Este ano, pela primeira vez, visitei Brasília, cidade que exerceu sobre mim muita influência na decisão de tornar-me arquiteto. Desejo que não surgiu nas vésperas do vestibular, mas na minha adolescência. Graduei-me arquiteto e desde então sentia um leve desconforto e timidez por nunca ter estado lá. De vez em quando imaginava vozes que me censuravam dizendo: Como pode um arquiteto não conhecer Brasília? Ainda mais você, que foi arrebatado desde a infância por imagens de sua mítica arquitetura. Inadmissível!
Estando lá, entendi muitas coisas que só quem usufrui da cidade é capaz de compreender. Uma coisa é ouvir a experiência dos outros e outra é ter, após visitá-la, o seu próprio ponto de vista, mesmo que seja muito parecido com a opinião usual de turistas ou residentes. Para conhecê-la de forma gradual, escolhi caminhar ao invés de alugar um carro (o que farei da próxima vez) e aos poucos senti as dificuldades de ser um pedestre naquela planície escaldante e vazia, situação agravada pelo fato dos espelhos d´água dos maravilhosos edifícios projetados por Oscar Niemeyer não serem oásis refrescantes, mas uma releitura dos fossos medievais, impedindo elegantemente a aproximação. Apesar de toda a hipocrisia envolvendo os espelhos, prefiro o cinismo de sua adoção ao despudor dos gradis. Voltando à questão do ato de andar, para aliviar um pouco, utilizei também transporte público como ônibus e metrô e, em duas ocasiões necessárias, táxi.
No início fiquei muito emocionado por estar dentro de todo aquele arcabouço urbanístico e arquitetônico monumental. Contudo, no decorrer dos dias, à medida que ficava nervoso, entediado e cansado dele, um sentimento de felicidade ocupou minha mente: iniciava-se um processo libertador de desmistificação de Brasília. A experiência de sua realização foi algo sem precedentes na história do urbanismo mundial, mas suficiente. O texto explicativo do projeto vencedor do Concurso para o Plano Piloto da Nova Capital, escrito em 1957 pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa, idealizador de Brasília, revela sua mentalidade aparentemente avançada, porém, elitista e anacrônica. Como a cidade foi construída assim como concebida, envelheceu muito rápido.
Andando pela cidade e conhecendo-a, mais e mais dei-me conta e convenci-me de que ela foi construída exatamente de acordo com o desejo de seu criador nos mínimos detalhes, fato que facilita muito uma percepção crítica do Plano Piloto, pois não é possível haver desculpas do tipo: “ah, aqui não respeitaram o projeto urbanístico original”. Percebi também que ela ficará para sempre congelada no tempo e que não será possível manipulá-la e transformá-la: além de tombada, é a capital do país, com todo o seu consuetudinarismo inveterado. Entretanto, na imaginação tudo é possível, inclusive aviltá-la, corrompê-la, coisa que fiz durante meus passeios através dela e continuo fazendo para treinar minhas percepções.
Intriga-me o fato do Plano Piloto da Nova Capital manter-se congelado no tempo, este experimento extraordinário, vigoroso, belo, imperfeito e desastroso em alguns momentos. Por isso creio em futuras transformações advindas dos seus habitantes junto a um leque multidisciplinar de especialistas, arquitetos e urbanistas, num movimento inverso ao ato de sua criação no século passado, há cinquenta e quatro anos: não será um gesto único daquele que sobrevoa um lugar e impõem que aqui será isso e ali aquilo, mas de quem está em situação, trocando experiências, dividindo ideias e lutando por elas.
Outras cidades utilizarão a experiência de Brasília para transformar-se, mas no caso dela, as novas ideias não destruirão o seu legado. Pelo contrário, seus edifícios e vias permanecerão intactos, vistosos e admiráveis dentro de sua própria redoma construída com base na tradição. Paradoxalmente, para os futuros arquitetos e urbanistas, parecerão cada vez mais tépidos e pálidos, até sumirem para dar lugar a uma mentalidade menos rígida e mais promíscua.
