Perfil
O pioneirismo de Eliane Bennett
Uma das primeiras engenheiras do mercado brasileiro
postado em: 13/07/2015 11:27 h atualizado em: 22/07/2015 11:41 h
Eliane Bennett
(crédito: Nova Técnica Editorial)

Mencionada com louvor pelo seu paraninfo, ressaltando como "um ano de glória, onde foi a primeira mulher mackenziana a se formar em engenharia mecânica", ela conta seus desafios como mulher e engenheira

Formada em engenharia mecânica pelo Mackenzie, e mencionada com louvor pelo seu paraninfo, ressaltando como ‘um ano de glória, onde temos a primeira mulher mackenziana a se formar em engenharia mecânica’.

Quando estava no terceiro ano Eliane começou a procurar estágio.

“Eu fazia as entrevistas, o pessoal agradecia muito e me dizia que a preferência era de um homem para ocupar o cargo. Foram dezenas, até que no final de 1972 apareceu um pedido de um engenheiro mecânico, que falasse francês, para trabalhar na Luwa Climatécnica, que não existe mais, porém na época era uma das grandes empresas do mercado. Como eu tinha as qualificações, fui entrevistada e passei no teste. Diga-se de passagem, que passei não pelo mérito de engenheiro, mas sim porque dominava o idioma. Assim, comecei a trabalhar na Luwa e para mim foi o máximo por esta empresa me dar uma chance num setor machista. Minha primeira experiência foi com chillers para água gelada, que a Luwa chamava de WK”, conta Eliane.

Após dois anos na Luwa, Eliane ganhou de presente do seu pai um curso de idiomas no exterior e ela escolheu o alemão.

“A Luwa tinha muita literatura técnica escrita em alemão, assim decidi por essa língua, pela a importância na área de engenharia. Assim, pedi demissão da Luwa, avisando que iria estudar na Alemanha. Porém, a Luwa me propôs continuar na empresa, me realocando, enfim me dando a oportunidade de estudar e trabalhar. Assim, fui para Munique fazer o curso e permaneci lá por um ano. Finalizado o curso, fui para a Luwa da Suíça, fiz estágio e quando voltei para o Brasil, assumi a divisão de filtros (laboratório e produção) na Luwa do Brasil. Isso foi em 1976 e hoje digo que somente quando se tem 24 anos é que se aceita estudar uma língua estrangeira e que volta a sua terra natal assumindo uma área! É coisa de jovem mesmo! E deu muito certo. Trabalhei por 16 anos na Luwa. Nesses anos de Luwa tive a oportunidade de trabalhar com o Samoel Vieira de Souza, o Flo, a Heloisa Meirelles, enfim com muita gente! Desses 16 anos, os últimos cinco anos, a Luwa mais uma vez foi super bacana, me dando a oportunidade novamente de redução proporcional de jornada de trabalho, onde pude dividir meu tempo com meus filhos e coordenar com meu trabalho. Sempre digo que a Luwa é uma empresa a frente de seu tempo, muita aberta e humanitária. Na época que entrei o diretor da Luwa era o Pedro Stulgys e ele foi um chefe e um mestre ótimos. Para você ter uma ideia, há seis meses fui a Suíça e decidi ligar para o meu chefe daquele tempo. Quando eu liguei e perguntei se ele estava bem, ele disse: ‘Eliane, onde você está!!!’. Isso depois de décadas sem falar comigo! Nos convidou, eu e meu marido, para almoçarmos, passamos a tarde todos juntos e ele me apresentou inclusive a filha dele! Enfim, foi muito gratificante. A Luwa para mim foi uma empresa fantástica!”.

As salas limpas

Eliane se dedicou nesses anos de Luwa a área de filtros.

“Eu desenvolvia os filtros para quem projetava as obras! Conheci muita gente da engenharia de projetos. Nós desenvolvíamos, testávamos e fabricávamos os filtros para as instalações e com isso fui enveredando para o setor de salas limpas. A partir dos filtros comecei a fazer as salas limpas, onde a Luwa foi uma empresa com forte atuação nessa área”.

