Construção
Comissionamento e o desempenho das edificações
Processo deveria ser contratado no anteprojeto
postado em: 16/07/2015 11:41 h atualizado em: 22/07/2015 11:31 h

De acordo com Fábio Luis Leite Neves, diretor comercial da Anthares, o anteprojeto é que determina o conceito que será aplicado para cada necessidade (seja ela de conforto, processo ou utilidade) e nele estarão descritos todos os cálculos aplicados (dispostos em forma de memorial).

“Se o anteprojeto contiver um erro de cálculo ou de conceito, o projeto executivo herdará esse erro e comprometerá a eficiência da instalação e até sua operação. O comissionamento na fase do projeto é utilizado para que prováveis problemas sejam identificados e corrigidos antes do início da instalação e, quando mal executado, tem reflexo no desempenho e operação do sistema, ou seja, em um momento tardio. Outros exemplos que caracterizam o comissionamento mal executado são os procedimentos de ensaios adotados e a documentação gerada. Os procedimentos dos ensaios devem estar bem consolidados, serem robustos e baseados em estudos/pesquisas. Se os procedimentos não estiverem bem consolidados, podem resultar em falsos positivos na hora da execução dos ensaios, comprometendo o desempenho da instalação e sua operação. Já a documentação colhida e gerada durante o processo de comissionamento (hard copy, procedimentos, desenhos, data sheets etc.), deve ser organizada e consolidada de forma que qualquer informação sobre o projeto/instalação seja encontrada. É muito comum encontrarmos instalações cujos ensaios foram executados com procedimentos equivocados, bem como books de comissionamento pobres e incompletos. Hoje em dia, uma pessoa que adquiriu um pouco de experiência prática compra um balometer e se considera apto a executar um comissionamento, esquecendo-se completamente de que existe uma parte intelectual envolvida (parte essa que é desenvolvida com anos de estudo e pesquisa)”, explica Neves.

Mauricio Salomão Rodrigues, diretor da Somar Engenharia, complementa que em função das atuais exigências documentais sobre a necessidade de execução do comissionamento e da falta de maturidade do mercado, em alguns casos a execução do comissionamento é apenas para cumprir um protocolo ou um check list. O que caracteriza o comissionamento mal executado em algumas fases de um projeto são demonstrados na Tabela 1.

Marcos Antonio Vargas Pereira, diretor técnico comercial da Térmica Brasil, acrescenta ainda que a má execução depende muito do escopo do comissionamento, pois, em função da extensão do serviço, estas características podem ser muito amplas. “Por exemplo, se a contratação se dá antes da concepção do projeto e o comissionador não se atenta a dados conceptivos e operacionais e o projeto nasce com problemas, no momento de posta em marcha da operação os problemas aparecerão e as consequências são graves. Outro exemplo é caso do comissionador que não se atenta para as características operacionais do equipamento selecionado e o mesmo não atende as premissas do cliente. Ou, ainda, na programação do sistema de automação, que pode ser executada de forma equivocada e não atender as premissas iniciais”, explica Pereira.

Agente comissionador deve atentar para as características operacionais do equipamento selecionado

O desempenho é citado também por Marcos Torres Boragini, diretor técnico B2e Engenharia: “O comissionamento mal executado é caracterizado quando o resultado geral de desempenho do edifício não é atingido, sendo uma surpresa para a equipe envolvida. Quando o comissionamento tem início junto com o projeto, aumentam as chances de identificar divergências entre projeto e execução possibilitando a correção. O comissionamento mal executado é aquele contratado no fim da obra, como se fosse um serviço de aceite de obra; o comissionamento é um serviço multidisciplinar muito mais abrangente do que o aceite da obra”.

Eficiência operacional da edificação

Em função da escassez de recursos naturais e humanos torna-se necessária a utilização de tecnologias modernas que visam a redução da utilização destes recursos, o que implica em sistemas cada vez mais complexos.