31
ago
Future-Fits: retrofit em escala
Publicado por Jose Alves no dia 31 de agosto de 2011 – 14:00.
O Novo Elevado*, projeto conceitual para o Minhocão proposto pelo escritório de arquitetura e urbanismo FRENTES, é um ponto de partida para a discussão da implantação do retrofit em larga escala.
Considerado um pária da engenharia e um lixo urbano que, dependendo da vontade quase unânime de muitos governantes
e cidadãos, deve ser demolido e esquecido, o Minhocão, apesar das circunstâncias históricas e políticas de sua implantação, já está impregnado de memória e de um enraizado sentimento de pertencimento por boa parte das pessoas que vivem coladas nele. Sua brutalidade e repugnante aparência camuflam a potencialidade de transformação que nos revela o quanto a sua demolição é um desperdício histórico. Se ele é um lixo, que seja então, segundo os princípios da sustentabilidade, reciclado, requalificado, transformado, potencializado.
Ressonante e expandindo-se para além dos seus limites, O Novo Elevado é fundamentalmente um conceito de cidade pronto para ser executado. Nossa estratégia para a sua implementação baseou-se na criação de um sistema apto para ser progressivamente desenvolvido na forma de uma extraordinária infraestrutura urbana, que promoverá a coexistência entre seus usuários e a cidade, entre ela e seus habitantes e entre eles e o mundo: uma inédita experiência cotidiana, um novo urbanismo.
Demolir a decrepitude das tradições retrógradas, tornando acessível para o público “outros” repertórios de ideias que instiguem a produção de novos conceitos e que impulsionem o ato de intervir é uma das pretensões deste projeto.
O Novo Elevado induz a isso. Continuamente, estabelecendo relações intermináveis entre os edifícios adjacentes, rompendo barreiras e revelando “fendas”, introduz o Future-Fits, que é o retrofit em escala, ou seja, abrangente.
O Future-Fits opera dentro de medidas eficientes, constituindo um projeto integrado a ser implementado ao longo dos anos. Sendo assim, compreende intervenções de médio a longo prazo que requerem um investimento inicial de porte no âmbito das análises urbanas multidisciplinares, visando a economia futura. Apesar das aparências, isso não aproxima o Future-Fits das ideias de planejamento urbano de outrora, onde o que valia (e ainda vale) era “abrir espaço”. Superemos isso. Urubus não respeitam lotes!
O Future-Fits funciona como um sistema (para não falar em antídoto) que isolará futuramente o usuário ou proprietário do aumento dos custos das fontes energéticas convencionais, adotadas ainda pela maioria da população global. Cada edifício deve ser aperfeiçoado não somente numa abordagem individual, mas tendo em vista a matriz global na qual está inserido, e assim, ganhar escala. Isso reduz custos, pois se cada proprietário pensar num sistema próprio individual, perderá de vista o todo e a economia que isso traria. Isso significa jogar fora oportunidades
novas de habitar e de coexistir.
Paulo Mendes da Rocha, nosso importantíssimo arquiteto, fala da ideia da matriz da cidade observando, além de outros casos, a Avenida
Paulista. A partir dela nos dá imagens do desperdício histórico que cometemos e que continuamos a praticar. Comenta sobre a abundância de estacionamentos subterrâneos individuais para cada edifício dentro de seu próprio lote. Incita-nos a imaginar, ao invés de um estacionamento individual para cada edifício, um único para todos ao longo de toda a avenida. Economizaríamos centenas de metros cúbicos de concreto na construção dos subsolos em sequência com suas paredes diafrágma, contenções e muros de arrimo. Em vez disso tudo, teríamos um único espaço subterrâneo, descomunal, para os automóveis mas também servindo para usos imprevisíveis. Tavez ultrapassada no âmbito da sustentabilidade e mobilidade urbanas, está ideia maravilhosa de cidade nos faz pensar, cogitar e conjecturar o futuro.
