Perfil
Um apaixonado pela inovação
Perfil de João Carlos Bidegain Schmitt
postado em: 22/07/2015 14:22 h atualizado em: 22/07/2015 16:02 h
João Carlos Bidegain Schmitt
(crédito: Divulgação)

Nascido em 26 de abril de 1933, na cidade de Uruguaiana, interior do Rio Grande do Sul, João Carlos Bidegain Schmitt é filho de um engenheiro e de uma dona de casa. Trilhando os caminhos do pai, formou-se engenheiro mecânico eletricista na UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No 3° ano de engenharia foi apresentado aos sistemas de ar condicionado e nunca mais se afastou. Logo que terminou os estudos, em 1956, foi convidado pelo seu professor, Hermann Bojunga, a trabalhar na Bojunga Dias (em Porto Alegre), empresa instaladora de eletricidade, hidráulica e ar condicionado, uma representante da Ceibrasil, fundada em 1934 e a primeira empresa brasileira no setor de ar condicionado, cuja sede era no Rio de Janeiro. "Fui para a então capital federal fazer um estágio, aprender a calcular cargas térmicas, calcular dutos, selecionar equipamentos, entre outras coisas. Fiquei um mês, Lembro-me bem, era o auge do cinema no Brasil, dos musicais americanos... O treinamento no Rio de Janeiro foi projetar uma instalação do Cinema São João que só executamos mais de dez anos depois! Fiz instalações em cinemas, como o Imperial, o Guarani  Roxy, etc", diz.

É nítido, em Schmitt, a paixão pela sua profissão. Percebe-se, ao longo de sua trajetória, que muitos obstáculos apareceram, muitos projetos conseguiram sair do papel e indecifráveis questões foram resolvidas. Sempre questionador, focado e interessado, não admitia deixar o problema sem solução. Foram inúmeros os projetos que criou e instalou. 

Vida Profissional

Ficou na lendária Bojunga Dias entre 1957 e 1974, quando a Ceibrasil foi vendida para a Carrier. De 1974 a 1984 trabalhou na Recrusul em novas instalações em Sapucaia do Sul, RS – Fundada em 1954, em Marcelino Ramos (RS) a Refrigeração Cruzeiro do Sul, fazia refrigeração para caminhões, e as carrocerias isotérmicas, seu principal cliente: a SADIA  localizada na vizinha cidade de Concórdia (SC). "Nessa empresa acabei fazendo os primeiros aparelhos de ar condicionado com isolamento térmico em poliuretano. Os compradores eram clientes RECRUSUL de todo o país ", diz. "Em 1959 fui convidado pelo Prof° Catedrático, o engenheiro Ennio Cruz da Costa, para lecionar no curso de engenharia mecânica da UFRGS, na cadeira de Física Industrial. As matérias eram: termodinâmica, mecânica dos fluídos, combustão e tiragem, ciclos das máquinas térmicas, transmissão do calor, trocadores de calor, refrigeração, ventilação e ar condicionado. Conteúdo depois desdobrado em disciplinas em 1972. Lecionei até 1976", explica. Segundo Schmitt, enquanto deu aulas, passaram por ele muitas pessoas interessantes, que hoje são renomados profissionais que trabalham com ar condicionado. “Um dos meus alunos foi entrevistado por vocês (13ª Edição/2015), o engenheiro Giovanni Sarti. Todo o aperfeiçoamento que tive foi na época que lecionava. Não existiam mestrado ou doutorado, mas estava focado na evolução e fui fazer programação Fortran. Em 1976, me mudei para o Rio de Janeiro (RJ) por seis meses, pois a Recrusul forneceu cabines de radiocomunicação para o exército. Tecnologia de micro-ondas que no futuro viria a ser o celular. Nessa época, atendia as obras da Nestlé em São Bernardo do Campo (SP) e no Rio de Janeiro (RJ). Tinha muito trabalho. Fazia a ponte área e estava mais próximo de grandes clientes", comenta.

Em janeiro de 1984 saiu da Recrusul e foi para a Carrier. Na década de 1990 decidiu trabalhar apenas com consultoria, na qual se mantém há 25 anos, sempre muito requisitado. 

Projetos

Um dos primeiros trabalhos realizados pelo engenheiro foi em 1958, na capital gaúcha, onde foi erguido o primeiro edifício residencial de apartamentos com ar-condicionado (aparelhos com condensação a água e aquecimento por água quente de caldeira central). O edifício Santa Tecla possuía 23 andares e 45 apartamentos. Os aparelhos instalados eram da marca Worthington.