“A complexidade impacta diretamente em equipamentos e sistemas integrados que devem ser pensados para trabalhar assim desde a sua concepção. Isto implica diretamente em aumento do numero de variáveis a serem observadas, para controle e operação o que significa um controle e automação também complexos. Para operar sistemas complexos é necessário um recurso humano mais qualificado, caso contrário é impossível obter-se eficiência operacional. Como qualificar pessoas para operar sistemas complexos sem que a instalação tenha passado por um processo de comissionamento adequado? Cada instalação pode ser comparada com uma roupa feita por um alfaiate para um cliente específico. Cada instalação é única, para aquele prédio ou para aquela fábrica. Assim, os componentes de uma instalação afetam diretamente o resultado final do sistema e, por consequência, a sua eficiência operacional. Imagine o caso hipotético de uma instalação de alta confiabilidade (regime de operação contínuo com paradas semestrais para manutenção preventiva, 24 horas x 7 dias). Esta instalação possui chillers de eficiência comprovadamente alta, e baixo consumo de energia, instalados em um sistema onde os ventiladores das AHUs  apresentam problemas de vibração persistentes que implicam em paradas necessárias a cada dois meses para substituição de rolamentos. Adicionalmente temos dutos com alto nível de vazamento. Tanto a eficiência energética como a operacional estão afetadas por componentes de qualidade incompatível com os Requisitos do Proprietário, podendo colocar em risco a rentabilidade do negócio e inviabilizar sua operação. Pode parecer absurdo, mas é muito comum termos componentes com qualidade incompatível com os Requisitos do Proprietário em nossas instalações”, enfatiza Rodrigues.

Complexidade não é sinônimo de funcionalidade, diz Neves. Muitas vezes, um sistema complexo mal empregado acaba tornando deficiente o desempenho, operação e funcionalidade de uma instalação/edificação. Por outro lado, muitas vezes garante as condições necessárias que um processo exige, como, por exemplo, uma planta de biocontenção. Quando aplicado para um processo exigente, vem acompanhado na maioria das vezes de um sistema de automação também complexo que acaba exigindo procedimentos de ensaios mais complexos e que vai abrangendo todas as etapas, criando um efeito cascata. Quando bem projetado, instalado e ajustado, garante a qualidade e proteção para um processo exigente. Quando mal aplicado, pode comprometer todo um processo, bem como sua operação e manutenção.

“Os itens que compõem um sistema são de suma importância para o bom funcionamento do mesmo. Quando não possuem uma boa qualidade, podem sofrer danos prematuros, causar problemas crônicos ao sistema, comprometer a operação e causar prejuízos ao processo. Já para a atividade de comissionamento, a qualidade dos componentes terá impacto direto nos resultados dos ensaios aplicados, o que pode comprometer e até condenar uma instalação. Mas tão importante quanto a qualidade dos componentes, é a presença de componentes cruciais para um bom funcionamento e ajuste da instalação. Muitas vezes, com o intuito de baratear o projeto, o empreendedor, além de optar pelo mais barato com qualidade reduzida, acaba eliminando do projeto componentes importantes para um bom ajuste da instalação, como, por exemplo, válvulas balanceadoras no sistema de geração e distribuição de água gelada. A falta de certos componentes pode dificultar ou até mesmo impossibilitar o ajuste da instalação, que consequentemente compromete o resultado do comissionamento”, informa o diretor da Anthares.

Vargas aponta a falta de comunicação entre as áreas: “Se não houver uma comunicação entre os programadores da automação e os projetistas e instaladores das utilidades, muitas das soluções concebidas no projeto não serão implantadas no formato mais adequado e, ainda que o sistema permita uma otimização da operação, estas não serão implementadas e a possibilidade de racionalizar o consumo energético será desperdiçada. Quando o projeto é concebido para atender uma eficiência pré-determinada e, por exemplo, passou por um estudo de simulação energética, toda a instalação está dimensionada para uma determinada eficiência e operação, se os componentes não atendem aos pré-requisitos desta concepção certamente a eficiência global estará comprometida”.

Boragini acrescenta que, em busca da maior eficiência das instalações, todos os sistemas prediais têm se modernizado e agregado tecnologia aos sistemas elétricos e mecânicos, além da complexidade natural dos sistemas que vem evoluindo, os automatizados geram um complicador para a operação e, geralmente, o comissionamento dos sistemas de automação é deixado por último e tratado com menor importância, mas cumpre um papel fundamental para o desempenho do sistema.

