Perfil
Giovanni Sarti, tradição familiar na engenharia
Nascido em Genova, Itália, ele faz parte da quinta geração de engenheiros na família
postado em: 18/05/2015 14:37 h atualizado em: 19/05/2015 14:09 h
A frente da MBS Engenharia, ele relembra seus 23 anos de experiência
(crédito: Nova Técnica)

“Temos um século de engenharia no lombo. Meu pai, também engenheiro, era um cara político, passou pela fase fascista na Itália, pela Segunda Guerra Mundial, e descontente com o regime que havia se instaurado, aceitou o convite para gerenciar a Sale do Brasil e eu, minha mãe e irmãos viemos para a capital paulistana seis meses depois. Na Sale, meu pai trabalhou por diversos anos e recebeu uma oferta para trabalhar na Gie, empresa de um grupo italiano que associava diversas outras empresas na área de eletrificação pesada, responsável pela obra de uma usina termoelétrica, localizada no interior do Rio Grande do Sul. Nesta época eu já tinha uma empresa aqui em São Paulo e nem era ainda formado. Como minha família ia se mudar para o Sul eu também resolvi ir. Durante o tempo que morei no Sul, me formei em engenharia mecânica pela URGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, me casei, e comecei a trabalhar no Estaleiro Só, em Porto Alegre. Nós bricavamos dizendo que o pai do fundador do estaleiro, quando foi registrar o nome, disse Joaquim Pereira, e o ‘escrivão perguntou: só? e ele disse: sim, Joaquim Pereira, só’ e no final ficou fazendo parte do sobrenome. Foi um período bem divertido! Depois do Estaleiro Só, fundei com dois amigos um estaleiro em Santa Catarina, e fiquei ligado a este estaleiro uns dois ou três anos. Isso foi no começo dos anos 1970. Quando comecei a discordar da filosofia de trabalho dos outros sócios, pois eles queriam se associar com um grupo poderoso de Santa Catarina, que congregava as empresas têxteis, e eu achava que esses caras iriam engolir a nossa empresa e na verdade aconteceu isso mesmo. Eles fizeram aporte de capital e logo nos dispensaram”, conta Sarti.

 

A partir daí ele começou a trabalhar como autônomo fazendo projetos.

“Nesse mesmo tempo peguei também uma representação de bombas hidráulicas e pensei nos usuários de ar condicionado e comecei a visitar as empresas. Cheguei na Tecnoclima de Porto Alegre, cujo o dono era um cara que vinha de uma família de posses, que tinha sido um playboy e ‘consertado’ na base da psicologia e virou empresário, o Paulo Canteiro Torelli. Bem, acabei ficando amigo dele e aceitei o convite para trabalhar com ele. Mas avisei ele que antes de começar, iria tirar férias com a minha família e ir para Punta Del Leste. Após um mês, regressei e comecei a trabalhar com ele na Tecnoclima e por lá fiquei. Acontece que o Toreli era muito inteligente e capaz de fechar ótimos negócios, porém, cuidar da grana não era com ele, um péssimo administrador, além de gastar mais do que a empresa faturava. Com a crise na Tecnoclima, fizemos uma proposta de compra, que em princípio o Toreli não considerou. Depois de três ou quatro meses ele nos chamou e reconsiderou, mas  era tanto problema que não tínhamos o mesmo horizonte que há três meses, então, pedi para ele me dispensar”.

 

Em 2000, no Instituto de Engenharia integrando o conselho editorial da revista Climatização

 

 

Como Sarti ganhou experiência no setor de ar condicionado, e por coincidência, o primo de sua esposa, o Nelson Ávila, também atuava no setor, e tinha um bom relacionamento com o Paulo Velhinho e trabalhava na Coldex Trane, se convenceu que o mercado era muito ávido, isso em 1977/78, época em que surgiram por volta de 200 mil empresas de ar condicionado no Brasil.

“O Nelson Ávila montou uma empresa em São Paulo, a NA Engenharia, e ficou sabendo através da mídia que eu havia saído da Tecnoclima e me convidou para trabalhar com ele. Aceitei a proposta e me mudei com a família para São Paulo. Trabalhei na NA cerca de um ano trazendo excelentes resultados, porém fiquei descontente com certas coisas que aconteceram em relação a minha participação nos lucros, entre outras, me demiti, fui trabalhar na Sulzer, onde permaneci por cerca de dois anos. Os suíços eram muito bitolados. E eu queria voar de outra forma, e sai da Sulzer. Passou um tempo e o pessoal da Cebec me convidou para trabalhar lá. Mas a Cebec também não estava num bom momento. Nessa época estávamos dando andamento as obras na Usina de Angra para enriquecimento de urânio. A minha sorte foi que nesse tempo eu frequentava o Clube de Tiro e fiquei amigo do Sérgio Belinky, que também era atirador, lá no Hebraíca. Aí, ele e o Hans Sonnenfeld me fizeram uma carta de recomendação e sai da Cebec recebendo também todos os meus direitos. E assim sai voando! Nesse ínterim topei com o Antonio Rios, na época dono da Stemcar – Sociedade Técnica Manutenção e Ar Condicionado, em sociedade com o Sidnei Cupolo, e um outro sócio. O Rios me chamou e perguntou se eu queria ser gerente de obras especiais. A proposta era interessante e topei. Umas das obras que me marcou foi a do Linhão, rede de transmissão em corrente contínua da Usina de Urubupungá para o Estado de São Paulo. Foi a Hitachi que forneceu todos os condicionadores de ar e fizemos todas as estações e subestações da rede, e a partir daí comecei a trazer muitos negócios como o prédio da Câmara Comercial Italiana, um edifício no Rio de Janeiro, entre outras. E o Rios também tinha sociedade em outra empresa, a SLIC - Sistema de Limpeza Interna de Circuitos, com o Hélio Rubens de Moraes, que posteriormente acabou virando meu sócio”.

