Automação
O mercado da automação predial no Brasil
Processo de inovação tecnológica
postado em: 11/05/2011 15:33 h
Implantação de Sistemas de Automação Predial (SAP) no Delboni Auriemo em uma das unidades em SP

Fabio Ribeiro
Como acontece com qualquer processo de inovação tecnológica, a concepção, produção e operação dos Sistemas de Automação Predial (SAP), ainda se ressente de profissionais adequadamente formados e de regras e práticas claras nas relações projetista-cliente e fabricante-cliente. Não há um comprador à altura que, por desconhecimento do produto, acaba comprando o marketing da novidade, nem engenheiros e arquitetos, "que conhecem muito menos ainda. Em geral, os sistemas vendidos na maior parte dos edifícios de escritórios, tem muito mais marketing do que eficiência e utilidade".Os profissionais que atuam em projeto e manutenção de sistemas, por inexistência de cursos de formação específica - que deveriam integrar conhecimentos de mecânica, instalações prediais, elétrica, eletrônica e instrumentação - para atender às novas demandas do mercado. Ou são egressos da área comercial das empresas fabricantes com foco nos aspectos comerciais, ou da área de automação industrial com foco nos aspectos técnicos do problema. Ainda existem muito poucos profissionais que conseguem aliar os dois aspectos e no Brasil ainda não existe nenhum programa de graduação em facility management [gerenciamento de recursos]2. Como os clientes e profissionais do setor imobiliário ainda não têm conhecimento ou experiência com projetos de automação, e como não existe uma preocupação com nas demandas do cliente, o mercado de projetos e consultoria tem sido predominantemente ocupado por profissionais do primeiro grupo, que trabalham em parceria com os fabricantes - em geral grandes empresas multinacionais que se valem da inexistência de regulamentação para disseminar sistemas fechados, do ponto de vista de operação, consolidando uma prática semelhante à utilizada pelos fabricantes de elevadores (RHEINGANTZ 1995, COSENZA et al 1996, 1997).3 Na maioria dos edifícios "inteligentes", a manutenção dos sistemas de automação acaba sendo realizada pelo próprio fabricante, em um processo onde operadores e sistemas atua como uma espécie de "biombo" entre a operação do edifício e o cliente.

A escolha

A forma de escolha dos consultores e projetistas de automação - em geral por indicação de terceiros - em um mercado sem regras favorece a criação de alguns mitos4 que são convenientemente explorados pelas estratégias de marketing dos grandes fabricantes, até o momento mais preocupados em vender seus produtos do que em consolidar um mercado com regras claras e com foco na satisfação do cliente, baseado na eficiência, confiabilidade e baixo custo operacional5. Na prática, a predominância dos profissionais com perfil de vendas e a visão centrada nos interesses dos fabricantes aliadas ao desconhecimento dos clientes e contratantes de projetos e sistemas favorece o surgimento de um processo viciado na origem. Repetindo uma prática comum em outros setores da construção civil, os projetistas repassam o projeto para um determinado fabricante, que contrata profissionais com pouca experiência para seu desenvolvimento. O fabricante também orienta o projetista na especificação dos componentes do sistema. Como o cliente (ou seu consultor) não sabe o que questionar, acaba investindo em um processo viciado, cujos erros são por ele assumidos deforma involuntária - em geral não é o cliente final quem contrata o projeto e constrói o edifício.

Como o comprador não dispõe de profissionais qualificados e treinados para avaliar os projetos e sistemas de automação, contrata novos consultores, nem sempre devidamente qualificados para avaliar os componentes especificados no SAP e para orientar seu cliente para uma decisão adequada e compatível com suas necessidades. Na maioria das vezes, este processo atende os interesses de projetistas, consultores, fabricantes e incorporadores, mas nem tanto os cliente final (investidor ou locatário), que acaba gastando mais do que o necessário por um produto sem confiabilidade e com altos custos operacionais - em geral os erros de projeto ou de especificação são repassados ao cliente final sob a forma de "custos operacionais" ("biombo"). Acostumado a um mercado desregulamentado e de baixa qualidade - a qualidade da produção da construção civil é um problema mundial (CALAVERA 1993; HAMMARLUND & JOSEPHSON 1992) - onde a justiça têm demonstrado pouca eficiência para fazer valer seus direitos, o cliente acaba praticando a política do silêncio e arcando com os custos adicionais decorrentes do retrabalho necessário para correção dos problemas.