*projeto vencedor do Prêmio Prestes Maia de Urbanismo e da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo em 2006 e 2007
respectivamente.
06
jul
Obra é sobra, mas a sobra pode virar Obra
Publicado por Jose Alves no dia 6 de julho de 2011 – 0:25.

Retrofit predial: renovação ligada à eficiência energética, requalificação tecnológica, otimização espacial e readequação para mesmo uso ou adaptado para usos diferentes
É muito comum associarmos Retrofit à modernização de fachadas de edifícios. Mas ele não se resume só a isso, pois mesmo quando aplicado na modalidade denominada Retrofit Predial, aquela realizada em edifícios isolados, pode prescindir desta modernização para configurar-se, ou seja, por trás da renovação das fachadas dos prédios há outras ações fundamentais integradas entre si, que são um importantíssimo traço do Retrofit: a realização de adaptações e atualizações das instalações e equipamentos prediais através da incorporação de modernas tecnologias dos materiais, fundamentais para o aumento da vida útil do imóvel e, por conseguinte, do seu valor.
O aspecto externo de um edifício que passou por um Retrofit é muito importante para a sua valorização à primeira vista, mas sua vida útil depende da renovação de suas entranhas. Quando a renovação da fachada não é somente estética, mas integrada às ações realizadas no seu interior tanto no âmbito do uso do edifício (anexação de varandas ou qualquer outro tipo de “plug” no corpo do edifício), quanto no da sustentabilidade (fachadas “verdes”, aplicação de vedos eco-eficientes, mudança das dimensões das janelas de acordo com a orientação solar e direção dos ventos), o Retrofit se torna total.
Esta renovação dos edifícios ligada à eficiência energética, requalificação tecnológica, reconfiguração e otimização espacial, readequação para o mesmo uso ou adaptado para usos diferentes, é uma ação extremamente inovadora que deverá ser cada vez mais adotada nos grandes centros urbanos, tornando as cidades mais sustentáveis. Através do Retrofit, investimos no problema do consumo exagerado de água e energia, apostando no reuso da água das chuvas, na ventilação natural do edifício e no incremento da incidência de luz natural no seu interior.
Por trás do Retrofit está a ideia do aumento das potencialidades das cidades. A pujança de quem destrói para construir está sendo substituída pela sagacidade daqueles que vêem “obra” na “sobra”. A palavra sobra, neste caso, diz respeito aos edifícios abandonados, desvalorizados, esquecidos e que possuem um potencial de transformação notável. O advento de um novo urbanismo deverá estar também baseado na reciclagem da cidade no âmbito de sua reutilização e resignificação, agregando a ela novos conceitos e valores.
Além disso, com o aumento das populações nos centros urbanos, haverá a necessidade cada vez maior de “comprimirmos” as cidades, adensando-as. Vivemos uma era de colapso das infraestruturas e este inevitável aumento populacional agrava esta situação. O Retrofit destas infraestruturas, além de gerar espaços inéditos de coexistência, fará a integração tão esperada entre a cidade e seu povo.
Estamos falando de uma mudança cujas ações requerem abordagens dentro de parâmetros não convencionais. É preciso mudar a mentalidade, investir em novas ideias e executá-las sabendo que o rápido ritmo de crescimento das cidades não espera mais as formas tradicionais de planejamento urbano. Entretanto, para que as ações de Retrofit, dentro de seu círculo de modalidades, atinjam suas potencialidades máximas, não bastam ideias inovadoras e o uso da mais alta tecnologia. É essencial que as leis de uso e ocupação do solo também acompanhem estas inovações para que tenhamos flexibilidade de manipulação das formas urbanas, gerando uma “outra” matriz espacial, totalmente diferente desta que já nos acostumamos, mas sobre a qual estou certo de que ainda não estamos soltos. Creio que a nossa dimensão é bem maior e precisa de espaços e lugares fora do comum, onde possamos atingir a nossa verdadeira desenvoltura.
