, em acordo com o instalador/executante da etapa de comissionamento, define os critérios e limites de aceitação dos ensaios. Já para áreas com risco biológico e radioativo de contaminação os dutos devem seguir as exigências descritas na norma da SMACNA (HVAC Duct Construction Standards, Metal and Flexible) que traça diretrizes quanto a sua construção, isolamento e selagem”, completa Marte.

Robert van Hoorn, diretor da Multivac/MPU, esclarece que a NBR 7256 estabelece a mesma metodologia que a NBR 16401 e, em caso de dutos em áreas de saúde, quanto maior a estanqueidade, melhor. “Os dutos em painéis MPU e MPU Clean, fabricados de acordo com as normas construtivas de montagem, superam a classe 4 de vazamento, fazendo com que, dentre outros fatores, cada vez mais hospitais os utilizam em suas instalações.”

“No caso da MPU temos o painel pré-isolado para a fabricação do MPU Clean que, em sua superfície de alumínio possui uma camada com nanopartículas de prata e outros compostos antimicrobianos que reduzem em mais de 99% bactérias e fungos que chegam à superfície, impedindo que surjam UFCs (Unidades Formadoras de Colônias). As principais aplicações para os painéis biocidas são situações críticas, como hospitais, clínicas, ambulatórios, indústria alimentícia, farmacêutica e salas limpas. A ação antimicrobiana, ao inibir a formação de UFC’s na superfície tratada, pode resultar em um aumento dos intervalos de limpeza, reduzindo assim os custos de manutenção e operação do sistema”, conclui van Hoorn.

Filtragem do ar e áreas de confinamento

Mário Sérgio de Almeida recomenda a consulta da Tabela 1 para a definição dos parâmetros de filtragem nas várias áreas hospitalares. Os quartos de internação devem possuir filtragem G4 + F8, sendo que os quartos de pacientes imunocomprometidos de alto risco (PE) devem ter G4 + F8 + ISO 35H. Quartos de internação ou isolamento para pacientes transplantados (transplante de células hematopoiéticas e órgãos sólidos) devem possuir antecâmara com G4 + F8 + ISO 35H. A única exceção será o quarto individual que poderá ser equipado com filtragem G4. Já nos quartos de isolamento de pacientes com risco de transmitir infecção por aerossóis (AII) a antecâmara deverá contar com filtragem G4 + F8. Salas de cirurgia exigirão filtragem G4 + F8 + ISO 35H. Finalmente, as salas de preparo de quimioterápicos com cabine de segurança biológica, que são apresentadas na Tabela 6 da estrutura da ABNT NBR 7256 em revisão, deverão contar com filtragem G4 + F8. Na Tabela 5, diagnóstico e terapia, os ambientes para diálise devem ser equipados com filtragem G4 + F8.

“Em áreas de pronto atendimento, a filtragem ABNT NBR G4 é padrão na área de procedimentos invasivos, sendo que na sala de estabilização do paciente após um acidente grave ou um politraumatismo o grau é a ABNT NBR G4+F7. Os quartos de internação seguem a regra do tratamento proporcionado ao paciente: 1) conforto – ABNT G4 – em áreas pós-anestésicas, áreas de recuperação de cirurgias ou procedimentos e isolamento em geral para diagnostico; 2) condicionamento de ar terapêutico – ABNT G4+F7+A3 em área de transplantes, cirurgias cardíacas, cerebrais, ortopédicas etc.; 3) condicionamento de ar para controle de infecções – ABNT G4 no insuflamento com 100% ar exterior e no descarte do ar contaminado ABNT F7+A3. Condicionamento de ar para controle de infecções – ABNT G4 no insuflamento com 100% ar exterior e no descarte do ar contaminado ABNT F7+A3; condicionamento de ar terapêutico ABNT G4+F7+A3 em área de transplantes, cirurgias cardíacas, cerebrais, ortopédicas etc., e ABNT G4+F7 para áreas de quimioterápicos e diálise”, complementa Rodrigues, da Artécnica.

Ricardo Cherem de Abreu, diretor técnico da Dannenge International, ressalta que “são utilizados, normalmente, quartos de isolamento com pressão negativa com relação aos ambientes vizinhos, para o caso de confinamento de pacientes com doenças infectocontagiosas, assim como quartos de isolamento com pressão negativa, no caso de confinamento de pacientes imunodeprimidos.”

Alex Altheman, da American Air Filters, diz que “a exigência sob o ponto de vista da filtragem do ar vem aumentando ao longo dos anos com as constatações dos problemas de saúde ocasionados pela qualidade do ar respirado e, com isso, a norma passou por uma revisão para se adequar às novas exigências, visto que muita coisa mudou desde sua última revisão em 2005. Uma análise da qualidade do ar exterior pode ser realizada para aumentar a eficácia do sistema de filtragem.”

 

Altheman explica, também, que de acordo com a NBR7256 os requisitos de filtragem variam em função do tipo de ambiente e o nível do grau de risco dos eventos adversos do local. “Nível 0 é a área onde o risco não excede aquele encontrado em ambientes de uso público e coletivo. Nível 1 refere-se a área onde não foi constatado risco de ocorrência de agravos à saúde relacionados a qualidade do ar, porém, algumas autoridades, organizações ou investigadores sugerem que o risco seja considerado. Nível 2 é onde existem fortes evidências de risco de ocorrência de agravos à saúde relacionados à qualidade do ar, de seus ocupantes ou de pacientes que utilizarão produtos manipulados nestas áreas, baseados em estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos bem delineados. Nível 3, onde existem fortes evidências de alto risco de ocorrência de agravos sérios à saúde, relacionados à qualidade do ar, de seus ocupantes ou pacientes que utilizarão produtos manipulados nestas áreas, baseadas em estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos bem delineados.”

“Em ambientes de alto risco de exposição, a filtragem do ar de insuflação deve possuir um filtro HEPA direcionado com fluxo unidirecional para evitar as turbulências naturais e que não circule entre os ocupantes. Se o ar interno está contaminado, é necessário que a pressão da sala esteja negativa para que o ar em circulação no ambiente não saia, impedindo a transmissão da infecção a outras pessoas. Para isso é usado filtro absoluto na saída do ar na exaustão”, completa Altheman.

Ronaldo Almeida
ronaldo@nteditorial.com.br

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