Construção
Comissionamento de edifícios e sistemas prediais
Os desafios da autoridade de comissionamento
postado em: 08/07/2015 12:52 h atualizado em: 22/07/2015 11:35 h
Palestrantes Painel Comissionamento
(crédito: Nova Técnica Editorial)

O painel, que discutiu a relação do comissionamento e suas atividades em edifícios e sistemas prediais, aconteceu no dia 27 de abril, na sede da Abrava, em São Paulo (SP). Com a presença de agentes comissionadores, projetistas, instaladores e cliente final, o evento contou com cinco palestrantes: Leonilton Tomaz Cleto, presidente do Departamento Nacional de Comissionamento - BCA da Abrava, e diretor da Yawatz Engenharia; George Raulino, diretor da Estermic Engenharia e membro do DNPC da Abrava; José Napoleão de Bem, do DN Instalação e Manutenção e do Grupo GPS; Eduardo Yamada, engenheiro de sistemas prediais do CTE; e Hu Peir Jyh, diretor sênior da Tishman Speyer.

 

Em resposta, Leonilton Tomaz Cleto opinou que as orientações para a aplicação do comissionamento têm diversas nuances com alto grau de complexidade. “Você pode começar por um caminho e se deparar no andamento do processo com vários outros aspectos. Não ser tão rigoroso ajuda. No meu entendimento ainda é possível incluir o comissionamento em algumas etapas da obra. Essa questão é extremamente complicada! São tutoriais que temos que fazer e não dá para definir um escopo rígido, mas sim ir evoluindo conforme a necessidade se apresenta. Mas sempre vamos estar nos deparando com os clientes que ainda desconhecem esse processo. Nos Estados Unidos, num contrato de comissionamento o cliente final, a partir das suas experiências, vai desenvolvendo um relacionamento com a autoridade de comissionamento e, a partir daí, essa autoridade comissionadora sabe exatamente o que o cliente final quer e precisa. É muito parecido com um contrato de um advogado confiável para defender uma causa, ou o médico da família. É esse o papel do agente ou autoridade comissionadora. Tudo isso é muito novo. Tenho sido extremamente enfático na questão da produtividade e eficiência energética. Quando falamos de eficiência energética, temos que tomar cuidado, pois a razão de ser do ar condicionado não é a eficiência energética e sim a climatização! Se nós não damos a atenção devida na busca dos requisitos para conforto térmico e qualidade do ar, não adianta correr atrás de eficiência. Ou seja, antes da eficiência, o ar condicionado tem uma razão de ser: dar conforto térmico e qualidade do ar para os usuários. Esses elementos aliados à eficiência, aí sim! Isso muitas vezes tem sido esquecido em alguns projetos”.

O diretor da Térmica opinou, então, que “chegamos à conclusão que não é tão simples implementar o comissionamento! Creio que é por isso que existe desde o comissionador  que oferece um carimbo, até o que realmente vai proporcionar o trabalho correto. E, para finalizar, essa discussão é a mesma que se dá no comissionamento técnico e o processual. Tudo é uma questão de custo!”

 

Embasando suas conclusões, o diretor da Térmica afirmou que se o comissionamento vem apenas em função da certificação LEED, é essa que determina as orientações. “Ele (o LEED) vai te dizer para seguir tal recomendação para o sistema de AVAC, iluminação etc. O LEED é uma ferramenta que você tem na mão e você pode ampliar ou diminuir de acordo com a sua verba. O problema é que hoje recebo pedidos para orçar comissionamento de uma forma muito simplista e quando começo a questionar sobre o memorial descritivo o cliente responde que já pesquisou outras empresas e quer apenas saber o meu preço! Esse cliente precisa saber que não é tão simples assim passar um orçamento sem que tenhamos vários dados para analisar tal projeto.”

Contribuindo com a visão do cliente final, Thales Cunha Galvão, do Itau Unibanco, considerou importante os agentes comissionadores definirem o escopo. “Não temos noção do que é o comissionamento. Fizemos recentemente o comissionamento no nosso datacenter, localizado em Mogi das Cruzes, somente por causa do LEED. Acho que o caminho é seguir o que o LEED requer como uma proposta inicial. É difícil para nós, clientes, que não temos essa cultura de comissionamento, definir um escopo na contratação e determinar o que queremos. Se já nos é apresentado no escopo fica mais fácil, inclusive demonstrando os ganhos com o comissionamento.”

Integração de disciplinas

Carlos EduardoTrombini, presidente do Sindratar-SP, lamentou que há muitos anos escutamos sobre o relacionamento interdisciplinar sendo que a situação continua! “Como podemos trabalhar juntos, envolvendo todas as disciplinas de um edifício na atual situação? Como fica a automação então? Numa ponta os projetistas de ar condicionado pedem mudanças no gerenciamento, na outra o pessoal da automação vê uma falta de interesse do pessoal do ar condicionado em gerar essas condições. Fica aqui o desafio para nós da engenharia térmica avançarmos nesse contexto”, provocou.