Em 1989, Eliane saiu da Luwa e abriu sua própria empresa, a Bennett Consultores, com foco na medição de salas limpas.

“Na época havia quatro fabricantes de salas limpas, que fazia também media, ou o concorrente vinha para medir, e não tinha ninguém independente. Então naquela época eu fundei a Bennett Consultores, que só fazia isso, medir salas limpas! Também prestávamos consultoria, caso fosse necessário. Hoje digo que esse setor evoluiu muito. Para se ter uma ideia, o contador de partículas naquela época, para ser calibrado, tinha que ser transportado de carro até uma empresa de microeletrônica  em Contagem (MG), onde nós aferíamos juntos. Para isso tínhamos que alugar um carro de grande porte para caber a caixa do contador de partículas. Um modelo  Roico naquela época. Quando me aposentei, o meu contador de partículas cabia na minha bolsa! As coisas realmente evoluíram muito! Outro fato é que antigamente quando me perguntavam com o que eu trabalhava, eu demorava cerca de mais de meia hora para explicar: ‘Sabe aquelas salas com controle de contaminação, que o pessoal veste aquela roupa paramentada para fazer remédio, etc, etc, é com isso que eu trabalho’. Hoje já digo: ‘Sabe aquelas salas que evitam a contaminação’ e logo me respondem: 1Ahh, as salas limpas??’ Então, nesses anos todos acabamos sendo os divulgadores desse setor que hoje está mais do que conhecido. E cada vez mais, pois atualmente faço parte da maioria das associações do setor, tanto as nacionais quanto as internacionais”.

A SBCC

“A SBCC – Sociedade Brasileira de Controle de Contaminação foi o caminho. Foi por ela que fizemos acordos de cooperação com a ABNT, gerando posteriormente um Comitê Técnico junto ao ICCS - International Confederation of Contamination Control Societies”, diz Eliane, que durante a festa de comemoração de 25 anos da SBCC - Sociedade Brasileira de Controle de Contaminação, foi homenageada pelos serviços prestados a entidade.

Hoje como membro do Conselho Consultivo da SBCC, Eliane conta que a história dessa instituição, se confunde com a da tecnologia de áreas limpas no Brasil.

“Essa ideia teve início em 1988, na cidade de São José dos Campos (SP), no I Simpósio Nacional de Áreas Limpas, organizado pelo INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Johnson & Johnson, e IBM Brasil, com a presença de muitos palestrantes internacionais, inclusive diretores da Nasa,da IBM do Japão, entre outros. Na época, o Dr Hans Schicht, que era da Sulzer e posteriormente da Luwa, nos deu muito apoio e nos indicou para o ICCS. O I Simpósio Nacional de Áreas Limpas foi um marco e permitiu a troca de experiências entre profissionais de países em que a tecnologia era mais desenvolvida, estreitando relacionamentos de fornecedores e clientes, e abrindo espaços para que as empresas do setor continuassem o networking, gerando assim um segundo evento, o 1º Encontro Nacional de Controle de Contaminação, realizado no dia 30 de maio de 1989, em São Paulo (SP), organizado pela FAAP - Faculdade Arnaldo Álvares Penteado. Ao final do evento foram aprovadas diretrizes gerais, criando então a SBCC. A Abrava foi uma parceira fundamental, que abriu as portas para receber a SBCC. Essa parceria tende a crescer e se fortalecer cada vez mais. O controle de contaminação está em toda parte. Ter uma entidade que cuida desse assunto e que representa o nosso país perante a comunidade internacional é de grande importância", comemora Eliane. 

