Perfil
Carim Facuri
"Nasci engenheiro mecânico"
postado em: 26/02/2015 11:54 h atualizado em: 26/02/2015 12:03 h
Foi na Cebec que Facuri se integrou no setor e criou vínculos com vários profissionais, onde muitos tornaram-se seus amigos
(crédito: Nova Técnica)

Natural de Uberaba, MG, filho de imigrantes libaneses, Carim Facuri conta que desde os quatro anos sabia que queria ser engenheiro.

“Aos quatro anos de idade meus pais me matricularam numa escolinha ao lado do nosso armazém de secos e molhados lá em Uberaba. Sempre fui uma criança muito hiperativa, e aos cinco anos já estava totalmente alfabetizado e nesse armazém nós tínhamos três principais clientes: o Batalhão de Infantaria, um curtume, e uma fábrica de óleo de caroço de algodão, onde era de minha responsabilidade anotar na cadernetinha as compras para serem cobradas no final do mês. E desde então nunca mais parei de trabalhar. As brincadeiras eram entre uma folguinha e outra e aí de mim se eu errasse uma conta! Era uma surra na certa do meu pai! Trabalhar desde cedo faz parte da cultura libanesa e herdei do meu pai a seguinte filosofia: empresa não se quebra, os administradores é quem são os responsáveis por isso, e nunca podemos gastar mais do que ganhamos, e assim levo isso comigo até hoje. Meu pai era uma figura difícil, lembro que aos seis anos fui matriculado no colégio Cristo Rei, no centro de Uberaba e nós morávamos na periferia, e meu pai havia pedido para o nosso motorista me pegar no final da tarde, mas como a aula acabou mais cedo, fui a pé mesmo, desde então, todos os dias nunca mais o motorista foi me pegar e nem me levar!”, diz Facuri.

 

Ele conta que sempre adorou tudo que se move.

“Morávamos perto da Estação Mogiana de Trem e, muitas vezes, fui levado pelo chefe da estação para casa, pois queria construir uma miniatura da Maria Fumaça e vire e mexe fugia para lá. Desde sempre minha vida está em movimento. Por curiosidade, vivia nos hangares do aeroporto e até ajudava a fazer a manutenção nos Teco-Teco. Recordo que a Sadia chegou a ter uma frota de aviões, que posteriormente virou a Transbrasil. Então, cada avião que pousava eu, por curiosidade, queria saber tudo sobre a aeronave. Oficina então, quando avistava uma entrava e ficava horas por lá, só observando o trabalho. Até levei certa vez uma surra do meu pai, pois fiquei tão entretido que perdi a noção da hora. Eu fabricava em casa de turbinas a aviõezinhos para aeromodelismo”.

Facuri conta que no segundo colegial resolveu que iria fazer engenharia mecânica em São Paulo.

“No final de outubro de 1968 disse para o meu pai que gostaria de fazer o terceiro colegial e cursinho em São Paulo. Assim, aos 16 anos, peguei um ônibus, vim a São Paulo e me matriculei no Anglo. Iria dividir um apartamento com um conhecido meu e para minha surpresa, em janeiro de 1969, meu pai já havia vendido a fábrica de beneficiamento de arroz, feito sociedade com um amigo, e toda a família mudou-se para cá. Prestei vestibular em várias universidades e decidi fazer engenharia mecânica no Mackenzie. Nesse meio tempo, meu pai comprou uma fábrica de cerâmica para fazer tijolos em Itupeva, interior de São Paulo, então eu trabalhava com ele e voltava no final do dia para ir a faculdade”, diz Facuri.

Facuri inspecionando equipamento destinado à Plataforma PRA-1, em 2006

Os anos de faculdade

No Mackenzie, Facuri conta que os últimos anos foram os melhores, com professores absolutamente eficientes, exigentes com a qualidade e precisão.