01
jun
Retrofit com ênfase na sustentabilidade
Publicado por Jose Alves no dia 1 de junho de 2011 – 0:08.
As discussões sobre as metrópoles mundiais estão na agenda do dia e o blog Multiurb inaugura um ambiente aberto à discussão das questões urbanas que envolvem este crescimento das cidades que está a caminho de atingir escalas sem precedentes. O blog enfatizará a questão da sustentabilidade no âmbito do conceito de Retrofit, possibilidade muito real de como podemos lidar com o exacerbado adensamento dos grandes centros urbanos.
A Multiurb é uma divisão do escritório de arquitetura FRENTES, empresa que desde 2004 vem realizando projetos cujo principal foco é a discussão das questões urbanas, sejam elas derivadas de intervenções em pequena escala, como uma simples residência, até de projetos de renovação urbana, como o que realizamos no Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão. Neste caso, transformamos uma infraestrutura urbana que foi programada para ter um único uso, função e forma e que denomino Monolayer em um sistema que, derivado desta matriz original, potencializa seus usos, funções e formas e que denomino Multilayer, conceito que nos revela o caráter que as metrópoles estão assumindo, baseado numa nova matriz, comprimida e multidimensional.
O Retrofit é a revitalização de edificações com mais de 25 anos de uso, aumentando sua vida útil, utilizando tecnologias avançadas dos materiais e de sistemas prediais, compatibilizando-os com as restrições urbanas de uso e ocupação do solo e, em muitas situações, alterando-os.
Pode ser realizado tanto em edifícios isolados quanto em grandes áreas urbanas. Em ambas as situações, ele tem o sentido de renovação e suas ações devem ser integradas dentro do seu caráter multidisciplinar.
Existem várias modalidades de Retrofit, sendo a mais conhecida a Predial. Três modalidades a mais podemos incluir em nossas discussões futuras: o Retrofit Urbano, Verde e o Simbiótico. Podem tanto ser realizados separadamente como todos ao mesmo tempo e uma de suas principais características é integrar partes desagregadas e até dissidentes, formando um novo e íntegro sistema, que é o caso da intervenção sobre o Minhocão denominada O Novo Elevado.
Muitos governantes e urbanistas tentaram e ainda tentam planejar as cidades para serem um sistema de relações integradas. Mas as cidades crescem em proporções difíceis de controlar e em velocidade muito mais rápida do que qualquer tentativa de planejamento nos moldes tradicionais. Sendo assim, muitas destas imensas cidades constituem um sistema desintegrado, para não dizer decrépito.
Uma das soluções para a degeneração progressiva dos grandes centros urbanos é agir de modo inovador, liberto das más tradições e formas velhas de pensar as cidades. A população das cidades precisa de exemplos inéditos, fora dos padrões realizados até este momento para que tenham repertório que as façam ter novas idéias e, através de uma apreensão e olhares novos sobre suas cidades, intervir. Aqui no blog Multiurb, teremos tempo e espaço para discutirmos novos conceitos e idéias para serem debatidos e quem sabe, postos em prática.

José Alves
Arquiteto e Urbanista formado pela FAU-USP, sócio da empresa de arquitetura FRENTES, com projetos premiados, publicados e expostos no Brasil e no exterior.
As discussões sobre as metrópoles mundiais estão na agenda do dia e o blog Multiurb inaugura um ambiente aberto à discussão de questões urbanas que envolvem o crescimento das cidades que está a caminho de atingir escalas sem precedentes. O blog enfatizará a questão da sustentabilidade no âmbito do conceito de Retrofit, possibilidade muito real de como lidar com o exacerbado adensamento dos grandes centros urbanos.