Manual recomenda que o TAB deve ser aplicado em toda a instalação, mesmo tratando-se de um teste de alto custo

Aproveitando a deixa, Napoleão de Bem avançou pelas responsabilidades no projeto. “Na minha vivência, muitas vezes, deixamos para a automação estabelecer a estratégia de operação do sistema de ar condicionado. Com todo o respeito ao pessoal de automação, quem tem que estabelecer a estratégia de funcionamento do ar condicionado para se ter uma condição eficiente e atender aos requisitos do cliente é o pessoal de ar condicionado. Digo isso com todo o respeito ao pessoal da automação! Se formos verificar os problemas de funcionamento nas instalações de ar condicionado, na minha experiência como instalador, passa muito pela automação e isso porque o pessoal do ar condicionado muitas vezes não tem paciência de passar para a automação as estratégias de funcionamento, que devem ser estabelecidas no projeto. Cuidar da eficiência energética e sustentabilidade tem a ver com o fim dos recursos naturais. No comissionamento eu estou pensando nos recursos para eficiência energética, por exemplo. O Instituto Emilio Ribas está investindo cerca de R$ 150 milhões para sanar o problema com a distribuição de energia. E dentro das questões dos edifícios que operam ou não adequadamente, é fundamental a questão do gerenciamento. Há alguns anos aqui no Brasil surgiu o primeiro edifício com VRF e nós fomos escolhidos para a instalação e, no projeto arquitetônico, as lajes não eram compatíveis para comportar tais sistemas. Constatei que na maioria dos projetos de arquitetura é esquecido o sistema de climatização. Se não mudar a forma de gerenciar, não haverá ar condicionado que dê certo.  Um edifício não é estático, ele é vivo e muda constantemente”.

George Raulino, no entanto, argumentou que “antigamente fazíamos projetos onde as definições sobre a automação eram mais detalhadas. Na minha opinião a lógica da automação deve constar nos projetos. E daí para frente, o pessoal da automação que desenvolva as lógicas que foram propostas em projeto. No que tange à falta de diálogo entre as partes, ou seja, entre os participantes do projeto, isso é uma questão cultural. Vamos debater, mas provavelmente minha geração não vai ver isso na prática, essa integração que se faz necessária. Nem sei se a próxima geração vai conseguir ter esse diálogo que beneficie o entendimento do projeto entre arquiteto, engenheiro, empreendedor e áreas complementares. Infelizmente hoje, na pirâmide do projeto, o arquiteto ocupa o topo e as outras disciplinas estão submetidas às definições dessa arquitetura. Essa é a estrutura de projeto que lidamos atualmente nos empreendimentos brasileiros.”

Procurando responder os argumentos de Raulino, Eduardo Yamada relatou a experiência da sua empresa. “A lição que aprendemos no CTE, na consultoria para o LEED, é que o mercado começou a enxergar não somente a certificação como um diploma, mas muitos clientes e incorporadores hoje buscam o benefício da eficiência em prol da sustentabilidade e não só para agregar valor ao imóvel. A Tishman Speyer, por exemplo, tem uma equipe que chama todas as disciplinas a se envolverem em cada empreendimento. Os processos de construção sustentável hoje obrigam a integração de diversas disciplinas e esse é um caminho apontado. Eu vejo hoje, mesmo que timidamente, essa nova geração aberta a esse envolvimento, mesmo ainda encontrando em alguns projetos listas de pontos da automação incompatíveis com o sistema de ar condicionado. Sim, são erros grotescos, mas os processos de certificação e o próprio comissionamento geram avanços e agregam qualidade.”

Voltando a argumentar, Napoleão reafirmou o papel das equipes de ar condicionado na definição de parâmetros de funcionamento do sistema de automação, assim como da necessidade de integração multidisciplinar. “Concordo com o Raulino que se trata de uma questão cultural, a mudança pode acontecer a partir do momento que houver um catalisador e essa discussão é muito salutar. Acredito que esse catalisador é o agente de comissionamento, ele pode interagir para o relacionamento entre as diversas disciplinas. Se o agente comissionador conseguir relacionar todo mundo, ele será o responsável pelo início de um novo pensamento e uma nova cultura de mercado. Trata-se de um processo cultural. Acredito que a figura do agente comissionador possa mudar os paradigmas existentes hoje no nosso setor.”

