Mesmo com as profundas mudanças observadas na última década, raras são as mulheres exercendo funções técnicas no mundo do AVAC-R. E quando o olhar se dirige para o R, mais precisamente o segmento industrial, mais limitada fica a presença feminina. Avançando um pouco mais a nossa expedição, adentrando os departamentos de engenharia de aplicação, mais rarefeita é essa percepção.

Entretanto, há 25 anos, qualquer evento importante que envolva as boas práticas de engenharia, eficiência energética ou conservação ambiental conta, invariavelmente, com a participação de uma determinada profissional da engenharia mecânica. Não importa a dimensão ou alcance da atividade, desde palestras de treinamentos para profissionais nas mais variadas regiões do país, de Porto Alegre a Manaus, ou seminários e workshops internacionais, organizados por associações setoriais e organismos governamentais e multilaterais, como a Abrava, o chapter brasileiro da Ashrae, Ministérios das Minas e Energia e Meio Ambiente, INMETRO, PNUD; em suma, onde houver um púlpito para a defesa dos refrigerantes naturais e das práticas potencialmente menos agressivas ao meio ambiente, o nome de Maria Celina Bacellar constará do programa como uma das principais palestrantes.

Celina, como é conhecida no mercado, convive, desde o início, com a excepcionalidade. O AVAC-R brasileiro não conta com grande profusão de engenheiros saídos da Escola Politécnica da USP. Celina formou-se naquele centro em 1995. Já, por si, um ambiente com pouca presença feminina à época. E, muito menos, na área de Mecânica.

Caçula de quatro irmãos, dois homens e duas mulheres, Celina convive desde cedo com a engenharia. O pai é engenheiro agrônomo, os dois irmãos mais velhos, engenheiros mecânicos, e a irmã, engenheira civil. A mãe é formada em história e geografia. “Mas, se tivesse que recomeçar, acredito que minha mãe faria engenharia”, brinca ela.

No curso de engenharia a então precoce estudante começou a ser atraída por matérias como mecânica de fluidos. Entretanto, por força das condições de mercado, procurou espaço na área de motores. Assim que, em 1994, cursando o último ano, fazia estágio na fábrica de motores Cummins, não com grande entusiasmo.

Foi participando de um seminário organizado pelo irmão mais velho, que trabalhava na Cesp, depois Eletropaulo e, mais recentemente, Enel, que Celina viu a porta abrir. Um dos palestrantes do evento era ninguém menos do que Leonilton Tomaz Cleto, à época na
Sabroe, que lhe ofereceu um estágio.

“O Tomaz estava um pouco cansado do que vinha fazendo na empresa e queria iniciar a carreira de consultor. Ele me convidou com a perspectiva de reforçar a equipe e preparar sua passagem”, conta. Assim, o final de 1994, que combinaria com a formatura, pegou Celina como estagiária da Sabroe. Em fevereiro de 1995 já se via contratada para a engenharia. Tinha início uma paixão pela amônia.

“A Sabroe tinha uma área grande de projetos. Gente muito boa, com grande vontade de trabalhar. Era a realização de um sonho, podíamos criar projetos com todo o apoio da empresa. Diante de qualquer desafio, me colocavam em um avião para conversar com 5 profissionais de diferentes áreas na Dinamarca”, diz Celina.

Inicialmente engenheira de projetos, Celina passou para a aplicação, sempre ligada à sua paixão, que é o cálculo de carga térmica e adaptando-se às sucessivas mudanças de controle da empresa, que foi da Sabroe a York e, em seguida, para a Johnson Controls, com alterações significativas na própria cultura. Desde 2013 a engenheira é responsável pela área de produtos para toda a América Latina, o que inclui México e as Américas Central e do Sul, reportando-se diretamente aos Estados Unidos. “A empresa busca retomar o lugar que sempre teve no mercado mundial”, explica.

Mas quem acha que pode ser aborrecido “fazer o mesmo” durante 25 anos, Celina contesta: “Pode ser o mesmo, mas jamais igual. Tudo tem um pouco de refrigeração. Indústrias químicas, petroquímicas, alimentícias, entre outras, fazem o núcleo do negócio. E cada projeto é completamente diferente dos anteriores”, afirma.

Ela conta que não raro é chamada para resolver problemas de plantas cujas soluções são absolutamente diferentes daquelas de dez ou quinze anos atrás. Cita o setor de bebidas, de soft drinks, que há algum tempo tinha como melhor solução os sistemas em cascata, que possibilitavam maior ganho energético. “Anos depois, já não era o foco, pois podia-se refrigerar com temperaturas mais altas. Outros desafios vão se colocando, como os túneis de congelamento, um produto que exige criatividade. Ou, atualmente, o setor químico e petroquímico, que me intriga bastante.”

Para a gerente de produtos da JCI a eterna batalha é desenvolver produtos que consomem cada vez menos energia. Defensora ferrenha das bandeiras ecológicas, deposita grandes esperanças nos fluidos naturais, como a amônia e o CO2. “O mundo segue, cada vez mais, as orientações europeias, com sistemas de baixo consumo energético e baixa ocupação de espaço. A amônia, neste cenário, mostra-se vantajosa. Óbvio que precisamos trabalhar com suas limitações e usar o que há de melhor em tecnologias desenvolvidas. Uma limitação, sempre apontada, é a toxicidade. Mas o próprio odor característico da amônia é um fator de preservação da vida dos operadores. E a eficiência dos equipamentos possibilita o uso mais racional, com carga reduzida”, afirma.

Para quem chegou a pensar em ser bióloga, a gerente da JCI não demonstra o menor traço de arrependimento pela carreira escolhida. O segredo? “Paixão. Eu sou apaixonada pelo que faço e vejo na área um futuro promissor. Tome os lácteos, por exemplo, veja o espaço que têm para crescer no Brasil! Eu continuo me apaixonando a cada dia pelo meu trabalho. E se você tem paixão, torna-se uma pessoa sempre melhor.”

Celina lamenta a pouca quantidade de mulheres em áreas de engenharia na refrigeração industrial. “Em geral, a maioria vai para o ar-condicionado, poucas para a refrigeração e, destas, menos ainda na engenharia. Na minha equipe não há mulheres na engenharia!”

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