O mercado

Atualmente, o mercado da automação predial brasileiro pode ser caracterizado pelas seguintes tendências:

(1) A avidez pela novidade que dá sustentação à tendência de substituição e retirada periódica do mercado de componentes que se tornam obsoletos por sua falta de compatibilidade com os sistemas em uso - obsolescência programada - que induz a freqüentes e onerosas substituições de todo o sistema, que em geral é fechado (proprietário)7. Curiosamente, na automação industrial, observa-se a tendência oposta: os sistemas são abertos e projetados de modo a garantir a substituição parcial dos componentes, sem necessidade de substituição do sistema. Em uma fábrica, um módulo defeituoso é substituído sem que seja necessário parar linha de montagem e substituir todo o sistema, fiação, etc. Com isso, o fabricante se obriga a manter sobressalentes para garantir a continuidade do processo produtivo e garantir sua imagem.

(2) A previsão de pontos desnecessários, que faz o cliente arcar com investimentos extra sem retorno, tais como: (a) a previsão de diferentes tipos de controle, incompatíveis entre si, para supervisionar um mesmo equipamento (fan-coil, bomba, etc) ou ponto; (b) a especificação de um sistema de detecção endereçável para o projeto de automação de uma sala de 30 m2, que pode ser controlada por um simples relance de olhar, ou então por um sistema digital de detecção de calor ou de fumaça. Esta prática, embora aparentemente absurda, pode ser explicada pelo fato do custo de um sistema ser estipulado em função do número de pontos e do seu custo unitário.

(3) A compra de equipamentos sofisticados e dispendiosos - como a detecção endereçável, "que pode se transformar no maior engodo aos clientes, uma vez que a maioria dos sistemas endereçáveis que estão vindo para o Brasil são protocolos fechados, ou seja, que somente se comunicam com aquela central produzida pelo fabricante8, de quem o cliente se torna refém. O fabricante dita as regras do jogo - sendo comum a prática de vender o equipamento por um preço baixo, que não se repete na reposição. Em alguns projetos, tais como shoppings e supermercados, segundo GRINAPEL e CARVALHO, ainda é perfeitamente aceitável e suficiente um sistema antigo de detecção - que usa o terceiro fio para a identificar9 -, que além de confiável, custa 1/5 do preço dos modernos sistemas endereçáveis, e que ao se comunicar em rede com outros dispositivos, se transforma em um sistema inteligente. Sem contar que os detectores para este tipo de sistema são facilmente encontráveis no mercado. Outro problema freqüente é a colocação de controladores de temperatura que indicam a temperatura ambiente em graus Celsius, 8 a 10 vezes mais caros do que os termostatos reguláveis que indicam apenas se a temperatura desejada está normal ou não. Também é comum a previsão de sistemas de automação mais sofisticados do que a capacidade de resposta dos próprios motores e equipamentos que deve monitorar.

(4) A resistência do cliente em aceitar sistemas de detecção fabricados no Brasil - embora existam empresas que fabricam equipamentos, integram e projetam, especialmente para automação industrial; com a abertura da economia, estão sendo importados equipamentos não tropicalizados, pouco robustos para as condições locais, e painéis prontos e montados sem a preocupação de formação adequada do pessoal de assistência técnica: segundo GRINAPEL e CARVALHO, "estamos desaprendendo e, o que é mais grave, utilizando equipamentos que ninguém sabe consertar", acarretando extra-custos ao cliente.

(5) O processo de especificação funciona de modo semelhante à atividade de recortar e colar em um editor de textos: de posse de um catálogo de produtos, o projetista mistura equipamento analógico, endereçável ou antigo, muitas vezes produzindo incompatibilidades internas ao sistema.

(6) Deixar o projeto de automação para o final, quanto a concepção da arquitetura e da estrutura já estão definidas, sob o argumento de que o prédio vai funcionar com ou sem automação, que ainda é considerado apenas como um acessório ao projeto do edifício.

