Perfil
John van Mullem
Há 44 anos no Brasil, ele conta como tudo começou
postado em: 19/03/2015 15:13 h atualizado em: 19/03/2015 15:20 h
"Ainda hoje as pessoas me perguntam se eu gosto do Brasil e respondo que estou aqui há 44 anos por opção, como não poderia gostar?"
(crédito: Nova Técnica)

Há 24 anos comandando a Polipex, o holandês John Johannes van Mullem, aterrissou no Brasil em 1971. Formado em engenharia mecânica, cursou metade na Holanda e a outra metade na Venezuela. Começou sua carreira profissional numa empresa norte-americana direcionada para as indústrias petroquímicas.

“Eu trabalhava numa empresa americana, a Combustion Enginnering, a exemplo de meu pai que, desde a Segunda Guerra Mundial, ingressou nesta empresa. Aliás, na época do meu pai ela chamava-se Lummus Company. Então, desde criança já me familiarizei com os negócios da companhia direcionada para as indústrias petroquímicas, refinarias, etc. Por causa do trabalho do meu pai, moramos em diversos lugares como na Índia, Egito, Paquistão e Venezuela. Engenheiro recém-formado, em 1966, comecei a trabalhar também nessa empresa.

 

A primeira obra que participei foi na Suíça, aí vieram outras na Holanda, Noruega, e, em 1970, assumi a obra da Shell de Punta Cardon, Venezuela. Logo após, fui transferido para outra empresa venezuelana, a Puerto Ordaz, com a finalidade de atuar na área de isolação térmica e refratários numa obra de peletização de minério para a norte-americana US Steel. Em 1971, no dia 5 de agosto, quando estava em Paris, recebi o convite da mesma Combustion Engineering, para trabalhar na construção da Petroquímica União, do Grupo Banco União Comercial, localizado no ABC paulista, contratado como responsável pela parte de isolamento tanto no aquecimento a vapor de diferentes linhas, hoje feito com calefação elétrica, quanto de resfriamento. Essa obra durou cerca de um ano e meio e, naquela época, ao que me consta, usamos pela primeira vez no Brasil o poliuretano injetado no local (in loco) para obras deste porte. Imagine só que havia cerca de 800 funcionários trabalhando no isolamento de linhas quente e fria. Na parte de aquecimento, a empresa responsável era a Etil, comandada pelo Dr Ribas. Durante dois anos respondi por todo o isolamento térmico, inclusive pela aplicação de espuma de poliuretano injetado. Nesse meio tempo, apareceram alguns problemas de manutenção e a própria petroquímica União estendeu nosso contrato para mais dois anos a fim de montarmos uma equipe de manutenção que foi prorrogado para mais um terceiro ano. Nesta época, a Petrobras comprou a maioria das ações e eles não estavam aprovando a contratação direta do pessoal de MO pois, a maioria era subcontratada. Em contato com o diretor industrial da Petroquímica União, Dr. Santos Maia, com quem tinha um excelente relacionamento, falei brincando: ‘Olha, desse jeito, só se eu abrir uma empresa e vocês me subcontratam’. Ele tinha mania de me chamar de gringo e me disse: ‘Ei gringo, essa é a solução!’. E ele me convenceu e acabei abrindo uma empresa e estou aqui até hoje. Ainda hoje as pessoas me perguntam se gosto do Brasil e respondo que estou aqui há 44 anos por opção, como não poderia gostar???”, conta van Mullem, bem humorado.

E assim ele iniciou seu próprio negócio no mercado brasileiro. Outros contratos surgiriam na sequência, dentre eles um que envolvia o isolamento de toda parte aérea de um tubo, com diâmetros entre 4” e 6”, instalação que até hoje opera e, àquela época, conduzia gás eteno de Santo André a Cubatão, na região da Serra do Mar, em São Paulo.

No local preferido para a observação da fábrica da Polipex, em São José (SC)

 “E assim acabei ficando por mais de 15 anos. Na década de 1970, o poliuretano popularizou-se rapidamente no Brasil. Era uma coisa fácil de se produzir e, da mesma forma, de ser comercializado sem demandar grandes investimentos em equipamentos e máquinas. Enfim, uma tecnologia muito simples e o mercado ficou saturado, e resolvi buscar na Europa outras alternativas. Estando lá, vi que o meu negócio era mesmo no Brasil e em 1988 decidi voltar trazendo junto a tecnologia de expansão do polietileno. Até me considero um pioneiro na divulgação de dois materiais isolantes: o poliuretano injetado in loco e o polietileno expandido. Em 1989 fundei com mais dois sócios a Thermoflex, localizada no Rio de Janeiro, onde montei a primeira máquina de extrusão de polietileno feita no Brasil e que funciona até hoje, porém, com processo de produção atualizado. Mas veio o Plano Collor e nosso sócio investidor ficou com o capital retido e então resolvemos vendê-la para um grupo finlandês com sede em Porto Alegre, para onde se transferiu a Thermoflex. Tive duas sociedades, porém, admito que não me dou muito bem com sócios, digo sempre que ‘em casa que falta pão todo mundo briga e ninguém tem razão’ e decidi trabalhar por conta própria. Posteriormente, em outra época, adquiri todo o maquinário desta mesma empresa”, conta van Mullem.

