Arquitetura
Fontes alternativas de captação
Ações conscientes contribuem para empreendimentos sustentáveis
postado em: 07/05/2015 17:35 h atualizado em: 15/05/2015 11:53 h

Uma grande parte da população entendeu que é preciso mudar hábitos e conceitos para economizar água. As pessoas perceberam, por exemplo, que é viável captar água da chuva e ter uma boa quantidade de água armazenada de forma segura, utilizando assim em atividades secundárias. A professora associada do Departamento de Engenharia de Construção da Poli-USP - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Lúcia Helena de Oliveira, acredita que ações conscientes contribuem para que os usuários possam se tornar mais exigentes no momento da aquisição de um empreendimento.

Para Virgínia Dias de Azevedo Sodré, diretora técnica da Infinitytech Engenharia e Meio Ambiente, é muito importante estimular a gestão da demanda sobre edificações novas ou existentes (em nível micro). "Se for realizada em escala podemos ter soluções de conservação que trazem reduções de consumo chegando a mais de 40% na conta de água. Um simples restritor de vazão instalado no chuveiro pode reduzir o consumo de água em até 15%, e se associarmos a essa ação a adoção de sistema de acionamento dual flush nas bacias, podemos trazer uma redução superior a 25% na conta de água. Essas soluções aliadas ao uso de fontes alternativas podem passar dos 50%. Imagine se tivéssemos incentivos em escala para estas ações, a região metropolitana de São Paulo economizaria vazões de água proporcionais ao sistema Cantareira", diz Virgínia.

Segundo Lúcia Helena, a opção pelo uso de água não potável traz consigo a responsabilidade da gestão quantitativa e qualitativa para o administrador ou síndico do edifício, que passa a ser “produtor de água”. "Essa implantação requer capacitação de projetistas, executores, operadores e usuários finais, tendo em vista preservar a saúde dos usuários. Para isso, o primeiro passo é o desenvolvimento de legislação e normalização para garantir a qualidade da água nas fases de projeto, instalação e, em especial, na operação e manutenção desses sistemas. Portanto, o avanço só virá com o desenvolvimento de documentos de apoio técnico, da capacitação de profissionais, informação e sensibilização de usuários e incentivos econômicos para a adoção desses sistemas. A base para o desenvolvimento dessa documentação vem de resultados de pesquisas e da avaliação de desempenho de sistemas existentes", explica a professora. 

Água pluvial

Um sistema de captação de águas pluviais é relativamente simples de ser realizado. Existem diversas soluções para esta finalidade, porém, alguns cuidados devem ser tomados, como, por exemplo, realizar o dimensionamento e o tratamento adequado para a água, mesmo que esta seja utilizada em atividades secundárias. "As informações a serem analisadas envolvem oferta, demanda, área de captação, qualidade de água a ser captada, regime de chuvas, espaços disponíveis, tipos e distribuição de tubulações, entre outros", diz Rosana Corrêa, arquiteta, urbanista e sócia-diretora da Casa do Futuro.

Solange Zeppini, Gerente de Marketing da Hydro Z

Em residências a cisterna pode ser enterrada para não ocupar espaço, uma vez que a área em que o reservatório está enterrado fica livre e pode ser usado normalmente. Mas há quem prefira os tanques, que ficam apoiados no piso, sem precisar enterrar. Nesse caso, a instalação é ainda mais simples, mas ocupa mais espaço e geralmente é usado em indústrias, escolas, prédios comerciais, entre outros. O Sistema Pluvi, da Hydro Z, funciona com a captação da água proveniente das calhas do telhado, em seguida passa por três etapas de tratamento: gradeamento para remoção de sólidos maiores; filtragem para retenção de partículas menores; e cloração para remoção de germes e bactérias da água. Em seguida a água é armazenada e está disponível para uso nas mais diversas atividades do dia a dia. Outra opção, segundo Solange Zeppini, gerente de Marketing da Hydro Z, é a aplicação de um componente que elimina a primeira água proveniente do telhado, o processo é popularmente conhecido como First-flush, entretanto é importante destacar que este não elimina a necessidade das demais etapas de tratamento. A instalação consiste, basicamente, na realização de conexões da parte hidráulica e elétrica.

Sistema Pluvi Júnior

Água de reúso

A água de reúso é o reaproveitamento da água cinza, ou seja, da pia, da máquina de lavar, do tanque ou do chuveiro. Para Rosana, qualquer tipo de sistema deve ser projetado de acordo com as especificidades de cada empreendimento. "Muitas vezes podemos, inclusive, chegar à conclusão de que um sistema de reúso não é adequado àquele caso. As informações a serem analisadas envolvem oferta, demanda, tipo do esgoto a ser tratado (cinza claro, cinza escuro, negro), espaços disponíveis, tipos e distribuição de tubulações, disponibilidade de mão de obra para manutenção do sistema, entre outros", comenta Rosana.