(7) Se despreocupar com a relação custo-benefício e com a solução da engenharia do problema. Diferentemente da automação industrial - onde: (a) qualquer investimento implica em retorno imediato ao operador da máquina ou ponto; (b) se automatiza apenas aquilo que é reconhecidamente prioritário; e (c) vale a regra "o que é perdido hoje, não é recuperável" (GRINAPEL e CARVALHO) - na automação predial vale o interesse do fabricante e a possibilidade de exploração da "novidade" pela estratégia de vendas. Diante do receio do cliente (ou do responsável) assumir o erro ("biombo" frente ao mercado), é comum a situação de prédios "inteligentes" com mais de 5 anos que já tiveram que trocar todo sistema de automação. A maior parte reproduz um processo que obedece aos mesmos princípios que nortearam o projeto anterior, gerando uma operação circular onde existe apenas um perdedor: o cliente final.

(8) Enquanto no Brasil persiste a concepção de misturar todos os sistemas em um único computador, cujo excesso de informação dificulta o controle por parte do operador - que muitas vezes não sabe o que fazer com tantas informações -, na Europa e nos EUA já existe consenso sobre a necessidade de distribuir as informações em sistemas de redes.

(9) As despesas anuais com os custos mensais de manutenção impostos ao cliente, em alguns casos, tornam-se equivalentes ao custo de substituição total do sistema de automação a cada ano.

A exemplo do trabalho desenvolvido na área de planejamento e layout interno de ambientes de escritórios (SEÇÃO 2.5), algumas empresas vêm desenvolvendo projetos de automação predial, utilizando um controlador lógico programável (CLP) para monitorar ambientes de escritório.10 Este processo permite transplantar para um edifício comercial a lógica e os equipamentos adotados na automação industrial e nas plataformas de petróleo da Petrobrás. Conforme GRINAPEL e CARVALHO, "na automação do CPD da Coca-Cola, foram empregados hardware e cartões utilizados em uma indústria, possibilitando um gasto zero em hardware em 5 anos - em virtude da alta confiabilidade de um equipamento projetado para operar em ambientes agressivos de áreas industriais ou marítimas e pela disponibilidade de equipamento sobressalente no mercado". O custo dos sistemas e componentes industriais é incomparavelmente mais baixo do que o dos sistemas e componentes prediais. Outra vantagem dos equipamentos industriais é que eles são supervisórios consagrados, abertos e parametrizados para atender às necessidades do cliente, que passa a ser o dono de fato do sistema, dos seus pontos e supervisórios. Para a manutenção deste sistema, o mercado dispõe de diversos operadores treinados na indústria e empresas prestadoras de serviços, que podem ser contratados a custos bem inferiores aos atualmente praticados pelas empresas de automação predial.

Segundo GRINAPEL e CARVALHO, a adoção da lógica e dos procedimentos de concepção, operação e manutenção da automação industrial pode conferir à automação a função de uma verdadeira auditoria da obra para o cliente. Executada por profissionais devidamente qualificados, uma análise criteriosa e conscienciosa dos quadros de luz, do monitoramento da instalação elétrica e hidráulica, possibilita a identificação da existência de quadros mal montados, bombas engatilhadas, falta de exaustor ou de bomba, etc.

Perspectivas

Com relação às perspectivas futuras, podem ser construídos dois cenários possíveis e paradoxais, com "n" variantes intermediárias:

(1) O primeiro, poderia ser considerado um cenário negativo, correspondente à manutenção das práticas atuais e seu risco de destruir um mercado com grande potencial. Apesar da crescente consciência por parte dos empresários com a satisfação dos seus clientes, o número de administradores de condomínio, e de clientes (investidores e locatários) que desconfia ter comprado edifícios com sistemas inteligentes pouco operacionais e dispendiosos. A persistir a lógica atual, o SAP tende a se distanciar cada vez mais dos pequenos empreendimentos - um mercado de varejo com grande potencial se convenientemente explorado. Outra conseqüência desta prática é a quebra sistemática dos pequenos fabricantes, sem condições de competir com as práticas monopolizantes dos grandes empresas multinacionais. Mas esta situação não se deve apenas às práticas dos grandes fabricantes de SAP: ela também se deve ao imediatismo do empresário brasileiro da construção civil que, segundo PONTUAL, age assim por conceito e porque têm limitações de capital: "quando não tem dinheiro, ele tem que ser imediatista". E, assim, acaba deixando de acreditar e investir em fabricantes nacionais para se render às facilidades oferecidas pelos grandes fabricantes, que vendem o produto a preços convidativos e repassam seus lucros da venda para a operação e manutenção dos sistemas.