Produtos e sistemas na contribuição para o bom comissionamento

Cristiano Brasil, coordenador de aplicação da Midea Carrier, diz que o comissionamento é uma atividade de vital importância realizada por agentes devidamente credenciados para esse tipo de trabalho. Ele garante que os equipamentos sejam submetidos às mesmas condições definidas durante a etapa de projeto, dimensionados e testados na fábrica.

“Nossos produtos são testados em laboratórios para comprovação de performance e certificados por entidades independentes como a AHRI (Air-Conditioning, Heating and Refrigeration Institute), por exemplo. Isso garante que, em condições reais de campo, os equipamentos forneçam a eficiência energética esperada pelo cliente. A falta do devido comissionamento pode ocasionar prejuízos ao cliente caso os equipamentos não estejam operando nas condições definidas durante a etapa de projeto”, explica Brasil.

Matt Chmielewski, líder de aplicações e consultor da Trane, acrescenta que o comissionamento confirma que a instalação e operação de sistemas do edifício atingem os requisitos do projeto, como pretende o proprietário do edifício e como projetado pelos arquitetos e engenheiros de construção. “As soluções da Trane contribuem para o comissionamento desde a concepção do projeto e ao longo da vida do edifício. As ferramentas de projeto e o conhecimento em edificações permitem que os designers possam identificar soluções de baixo custo logo na primeira etapa do projeto. O software TRACE 700 facilita a análise da construção de estratégias de projeto e operação, permitindo que a equipe de projeto possa tomar decisões de investimento sobre todos os componentes de construção que impactam no custo operacional. Criar uma simulação de energia requer que a equipe de design defina claramente o uso esperado e construção do edifício. Isso ajudará a eliminar as ambiguidades que impedem a construção de alcançar níveis de desempenho ideais. Um registro do uso esperado do edifício é valioso para o processo de comissionamento, pois facilita ajustes no funcionamento do prédio se o uso real edifício desvia de previsões iniciais”, informa.

“A atividade do comissionamento consiste na aplicação de um conjunto de técnicas e procedimentos de engenharia para verificar, inspecionar e testar cada componente físico assim como os sistemas em geral do empreendimento, como diversos tipos de instalações: elétrica, hidráulica, AVAC, automação, entre outros. Faz parte do comissionamento o processo de TAB (Teste, Ajuste e Balanceamento), assim como a emissão de relatórios técnicos e gerenciais. Para a realização de todas as atividades, acima descritas, a Honeywell possui produtos e soluções, como sensores, válvulas, atuadores e medidores, hardwares para automação e softwares de gerenciamento que, Associados, contribuem para o gerenciamento preciso e automatizado dos sistemas como um todo, facilitando a operação e manutenções corretivas, preventivas e atualmente preditivas”, informa Igor O Nakamura, gerente geral da Honeywell do Brasil.

Componentes para um bom ajuste como as válvulas balanceadoras no sistema de geração e distribuição de água gelada

Amanda Noberto, engenheira de produto da ebm-papst, cita a unificação de todos os benefícios e mudança de paradigmas existentes sobre a tecnologia eletrônica de sistemas de ventilação, uma vez que a denominada “tecnologia GreenTech  EC é utilizada em diversas aplicações, trazendo benefícios aos usuários e aos sistemas que a integram como um todo, entre eles, a eficiência energética e o baixo nível de ruído, características indispensáveis em um sistema predial de edificação. Esta tecnologia proporciona o controle de velocidade e baixo nível de ruído mencionado. Além disso, garantimos um menor consumo de energia em média 30% a menos e máximo 60% menos energia consumida para o sistema como um todo. Possui alta confiabilidade devido um menor números de componentes e praticidade na instalação “plug and play”, aproveitando espaços na instalação e possuindo fácil manuseio”, finaliza Amanda.

Ana Paula Basile Pinheiro  <anapaula@nteditorial.com.br>

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