Outro trabalho que Schmitt lembra com carinho foi a instalação de um sistema de ar condicionado num apartamento. Colocaram 24 kW de aquecimento para uma máquina de 5 TR. O apartamento possuía uma enorme fachada para o lado sul, e, segundo ele, houve a primeira reclamação: "o apartamento estava muito frio e o aparelho não esquentava o suficiente"; a segunda reclamação aconteceu quando o proprietário viu a conta de luz. "Resolvi tomar uma atitude. Mandei um telegrama para o Rio de Janeiro (RJ) explicando tudo o que estava acontecendo. Responderam que não sabiam fazer calefação e pediram para fazer o que estava ao meu alcance. Falei que teríamos que fazer uma bomba de calor e me responderam que não teria problema, e me mandariam as peças e os tubos aletados", diz. Segundo Schmitt, na época, a Ceibrasil, demorava na entrega dos equipamentos vendidos. “Era uma oportunidade para agilizar. Começamos a fazer esses equipamentos aqui em Porto Alegre (RS)", diz o engenheiro. Foi nessa ocasião que começou a se interessar por dimensionamento de equipamentos como self contained e unidades com condensação a ar.

O engenheiro comenta que as unidades de condensação a ar, nesse período, não eram muito usuais em grandes potências, e cita, como exemplo, o Banco do Estado da Guanabara, localizado na cidade do Rio de Janeiro. Nessa época, faltava muita água na cidade e o banco, devido ao problema, fez toda a instalação com condensação a ar. Eram máquinas importadas, e, segundo ele, mesmo assim tiveram problemas de retenção de líquido. "Era preciso sub-resfriar, não tinha como drenar o condensador e manter ele eficiente", diz. Mas, em 1973, na feira da ASHRAE, em Chicago (EUA), Schmitt participou de várias palestras e reuniões sobre bombas de calor. "Percebi que muitos dos problemas que tivemos eu tinha resolvido, outros não, mas que foram discutidos nessas reuniões. Foi muito útil. Eu comecei a gostar muito de instalações com bombas de calor", ressalta.

Com Hani Kleber, presidenta da Asbrav, onde tem participação ativa

Aplicações especiais e desafiadoras

A partir de 1990, Schmitt, com a climatização, de um parceiro refrigerista, começou a fazer máquinas para calçados, refrigeração das fôrmas de calçados e conformação de solados de tênis. Era uma matriz com mais de 50 kg. Ele conseguiu reduzir para 35 kg, diminuindo assim o consumo de energia.

"No Rio Grande do Sul, principalmente na zona da serra gaúcha, durante o inverno, o ar esfria em torno de 0ºC, às vezes abaixo, e a umidade é de 100% e, para ajudar, nem neve cai. Essa é a pior condição para as bombas de calor. Baixando um pouco a temperatura já acumula gelo. Em 1995, consegui fazer um projeto que fosse eficiente nessas condições. A crise do calçado estava começando, como não íamos mais produzir máquinas para esse setor, resolvemos fazer bombas de calor para piscina. Fizemos uma muito simples e eficiente, que é, ainda hoje, a única que trabalha com temperatura variando entre 0ºC e -6ºC, sem problemas de degelo e manutenção. A maioria dos clubes de Porto Alegre (RS) possui essa bomba. Depois pediram bombas de calor para aquecer água para os vestiários (queriam desligar as caldeiras), O primeiro grande clube que utilizou esse sistema foi o Clube Caixeiros Viajantes, com uma piscina coberta e outra descoberta, onde treina atletas o ano inteiro”, comenta.

 O último clube que projetou usando esse sistema foi o Clube União, na capital gaúcha. É uma piscina olímpica descoberta (50x25m) que usa doze bombas. Quando vimos, estávamos fazendo instalações no PR e SP. Outro projeto muito interessante foi o de equipamentos para choperia. O objetivo desse projeto era vender instalações de controle de pasteurização, conservação de chopp, transportar e servir chope gelado. Máquinas importadas resfriavam o chopp na tubulação imersa em água gelada, através de outra serpentina, onde passava o freon. “Mas o brasileiro gosta de chopp praticamente a 0ºC, então começamos a fazer uma chopeira de alta eficiência. Enfiávamos, em uma mangueira plástica, 1, 2 e 3 tipos de chopp, e os tubos com freon recirculando água/álcool. Passamos a distribuir chopp a -2ºC. As chopeiras foram vendidas em várias partes do Brasil, diz, inclusive, para o bar do Romário e do Zico.... Nem todas as invenções chegaram no momento certo. Realizamos dois protótipos de resfriadores de leite de 300 e 500 litros apresentados na Expointer com tanque acumulador de frio, permitindo sustentar a temperatura por algumas horas no caso de falta de energia e rápido resfriamento. Duas mangueiras ligavam a unidade de refrigeração aos tanques, permitindo a sua fácil retirada para conserto pelas cooperativas sem precisar ir até a fazenda com equipamentos e peças. Foram vendidos para a Elegê, uma empresa da região e a qualidade do leite surpreendeu, mas não houve acordo comercial”, conta. 