 

Premiado com a obra Edifício Faria Lima 4440 do “Destaques do Ano Smacna”

 

Sarti conta que quando o Hélio Rubens saiu da sociedade com Rios, eles se juntaram e com o relacionamento com a Honeywell, se dedicaram a área de projetos.

“Em 1982 alugamos uma casinha aqui perto da Rua Texas, e inauguramos a MBS (Moraes, Barros e Sarti) Engenharia. Nós começamos a ter sucesso na área de projetos, porém, as negociações com a Honeywell não eram tão promissoras. Enfim, abandonamos a parceria com a Honeywell e nos dedicamos somente a área de projetos. Nós tínhamos bons contatos e fazíamos ótimos projetos. Em dois anos a MBS foi uma das empresas com melhor faturamento do mercado de ar condicionado no Brasil! Tivemos muita coragem e muita perseverança, pois éramos uma empresa pequena e fechavamos negócios milionários, projetos realmente grandes. Eram muitas obras de risco! Nós fizemos um sistema para resfriamento de gelatina para encapsulamento de medicamentos. Eram cápsulas extrudadas que deveriam resfriar durante o processo de fechamento. Fizemos ainda oito ou nove projetos grandes para a Pirelli, diversos laboratórios farmacêuticos, enfim, realizamos muitos projetos para a área industrial e telefonia. Eram projetos complexos e verdadeiros desafios. Diferente do que o mercado em geral fazia. Usamos a psicrometria para cálculo de carga térmica enquanto muitos engenheiros ainda a calculavam por metro quadrado!”.

A MBS

Sarti relembra que a MBS Engenharia passou nesses 23 anos de existência. A divisão de projetos ampliou suas atividades para a área elétrica e reforçava sua participação na área dos sistemas hidráulicos e automação.

“Chegamos a ter uma equipe grande com nove projetistas, quatro engenheiros, e fazíamos projetos de elétrica também! Nessa época, incorporamos, eu e o Hélio Rubens, mais dois sócios, o Hermes José de Freitas e o Arnaldo Zaratin, e posteriormente, mais um, o Takeda. Passado um tempo, o Hélio Rubens resolveu sair da empresa e compramos a parte dele. Também findamos a sociedade com um deles. Aliás, tem uma passagem inusitada na saída desse sócio. Eu costumava trabalhar também aos fins de semana e quando chego sábado na empresa vejo tudo revirado e faltando algumas coisas, principalmente literatura técnica, livros importados, etc.. Mas na verdade, o Arnaldo que havia passado por lá e pego as coisas dele! Quase armei uma confusão, mas no fim foi tudo esclarecido. Com a saída do Arnaldo, ficamos eu, o Freitas e tínhamos uma secretária maluca e muito divertida que arrancava os cabelos com as demandas da empresa, mas sempre dava conta do recado! Essa época projetávamos para o CTA e o Hermes já dava sinais que não estava muito bem de saúde e por fim, acabamos desfazendo a sociedade. Foi uma longa negociação e bem na época do Dilson Funaro, momento que o Brasil passava por uma mega inflação. Relembro até que um pouquinho antes disso, tínhamos fechado um grande negócio com a Petrobras, eram 10 projetos num único contrato. Mas, com toda a inflação do momento, ficou complicado darmos continuidade ao contrato com a Petrobras. Resumindo a história, fiquei o único dono da MBS!”

Edifíco Faria Lima 4404

Ele relembra que foi nessa época que Silvinha, sua esposa, também foi sua companheira de trabalho.

“Chamei a Silvinha para integrar a MBS e fizemos uma ótima parceria também na vida profissional, onde ela me acompanhou até seus últimos dias de vida! Éramos unha e carne e só agora, passados quase três anos estou voltando a me engajar novamente na vida social. Hoje me divirto com meus filhos, o Rodrigo (pai da Carolina e do Eduardo) e Ana Luiza (mãe da Stela)”, diz emocionado.

Na vida associativa, por intermédio de Aldo Bianco, Sarti se associou a Abrava foi presidente do DN Projetistas – Departamento Nacional da Associação, na gestão de Wagner Hotelo. Também foi presidente do Instituto de Engenharia, em São Paulo.

Atualmente, a MBS é gerida por Sarti, atuando na área de engenharia, e pelo seu filho, Rodrigo Ávila Sarti, na área de engenharia civil e gerenciamento de projetos e obras.

E Sarti deixa um recado: “Gosto de aeromodelismo, pratico tiro esportivo e sou colecionador de armas, e com a viúves estou reaprendendo a apreciar uma ‘bella donna’! Estou de volta a vida”!

 

Ana Paula Basile Pinheiro - editora da Revista ABRAVA Climatização+Refrigeração

 

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