Pesquisando algumas cidades do Sul do país para abrir sua empresa, Mullem foi visitar Curitiba e Criciúma. De passagem por Florianópolis, por causa de um temporal, decidiu pernoitar por lá e quando acordou e avistou um dia lindo de sol e aquele mar maravilhoso, resolveu que lá seria sua residência fixa. Assim, em 18 de novembro de 1991, ele e sua esposa Socorro Ramalho, hoje à frente da diretoria administrativa, montaram uma máquina pequena dando inicio à Polipex, localizada em São José (SC). Conciliou a vida profissional à prática do esporte que ama: velejar.

“No começo, éramos eu, minha esposa e três funcionários, com a fábrica produzindo no máximo quatro dias a cada quinze. Hoje, a Polipex possui uma planta industrial de 18 mil metros quadrados de área construída e conta com 11 extrusoras, entre outras máquinas! Mas nada foi fácil! A minha primeira máquina produzia em torno de 500 metros por hora. Hoje nós temos máquinas com linhas duplas de produção produzindo 3,5 km por hora, ou seja, 7 vezes mais. Naquela época, a densidade dos isolantes térmicos flexíveis predominante no Brasil ainda era a de 90 kg/m³, enquanto o polietileno, por sua vez, apresentava simplesmente um terço desta densidade (30 kg/m³), o que representava expressiva redução de custos”.  

John com um de seus filhos, o Johninho

Um tal senhor...

Foi por intermédio de Sebastião Tabone que van Mullem ingressou no setor de ar condicionado.

“Certo dia conheci um tal senhor Tabone. Que pessoa admirável! Mesmo aos 80 anos lembro que era difícil acompanhá-lo em suas caminhadas, tamanha sua vitalidade. Às vezes, íamos juntos à Alameda Glete e ele me tirava o fôlego. Registrado na Polipex, acho que ele era o funcionário de mais idade com carteira assinada do setor do ar condicionado. Se a Polipex está hoje no setor é graças, principalmente, a duas pessoas em especial, o Sebastião Tabone e o Oswaldo Moreira. Foi o Tabone quem nos apresentou ao Moreira, que foi o grande incentivador para que entrássemos nessa área, nos apresentando à grande maioria de representantes comerciais, dos quais alguns que ainda trabalham conosco. Quero relembrar e também agradecer a essas pessoas. Um dos primeiros representantes que tivemos foi o Costa, de Salvador, depois o Philomeno em Fortaleza e o Zé Rocha em Vitória, enfim, por meio do Moreira fiz minha carteira de representantes por todo o país. E assim fomos convencendo os profissionais do setor de AC a utilizarem nosso material isolante, em princípio para os aparelhos de janela e, posteriormente, para os splits. Um isolamento para sistemas split usa em média 20 metros e foi aí que a Polipex  decolou. Somos os pioneiros em isolamento térmico de polietileno expandido em instalações no Brasil. Vieram outros negócios e introduzi na revenda a espuma elastomérica através de nossos representantes. Em 1999, trouxe a italiana L’Isolante K-Flex para o Brasil e continuamos até hoje com esta parceria. Estamos continuamente procurando alternativas que nos levem a qualificar ainda mais nossa presença no mercado. Além das linhas de isolantes térmicos flexíveis em polietileno na forma de tubos, fabricamos também o polipex duct, polipex akustik e polipex- suporte, mantas isolantes térmicas para subcobertura de telhados com refletor de radiação, mantas acústicas, para sistemas acústicos prediais e pisos flutuantes convencionais de concreto e madeira, tarugos flexíveis para fixação de vidros em esquadrias e divisórias, fundos de junta de dilatação flexíveis, além de algumas peças técnicas especiais para as indústrias de eletroeletrônicos, calçados e veículos automotores. Para o segmento esportivo e de lazer, produzimos as mantas tipo skin, de densidade mais elevada, empregados na fabricação de pranchas de body board, e para a prática de hidroginástica em piscinas produzimos o acquatoy, flutuadores cilíndricos com densidade e flexibilidade ideais para esse fim, além das linhas em espuma elastomérica K-Flex ST, K-Flex Duct e alguns acessórios. Nossos produtos são produzidos dentro de conceitos de qualidade monitorados pelo sistema de gestão de qualidade ISO 9001. No Salão Climario 2014 lançamos o Polipex isofloor, material especialmente desenvolvido em polietileno expandido para o isolamento térmico de lajes sob pisos técnicos elevados com ar condicionado em plenum de insuflamento, material recentemente fornecido para a obra da Petros, localizada na Bahia, e da Infoglobo, no Rio de Janeiro”, conta van Mullem.