No clube, momento de lazer com os amigos

No começo da década de 1960, Schmitt teve a ideia de fazer uma bomba de calor com válvula de expansão, uma válvula apenas, medindo a pressão e a temperatura na sucção do compressor. Foram feitas muitas instalações do tipo.

Na Recrusul, a experiência em ar condicionado serviu para fazer câmaras frigoríficas especiais como o projeto para a Proagro Pioner, uma empresa de seleção de espécies agrícolas; nesse caso, sementes de milho, num ciclo de cinco anos. Era uma câmara de que precisava manter uma temperatura de 10ºC e com 50% de umidade. Somente assim seria possível cruzar as sementes de safras diferentes. Essa instalação foi pioneira. Além dessa instalação, fez para a mesma empresa uma câmara igual em Itumbiara (GO) e outra menor em Londrina (PR).

Outro projeto realizado foi na cidade de Pelotas (RS). A Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - "Uma câmara para 10ºC com 30% de umidade numa cidade de umidade elevada. Visitei esta instalação em 2006. Estava desativada e queriam fazer uma reinstalação. Minha atividade é projetar, dimensionar, não faço instalação. Tomando conhecimento das instalações da PROAGRO, em Santa Cruz do Sul (RS), a Cia de Cigarros Souza Cruz comprou duas câmaras frigoríficas de 10ºC uma com 30% de umidade e outra com 40% para testes de conservação do fumo a granel. Tinha como finalidade estender a vida da folha já que a produção é extremamente sazonal. Essas instalações possuíam evaporador, condensador a ar no lado de fora e condensador adicional para fazer o reaquecimento do lado interno, mantendo a temperatura, e a refrigeração para secar o ar. Eram instalações protótipos, que foram aprovadas na qualidade e extensão no período de conservação. Saí da Recrusul antes de aprovarem o projeto industrial, mas sei que foi construído", diz.

Com Francisco Dantas: dois extremos do país compartilhando o gosto pela engenharia

Ainda na Recrusul projetei para a Phillips do Brasil, câmaras similares às da Philips na Holanda (em aço inoxidável) para testes de qualidade de televisores. Os aparelhos eram fabricados em São Paulo (SP) e exportados para toda a América Latina, Chile e Argentina. Esses equipamentos eram levados em porões de aviões, chegando a -50ºC. Na descarga, as placas eletrônicas geladas, condensavam a umidade do ar, causando defeitos. Essas câmaras foram feitas em Guarulhos (SP), São José dos Campos (SP). Na década de 1990, quando começou a fazer consultoria, dimensionou as tubulações de água sob pressão e alta temperatura para um Projeto da Kepler Weber S.A de Panambi (RS) para uma instalação de maturação de cevada, em Santiago, no Chile;  Para a ZIEMANN-LIESS, hoje HOLSTEIN KAPPER fabricante de equipamentos para cervejaria forneceu programas para cálculo de lavadores de garrafas, pasteurizadores de cerveja e trocadores de calor para engarrafamento de refrigerantes carbonatados.   

O gosto por ensinar não obscurece o prazer da atualização 

Engenheiros em família

Foi morar na capital gaúcha com três anos de idade e se considera portoalegrense. Seu avô paterno, de origem alemã, tinha uma casa de negócios (armazém) na cidade de Alegrete (RS), o seu avô materno, de origem espanhola, nasceu em Durazno, no Uruguai, e tinha padaria em Uruguaiana, também no Rio Grande do Sul. É viúvo e tem dois filhos: um engenheiro e o outro músico. É, ainda, avô de três meninas que seguem os passos do bisavô e do avô. Uma já é engenheira formada, a outra cursa engenharia de produção e a caçula, tem apenas três meses de vida. Em seu tempo livre gosta de viajar para a praia ou para a serra. "Construí uma Motor Home em cima de uma Kombi. Quando sobrava um tempinho viajávamos todos com ela. Fiz isso durante dez anos. Aliei, também, essas viagens com o trabalho, sempre que visitava o litoral catarinense", diz. Faz sentido.

Por Ana Paula Basile Pinheiro <anapaula@nteditorial.com.br> e

Charles Godini <charles@nteditorial.com.br>

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