Segundo Eduardo Lorena, engenheiro de Especificações da Acqualimp, é uma água que não tem carga poluidora tão grande. Porém, o sistema é mais complexo, pois demanda um processo de filtração mais detalhado e a aplicação de produtos de tratamento para viabilizar o reúso. Para Solange, ao utilizar esse sistema é preciso tomar alguns cuidados, verificar para qual finalidade essa aplicação será destinada. "Se a água foi utilizada em sanitários, será necessário um tipo de solução para que seja possível o reaproveitamento. Se a água foi utilizada em lavagem de roupas ou veículos, a solução será outra. Considerando as soluções oferecidas pela Hydro Z, uma das possibilidades é o aproveitamento da água proveniente de efluentes sanitários, neste caso é utilizada uma Estação de Tratamento de Esgotos. O sistema aeróbio utiliza tecnologia de bateladas para remover até 95% da matéria orgânica presente na água. Em seguida é realizado o polimento da água, que é direcionada para um filtro de areia e logo após para um clorador onde germes e bactérias são eliminados. Esta água pode ser reutilizada em sanitários, irrigação, entre outros. Se a água foi utilizada em lavagem de roupas ou veículos, a solução será outra. A água utilizada nestas aplicações é captada e armazenada de forma temporária em um tanque de água bruta, em seguida a água é direcionada para um reator onde ocorre o processo de separação do sabão e tensos ativos. Por fim, a água é direcionada por decantadores, um filtro de areia, e um clorador, realizando o polimento da água que, em seguida, é disponibilizada para reúso. O sistema utilizado acima se chama E.T.E. - Estação de Tratamento de Esgotos, e sua instalação serve para ambas as soluções. É muito simples de ser realizada, pois se tratam de equipamentos modulares e compactos, sendo necessária apenas a instalação hidráulica e elétrica dos mesmos", explica Solange.

Estação de Tratamento de Esgotos

O gerente de suprimentos e qualidade da Construtora Tarjab, Bruno Freire, comenta que não há uma norma técnica específica para o reúso de águas cinzas. "Temos somente a NBR 7.229/93 e NBR 13.969/97 que tratam de projetos, construção e operação de tanques sépticos. Essa segunda norma cita, em um pequeno trecho, algumas classes de utilização da água e algumas condições de controle após o tratamento das águas negras (esgoto bruto). Quando falamos em viabilidade técnica, hoje, não temos restrições, pois temos uma gama de materiais e equipamentos disponíveis para compra e contratação, temos também empresas especializadas para projeto, instalação e manutenção e controle das estações de tratamento", esclarece Freire. 

Retrofit

É necessário, primeiramente, realizar um estudo detalhado do projeto original e conceber sua atualização dentro das normas técnicas existentes. Priscila Mercaldi, gerente de projetos da Tesis Engenharia, deixa claro que a realização de um bom projeto é função de um bom projetista, para toda e qualquer disciplina. "Em projetos de reforma, em especial os edifícios mais antigos, o projetista (de sistemas prediais hidráulicos) vai atentar para as oportunidades de melhoria do sistema, com foco na eficiência do uso da água, como, por exemplo, redimensionamento do sistema, de modo que as pressões e vazões nos pontos de consumo sejam adequadas aos tipos de uso; de usuários; localização do edifício; previsão de tubulação de retorno, evitando o desperdício de água fria, enquanto aguarda a água quente chegar ao ponto de consumo num sistema de aquecimento; entre outros. E, finalmente, a setorização do consumo de água, se possível à individualização do consumo, fornecendo instrumento de gestão que possibilita o acompanhamento do consumo ao longo do tempo e permite que elevações sejam rapidamente percebidas e corrigidas, minimizando as perdas de água", explica Priscila.

Para Freire, a implantação de reúso de água tratada em empreendimentos já existentes é extremamente oneroso e inviável financeiramente, o ideal é que seja pensado em sua concepção. É muito mais fácil conceber em projeto do que adaptar em construções existentes. "A barreira existente é o custo da aquisição e implantação do sistema, visto que demanda espaço para alocá-la, sistema hidráulico totalmente independente de captação, armazenagem e distribuição dessa água como citado na NBR 5.626 (instalação predial de água fria) e, claro, manutenção preventiva e controle da água, mesmo que não seja para consumo", enfatiza o profissional da Construtora Tarjab.

Sistema de Esgoto a Vácuo

É um sistema que retira o ar da tubulação produzindo o vácuo, um sistema pressurizado. As bacias sanitárias mais antigas consomem aproximadamente 12 litros de água por descarga; as mais modernas consomem até 6 litros; e o sistema a vácuo, de 1,2 a 1,5 litros por descarga, gerando uma economia para o empreendimento de até 90%. As bombas produzem uma pressão de vácuo que acaba sugando os dejetos para uma caixa de coleta de esgoto. Além de economizar água, consome menos energia, pois as bombas que abastecem um determinado empreendimento trabalham bem menos. Esse sistema é utilizado em aviões, ônibus e navios. "Podemos usar como exemplo um empreendimento com 5 mil pessoas usando sanitários a vácuo e comparar com os sanitários convencionais (6 litros por descarga), a economia é de 54 milhões de litros a cada ano. Uma família de quatro pessoas economiza 43 m³ de água potável a cada ano, apenas trocando o sanitário comum pelo sistema a vácuo, gerando muito menos esgoto", esclarece o engenheiro Marco A. Cerulli, diretor da Távola Engenharia e Comércio de Equipamentos Ltda. 

Charles Godini <charles@nteditorial.com.br>

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