Paixão pelo mar

Diferente do que muita gente pensa, não foi na Holanda que Mullen aprendeu a velejar, e sim em Floripa.

Com seu veleiro Cobra D’Água, em 2008, se consagrou como vice-campeão do Campeonato Brasileiro

“Sempre tive paixão pelo mar e foi em Floripa que aprendi a velejar. Muita gente do Iate Clube de Santa Catarina, que frequento, diz que é mentira! Aqui ganhei várias regatas solitárias e fui tetra campeão. A mais desafiadora foi a Copa Flotilha 2004, cruzando a boia de chegada com meu veleiro Cobra D’Água de 31 pés, três horas depois do inicio da prova. A regata começou às 12h00, de sábado, próximo à ponte Pedro Ivo Campos, rumo à Ilha do Largo, no sul da ilha de Florianópolis. Os velejadores contornaram a ilha, e retornaram para as proximidades do Iate Clube de Santa Catarina Veleiros da Ilha, perfazendo um percurso de 25 quilômetros. A pior parte foi quase na chegada. Eu estava com vela alta, tive que diminuí-la e foi bastante complicado, mas venci com o tempo corrigido de 2 horas 39 minutos e 54 segundos. Em 2008, me consagrei como vice-campeão do Campeonato Brasileiro, Regata realizada em Ilha Bela, Litoral Norte de São Paulo. Admito que sempre fui um capitão muito rigoroso e levava o barco no grito!”, reconhece.

Hoje ele não pratica mais em virtude de problemas na coluna, mas não dispensa estar no mar, passeando com sua lancha de 39 pés pelo litoral do Brasil.

Além do mar, van Mullem também praticava esporte de corrida e participou diversas vezes da antiga Fórmula V, hoje a Fórmula 3.

“Teve uma época em que participei de várias corridas de Fórmula V. Isso já faz 38 anos, disputei várias vezes e o último ano que eu participei, o campeão nessa categoria foi o Mauricio Gugelmin. Durante os três anos que participei cheguei a ocupar o oitavo lugar do Campeonato Brasileiro. 

Na década de 1970, quando competia na Fórmula V, em Interlagos e Jacarepaguá

A família

Pai de cinco filhos: quatro homens e uma mulher, e avô de nove netos, van Mullem se reúne periodicamente com os todos os filhos que residem na Holanda, inclusive os filhos dois brasileiros.

“O Johninho e a caçula, que são brasileiros, também moram na Holanda. Dos filhos do meu primeiro casamento, dois nasceram na Suíça e o outro nasceu na Holanda. É engraçado, pois os irmãos tiram sarro deste porque ele só tem um único passaporte! Eu gosto de conviver com eles, são jovens e divertidos! Todos eles são empreendedores, isto está no sangue! Sabe que no Clube, quando estou com o pessoal da minha idade, tenho 68 anos, acho que todos têm um papo de velho! A maioria dos meus amigos tem em torno de 50 anos. Olha só, uns dos meus filhos vai casar e já estou programando para a despedida de solteiro dele lá na Polônia, só com gente de 40 a 50 anos, e eu vou no meio deles! A minha esposa, a Socorro também é jovem. Ela tem 51 anos e eu que tenho que acompanhar ela e não ela a mim! Assim desse jeito me obrigo a ficar mais jovem do que sou! Isso mantém a gente esperto, vivo e sempre pronto para qualquer adversidade”, diz feliz  van Mullem.

Ele finaliza com uma mensagem aos mais jovens: “Nunca desista e mantenha o foco. Todo ser humano tem um sexto sentido, isso não quer dizer que você não deva usar a cabeça, mas siga esse sexto sentido. Eu enxergava longe e olhava para frente, eu acreditei, não deixei as influências de fora me abaterem. Se você tem um projeto e acredita nele, vá em frente que vai dar certo!”. 

Ronaldo Almeida e Ana Paula Basile Pinheiro

Revista ABRAVA+CLIMATIZAÇÃO REFRIGERAÇÃO

 

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