“Um deles considero o melhor, o professor Waclaw Siwinski, um polonês extremamente inteligente e que conhecia tudo sobre máquinas térmicas, todos os princípios de turbinas a vapor, além de outras disciplinas, enfim foi um grande mestre, e hoje se eu tenho uma acuidade visual foi graças a ele. O Waclaw tinha olhos de águia, conseguia ver num desenho a precisão dos milímetros a olho nu. O Riccardo Diomelli também foi meu professor no terceiro ano, época do meu primeiro estágio. Diversos engenheiros visitavam a faculdade para recrutar os alunos que se destacavam e um deles me chamou para estagiar numa fábrica de máquinas têxteis que estava começando, a Mecânica Wupertall, e por lá fiquei durante seis meses. No quarto ano estagiei na Hiter Válvulas de Controle. E naquela época, a General Electric sondava os melhores estudantes do quinto ano de engenharia de diversas faculdades, inclusive do Mackenzie, e distribuíam um questionário aos estudantes interessados no processo seletivo para estágios. Eu considerava a GE a empresa dos sonhos com uma oficina, onde se consertava de tudo, a melhor escola prática de engenharia mecânica. Fiquei em terceiro lugar, mas como  os outros dois não aguentaram os testes práticos, tive a oportunidade e não a perdi. Durante dois dias passei embaixo de uma locomotiva para o pátio de manobras. Eles estavam fazendo o teste do dínamo e tive que regular o freio, enfim, as duras penas resisti as ordens do gerente alemão e foi onde aprendi muita coisa do que sei hoje. Isso foi em 1973, ano em que me formei”.

No quinto ano Facuri também teve a oportunidade de ter como professor Hans Sonnenfeld.

“Dr Hans ministrava aula de ar condicionado aos sábados pela manhã e foi uma das melhores pessoas que conheci. No primeiro dia eu me apresentei a ele e esperamos uma meia hora a chegada dos demais alunos. Como ninguém chegou, o Dr Hans e eu começamos a conversar e foi nesse momento que criamos um elo de amizade. As aulas dele eram muito gostosas e assim passei a gostar de tudo que era relacionado a disciplina RAC, principalmente pela relação que eu e o Dr Hans estabelecemos. Eu só tirava nota 10 e paralelamente já estava estagiando na GE, e tentava  ingressar na área de marketing da empresa, mas sem sucesso. Certo dia vi no jornal o seguinte anúncio : “Precisa-se de engenheiro de vendas para empresa líder de ar condicionado”.  Peguei o endereço e fui para o bairro da Lapa. Chegando lá me deparei com a Cebec, uma empresa com galpão enorme cheio de “puxadinhos”. Quem me atendeu foi o Mauro Klein. O salário era bom e me encaminharam para falar com o Dr Simon Jacques Levi. Como a vaga para engenheiro de vendas já havia sido preenchida, Dr Levi me convenceu a começar como engenheiro de obras enquanto aguardava uma outra oportunidade na área de vendas e assim fui ficando na Cebec. Aqui faço um aparte: Todo tempo de Mackenzie e mesmo na Cebec, o Dr Hans nunca comentou comigo seu cargo de diretor na empresa e eu nunca descobri o por quê”, comenta Facuri.

Edifício Cetenco Plaza I e II, uma das principais obras realizadas Facuri, em 1977/1978

O ingresso no ar condicionado

Foi na Cebec que Facuri se integrou no setor e criou vínculos com vários profissionais, onde muitos tornaram-se seus amigos.