Nos 25 anos da SBCC, Eliane foi homenageada pelos serviços prestados

A mulher e a engenheira

“Depois que entrei na Luwa tive poucos problemas pelo fato de ser mulher. Nesses anos no setor lembro-me sempre de um caso engraçado! Uma empresa ligou para a Luwa pedindo um engenheiro especialista, na época era ainda na área de refrigeração. Eu fui e na hora em que me apresentei ao alemão dessa empresa ele me olhou e falou: ‘Eu pedi um engenheiro!’. Naquela época o meu CREA era de engenheiro porque não existia a categoria engenheira. Virei para ele e disse: ‘Mas eu sou engenheiro!’. Ele respondeu: ’Mas eu não trato com mulher’. E eu repliquei: ‘Então o senhor tem alguma problema’ e me retirei. Quando cheguei na Luwa tinha um recado do meu diretor para falar com ele e pensei: ‘claro que o alemão já ligou para dizer que queria um engenheiro!’. Mas o meu diretor disse a ele que a especialista dessa área era eu e ela é quem vai atendê-lo! Se não puder ser ela então sentimos muito. Dois dias depois voltei lá e ele me atendeu e pude fazer o trabalho. Um ano depois, eu já formada, esse mesmo senhor me convidou para trabalhar com ele. Mesmo no setor em que atua a Abrava, nunca tive dificuldade para trabalhar com os engenheiros. Na verdade minha experiência associativa começou na Abrava, uma vez que a Luwa era uma das associadas. Nesse tempo tive oportunidade de conviver com diversas pessoas do grupo setorial de filtros, onde faziam parte a Trox, Luwa, Veco, Aeroglass. Essa convivência era muito boa e destaco pessoas como Celso Simões Alexandre, sempre muito correto e solicito; a Heloisa Costa, da Ardutec, que inclusive virou minha amiga pessoal; o Samoel Vieira de Souza, José Rogelio Medela, Miguel Ferreirós, Jorge Kayano, Pedro Evangelinos, Flo, Bacus, Klaus, Lucas e muitos outros que passaram pela Luwa também. Eu tenho até receio de estar esquecendo alguém! Se esqueci que me perdoem!”.

Eliane diz que quando foi criada a SBCC, migrou da Abrava para essa nova entidade, que tinha mais a ver com a sua área de salas limpas.

“Na SBCC tenho colegas maravilhosos desde de sua fundação como o Franz Gasser, Jean Pierre Herlin, Antonio Gamino, Célio Martin, Elisa Liu e a Heloisa. Nós fizemos um grupo de trabalho que posteriormente serviram para as normas da ISO. Então, todo esse pessoal trabalhou comigo e foram muito importantes para a troca de experiência e conhecimento. Sempre estivemos muito alinhados, nossa ideia era a mesma e éramos e somos ainda uma equipe muito homogênea  nesta parte de normatização. Em especial quando se trata da Norma ISO. O setor da indústria farmacêutica requer normas, mas que são globais, ou seja, os procedimentos são padrão no mundo todo, principalmente visando a exportação, por isso, a observância dos critérios, onde você classifica o ambiente e posteriormente valida o processo. Aqui o Brasil, por exemplo, a Anvisa é que libera ou não esses ambientes de acordo com o critério dos mesmos. Sempre lembro das reuniões da ABNT onde dizíamos o seguinte: Chama-se normalizar que é para se tornar normal, ou seja, é normal que seja assim!”.

Apesar de toda a vitalidade de Eliane, ela hoje está aposentada e aproveita com seu marido para fazer uma das coisas que mais gosta, viajar!

“Eu e meu marido combinamos que quando ele se aposentasse, eu também iria me aposentar, e assim aconteceu. Outra coisa foi que nesses anos muita coisa mudou. Antigamente, eu fazia o meu trabalho de medição de sala de verificação de filtros etc, durante a semana, de segunda a sexta-feira. Nos últimos anos, ninguém mais quer parar, porque parar significa não faturar. Então, a manutenção era a noite e finais de semana, e como minha empresa era eu mesma, eu não queria ter funcionários, eu comecei a não gostar desses horários e dias, mesmo porque era o momento com minha família, e isso ajudou a decidir por me aposentar.  Por 20 anos fui a delegada brasileira nas reuniões internacionais da ISO, e também trabalhei na norma de classificação trabalhei, então me propus o seguinte, vou continuar trabalhando na SBCC e nos grupos de trabalho até essa segunda revisão da Norma ISO para Sala limpa, que provavelmente sairá até o final do ano. Aí sim paro totalmente!”.

Só nos resta conferir se em 2016, Eliane, com tanta vitalidade, conseguirá parar! 

Ana Paula Basile Pinheiro <anapaula@nteditorial.com.br>

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