(2) O segundo, que poderia ser considerado um cenário otimista, aposta no amadurecimento do mercado, especialmente, em relação ao custo-benefício dos sistemas inteligentes, que poderá forçar o mercado de projeto, de instalação e manutenção a corrigir sua rota. A possibilidade de surgir um novo tipo de profissional ou empresa que atenda à preocupação de PONTUAL - que "transite e conheça todas as áreas da engenharia ... e sistemas prediais" - e que saiba orientar seu cliente para uma decisão adequada e compatível com suas necessidades, possibilita sanear e ampliar o mercado no atacado e no varejo. A possibilidade deste cenário se consolidar também pode estar relacionada ao aumento da competitividade decorrente do processo de globalização da economia, que deverá demandar projetos e sistemas mais operacionais, confiáveis e abertos, que se espelhem no modelo de automação industrial e permitam aos clientes se libertarem do modelo atual que condiciona o comprador de um SAP a uma "parceria" nem sempre desejada com o fabricante, de quem se torna dependente.

Por Fabio Ribeiro - Supervisor de Automação da FAU - UFRJ

 

Apêndice

1 Texto fundamentado em: (a) entrevistas com Fábio RIBEIRO - Supervisor de Automação RB1 (12/12/1994), Moisés GRINAPEL e Sérgio CARVALHO, da Proline Equipamentos Eletrônicos Ltda. (10/12/1998) e com o arquiteto Davino PONTUAL (09/12/1998); (b) em artigo de Paulo Roberto GOULART, diretor de Facility Automation Systems (1997), e (c) na experiência pessoal acumulada nos trabalhos desenvolvidos pela COPPE/PROARQ no RB1 e no BNDES (COSENZA et al 1996, 1997). Foram tentados, sem sucesso, contatos com outras empresas fabricantes de sistemas de automação predial.

2 Cf. SZIGETI & DAVIS (1997), no Canadá, a School of Architecture at Carleton University de Otawa, implantou um programa de graduação nesta área em 1976.

3 Dificilmente o sistema de automação predial (SAP) consegue monitorar os elevadores, cuja concepção ainda se vale da lógica da "caixa preta". Apesar de os mais novos modelos serem dotados de uma certa inteligência própria, o fabricante em geral se esquiva de fornecer um contato resumo de defeito (se está bom ou ruim). Este é um dos principais entraves aos sistemas de monitoramento e controle de incêndio e de segurança patrimonial. RHEINGANTZ (1995) e COSENZA et al (1996, 1997) relatam a relação entre condomínios e fabricantes de elevadores.

4 Cf. GRINAPEL e CARVALHO, "a automação predial tem mitos que viciam a todos no Brasil: o empresário pergunta ‘quem é o melhor?', ou então, ‘quem fez este projeto?'; a resposta invariável é ‘foi fulano', que vira um mito, muitas vezes caro para o cliente, pois em geral, trabalha em parceria com algum fabricante de sistemas."

316 ANEXO 06

5 O mercado imobiliário predial ainda tem muito a aprender com o setor industrial, onde estas práticas foram há muito abandonadas. No setor industrial, projetos ou sistemas ineficientes, pouco confiáveis e dispendiosos não têm vez.

6 RHEINGANTZ (1995) aponta os esforços e investimentos realizados pelo condomínio do edifício RB1 para reformular seus sistemas de automação predial e de ar-condicionado. Vendido como "inteligente", o SAP inicialmente se restringia à supervisão de uns poucos itens dos seus sistemas prediais.

7 Cf. GRINAPEL e CARVALHO, o comprador do equipamento é obrigado a fazer um contrato de operação, pois os sistemas são tão fechados que o próprio operador não tem controle do sistema que opera.

317 ANEXO 06

8 Nos Estados Unidos os protocolos de comunicação são normalizados, de modo que cada tipo de detector seja fornecido por 3 ou 4 diferentes fabricantes; no Brasil é comum que um mesmo fabricante de detector forneça material para diferentes fabricantes de painéis que, por terem protocolos de comunicação proprietários, só se comunicam com aquela central.

9 Os sistemas de detecção, são configurados por circuitos com dois fios, sendo um positivo e um negativo. Nestes circuitos estão ligados até 20 detectores (limite normalizado). O terceiro fio possibilita identificar, dentro de um circuito com diversos detectores, qual foi efetivamente o que alarmou.

318 ANEXO 06

10 Sistema utilizado nos CPDs da Coca-Cola, na Praia de Botafogo, e da FIAT Automóveis em Betin, Minas Gerais.

319 ANEXO 06

 

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