“Desse roll fez parte o José Carlos de Melo, seu irmão Jarbas de Melo, Jeani Gianini, o Bicudo, o Sampaio. No começo não foi nada fácil! Quem me passava os estudos das obras era o Dr Levi e já de cara a primeira obra foi da Johnson & Johnson, uma fábrica com condições super especiais para a fabricação de tampões. Tivemos que fabricar certos equipamentos para atender as necessidades específicas e outros importamos. Em seguida veio uma obra de 30 TR de um laboratório; a terceira foi uma central de água gelada para o processo de legumes desidratados para uma fábrica em São José do Rio Pardo. Essa instalação requeria  temperatura de 14°C e 60% de umidade relativa e assim fizemos. Porém, ao receber o relatório pós obra verifiquei que a temperatura esta em 16°C e 40% de umidade relativa. Quase enfartei, mas no final foi um erro de digitação da funcionária. Aprendi muito na Cebec! Trabalhei junto com o Carlos Eduardo Prado, o João Hamilton, Riccardo Diomelli, Raul Bollinger,  entre outros. Certo dia, cruzei com o Dr Hans no corredor e vi que estava preocupado. Fui falar com ele e na hora ele me disse: ‘Bom dia Facuri, você quer fazer uma obra de 1000 TR de água gelada?’. Na hora topei! O João Hamilton tinha feito o estudo desse projeto, mas como estava de licença médica, eu assumi a obra. Era o obra do NASB - Banespa Antigo Núcleo de Administração e Serviços Banespa em Pirituba. O Sueije ouviu e falei para ele: E agora? Ele respondeu com todo bom humor dele: ‘Turco, está vendo aquele bebedouro ali, ele tem meia TR, então é só comprar 2 mil bebedouros e espalhar pela instalação e está feita a obra!’. Tive que ler muita literatura técnica para realizar essa obra e um certo dia encontrei lá o gerente de engenharia do Banespa, o Wladimir Chimakupuro, no qual se tornou meu amigo e um excelente projetista. Depois dessa obra eu alcei voo! Encarava qualquer coisa sem pestanejar!”.

Na Cebec Facuri ficou por sete anos e destaca obras que participou como o Edifício Cetenco Plaza I e II, na Avenida Paulista - SP, uma das principais obras realizadas por ele em 1977/1978, totalizando 2.600 TR e a instalação completa totalizando 4.710 HP; Edifício Setubal I e II – São Paulo; Hotel Brasil Hilton - Martins Fontes; Hotel Caesar Park – Vieira Souto, no Rio de Janeiro; Eletrosul e Hospital Infantil de Florianópolis, ambas em Santa Catarina; Estações telefônicas da Telepar, em Curitiba;  Fábrica da Volvo, projeto do Arnaldo Zaratini, entre outras.

“Em 1980, conversei com o Dr Levi e disse a ele que em quatro meses eu iria me desligar da Cebec, pois havia decidido abrir uma construtora civil com o meu pai. No mês seguinte, vi que tinha recebido um aumento, mas mesmo assim nos três meses que permaneci lá fui passando as minhas obras para os outros núcleos de engenharia e por fim, me desliguei da Cebec e abri a empresa com meu pai. Num domingo recebo o telefone do Giovani Sarti, que na época trabalhava na Stencar com o Antonio Rios, marcamos um almoço e ele me convidou para trabalhar com ele, paralelamente a minha empresa. Conciliei as agendas e pela Stencar fiz muita obra em Brasília, Criciúma, Votuporanga, São José do Rio Preto, e para mim foi outro tipo de aprendizado. Quando o Rios se separou dos sócios, eu também me desliguei da Stencar e continuei somente com a minha empresa. Não deu dois meses e o Romeu Orcino me convidou para trabalhar na Isolev, onde ocupei o cargo de gerente de projetos, isso foi em 1983, mas veio a crise, a empresa cortou vários funcionários, inclusive eu. Na Isolev fiz as obras de todos os sistemas de ventilação do Metro Praça da República; a CEMIG, em Belo Horizonte; Embratel, em Jaguariúna; entre outras”, comenta Facuri.

Neste período, entre 1980 a 1984, ele conta que a construção civil passava por um momento difícil e surgiu a vontade de abrir uma instaladora, uma vez que já não estava mais na Isolev.