Decisão do cliente

Provocado sobre o papel da ferramenta no destino final da obra, Tomaz Cleto explicou que não cabe à atividade de comissionamento aprovar ou condenar, mas sim qualificar. “Costumo dizer que quem decide é o cliente. Apresentamos resultados, mas quem decide é ele. Nosso papel, ou seja, do agente comissionador, não é a fiscalização ou inspeção. E tudo será discutido em equipe, incluindo, principalmente, o cliente. O nosso mercado ainda não consegue absorver isso e acho que não é culpa do instalador, nem culpa da construtora. É sim uma questão cultural bem complicada, onde existe a falta de esclarecimento. Mesmo se o agente comissionador não qualificar a obra, o cliente final poderá dar andamento assim mesmo. Na medida em que o cliente me oferece as ferramentas eu aponto o desvio e uma vez que ele me dê autoridade, posso executar a correção, caso contrário, não. Esse é o ponto, pois o comissionamento é o controle de qualidade da obra”, concluiu.

No entendimento de Raulino, entretanto, o comissionador precisa dizer sim ou não. “Então eu considero o parecer da autoridade comissionadora. Como a palavra mesma diz, ele tem autoridade, senão vira bagunça ou brincadeira. Tem que ser dada e respeitada a autoridade do agente comissionador sobre os processos. Se por acaso não for feito o teste de vazamento e estanqueidade de dutos, a autoridade do comissionador deve fazer cumprir essa ação.”

Aproveitando a menção ao teste de vazamento de dutos, Mauricio Salomão Rodrigues, da Somar Engenharia, alertou que o manual recomenda que o teste deve ser aplicado em toda a instalação, mesmo tratando-se de um teste de alto custo.  “Então vejo que temos que focar onde realmente pode ocorrer isso e onde impacta no desempenho térmico e operacional.”

Rodrigues aponta, ainda, a diferença de padrão de projetos entre Estados Unidos e Brasil, “onde temos as fases da definição de OPR, BOD, simulação energética, memorial de cálculo e descritivo”. E arrematou com uma pergunta: “uma vez que o Guideline 0 segue a aplicação considerando a sequência americana, se não temos essa estrutura aqui no Brasil, como fica o comissionamento visto que temos que comissionar prédios LEED conforme o Guidline 0?”

“Nós damos o nosso jeito!”, argumentou Tomaz Cleto. “Eu entendo que novamente existe uma questão cultural onde precisamos, através do LEED, nos adequar. Hoje de um modo geral estamos caminhando para essa adequação. Ou adotamos essa estrutura como um todo, pois é uma tratativa que extrapola os requisitos LEED. Tudo isso já existia antes do LEED. Na maioria dos projetos que citei na minha palestra o comissionamento passou a existir quando a obra já estava bem avançada, ou seja, foi contratado após o projeto”, concluiu.

Hernani Paiva, diretor da IMI Hydronics Engineering, levantou outra questão: “O cliente precisa sentir através de casos práticos onde se ganha ou perde dinheiro. Como chegar nesse cliente e fazer com que ele entenda a importância do comissionamento? Quais as ferramentas que as empresas de comissionamento oferecem?”

Paiva incumbiu-se de responder à sua indagação: “Pela minha experiência, a melhor maneira de aprender e argumentar é o relato de casos. Não adianta eu escrever a normativa tal, o que convence é o caso. Uma vez fui falar com um cliente e explicar sobre as funções e ele virou para mim e disse: ‘meu amigo o meu negócio é computador, se o sistema funcionar para mim está ótimo!’. Temos que mensurar e apresentar cases de sucesso e com isso ganhamos o cliente. Acredito que essa é a única fórmula garantida!”

Público presente interagiu durante debate

“Nós do setor de ar condicionado”, concluiu Tomaz Cleto, “já há muitos anos temos a função de convencer os clientes da importância da qualidade do ar interior e com o comissionamento não é diferente. Hoje o cliente tem uma noção dessa importância e está na hora de repensarmos como convencer esse mesmo usuário das vantagens da aplicação do comissionamento. Acredito que seja através de métricas. Mostrar os prejuízos não só na conta de energia, e sim um número global e como o ar condicionado trata o conforto. Um dos argumentos é a produtividade.  A produtividade vem do conforto térmico e qualidade do ar interior, que por sua vez depende de um bom projeto, dimensionamento correto dos equipamentos, comissionamento e instalação do sistema. Hoje vemos 500 mil splits invadindo instalações de pequeno porte e isso na minha opinião não é ar condicionado! É refrigeração fraquinha! E nós temos que bater forte neste ponto, então, esse desafio é nosso! Podemos usar essa métrica como argumento onde infelizmente alguns números podem ser tratados como casos, embora mal sucedidos, mostrando os prejuízos. O problema é que a maioria dos clientes finais não vê isso”.

Ana Paula Basile Pinheiro <anapaula@nteditorial.com.br>

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