“Nesta época cheguei a ter vários trabalhos, inclusive na Tropical, a convite do José Daniel Tosi. Antes de conversar com o Tosi, recebi um telefonema do pessoal da Isolev querendo conversar. O Calfat me colocou dentro do carro dele e rumamos para o Comind lá em Alphaville para uma reunião com a cúpula do pessoal da engenharia. O Winardi estava lá também e eu não entendendo nada. De repente ele me apresentou como um dos engenheiros que iria participar desta obra, uma vez que o pessoal do Comind não queria nenhum engenheiro da Isolev. Era uma obra bem complexa e tive que trabalhar até aos domingos. Paralelamente, trabalhava na Só Frio e estava começando a negociar com o José Daniel.  Então meu dia se dividia na parte da manhã tocando a obra do Comind; das 13h as 17h30 na Tropical; e das 18h00 as 22h00 na Só Frio. Fiquei com esse esquema de outubro até janeiro de 1984, quando assumi somente o trabalho na Tropical, onde permaneci até o começo de 1989. Pela Tropical visitei muitos clientes de inúmeros lugares espalhados pelo Brasil”, diz Facuri.

Facuri homenageado pelos filhos e funcionários em reconhecimento aos 21 anos de dedicação à Traydus, durante a festa de final de ano realizada em 2010

Em 1989 Facuri deu inicio a construção de um galpão localizado no Jardim Angela - SP, retomando a ideia de abrir sua própria instaladora.

“Eu estava acompanhando as obras do meu galpão quando recebi um telefone do Bira, diretor da Contec, junto com Fuede e o Teixeira, me pedindo para fabricar alguns equipamentos especiais do tipo air handling. O galpão ainda estava inacabado e ele me fez fabricar duas caixas de ventilação para a obra da fábrica da Volkswagen. Nem máquina eu tinha para confeccionar os tais equipamentos, mas me virei , consegui comprar todo o maquinário e foi assim que surgiu a Traydus, inaugurada em fevereiro de 1989, em meio a toda essa correria. E como o Bira me convenceu a ser fabricante e não instalador, e eu não queria de jeito nenhum concorrer com a Tropical, me dediquei a um nicho de mercado de equipamentos fabricados sob medida, atendendo as necessidades específicas de cada obra. Fiz muitos equipamentos e a empresa foi se solidificando no mercado. Fizemos nossa primeira Febrava em 1999, estando presentes a todas as edições desde então”.

Na Traydus, Facuri conta que trabalhou, no mínimo, de 12 a 18 horas por dia, inclusive finais de semana. Das milhares de obras executadas pela empresa, ele destaca o fornecimento de máquinas para a PRA-1  Plataforma da Petrobras, no Rio de Janeiro, que lhe rendeu a premiação dos Destaques do Ano Smacna 2006; o Centro Cirúrgico do Hospital Albert Einstein, do Sírio Libanês, do Hospital Santa Catarina, e toda Rede D’Or, todos em São Paulo; Schering do Brasil Química e Farmacêutica; fábrica da Ferrero Rochê, entre outras.

Facuri com seus filhos, Ricardo e Ronaldo, durante a FEBRAVA 2011

Em 1995, a Traydus inaugurou nova fábrica, localizada em Itupeva, e conta atualmente com uma planta fabril de 13 mil m2, com expansão concluída em 2011, fabricando uma linha completa de fancoils, splitões, roof-tops, umidificadores, atenuadores de ruído, secadores rotativos com roda entalpica, entre outras. Hoje, estão a frente da diretoria seus filhos Ricardo – diretor técnico, e Ronaldo – diretor executivo, ambos engenheiros; e Vanessa, a caçula da família, seguiu outro rumo, formando-se em direito.  

Avó de Ricardo, Maria Eduarda, Amanda, e outra a caminho, Facuri acompanha de longe como conselheiro os negócios da empresa, e aposta em Ricardinho, o neto mais velho, que aos 6 anos já dá sinais que será um ótimo engenheiro.

No momento dessa entrevista, Facuri e sua esposa, estavam se preparando para fazer o que hoje lhe dá mais prazer, viajar!

Ana Paula Basile Pinheiro

Editora da revista ABRAVA+Climatização Refrigeração

 

Compartilhe essa matéria !
Deixe seu Comentário !


Seu nome:
 
Seu e-mail:
 
Mensagem:




Comentários