Construção
Cerca de 50% da energia é consumida pelos sistemas prediais
Medidas de eficiência poderiam reduzir o consumo em 30%
postado em: 23/07/2015 12:08 h atualizado em: 28/07/2015 11:14 h

Segundo fontes da Eletrosul, o Brasil é o quarto maior produtor de energia renovável do mundo. Considerando apenas a matriz elétrica, o Brasil é disparado o país com maior participação das renováveis: 79,3%, enquanto a média mundial é pouco superior a 20%, segundo os últimos dados disponíveis que são de 2013 e 2011, respectivamente. Especialistas falam nesta edição da Revista Sistemas Prediais o que é necessário para que o Brasil possa trilhar um caminho sustentável, ajudando, assim, a melhorar sua matriz energética.

Para o superintendente de Pesquisa e Desenvolvimento e Eficiência Energética da ANEEL, Máximo Luiz Pompermayer, os sistemas prediais são responsáveis por cerca de 50% de todo o consumo de energia elétrica no Brasil e apresentam baixos índices de eficiência energética. "Se forem adotadas medidas de eficiência energética, que vão desde os materiais utilizados, passando pelo projeto executivo da construção, até os hábitos de uso final da eletricidade, estudos indicam que é possível reduzir cerca de 30% do consumo de energia elétrica nas edificações existentes e até 50% em novas edificações", explica o superintendente da ANEEL. Ele relata que é muito comum a existência de ambientes domésticos ou corporativos em que há uma combinação de fatores que levam a baixos índices de eficiência energética. Um exemplo típico é o uso desnecessário de ar condicionado e iluminação elétrica em ambientes e períodos do dia em que há abundância de luz solar e uma temperatura agradável. Como não há circulação de ar nem incidência de luz natural no ambiente, ligam-se as luzes e o ar condicionado durante todo o expediente. Muitas vezes, até haveria claridade natural no ambiente, mas é necessário bloquear a incidência de luz solar para evitar o calor provocado pelo sol. "Isso é feito por meio de persianas internas e materiais inadequados que bloqueiam a claridade natural, mas não a incidência de calor. Como resultado, tem-se um ambiente escuro e quente, que requer iluminação elétrica e ar condicionado. Isso dá uma ideia razoável do tamanho do desperdício de energia e do potencial de melhoria da eficiência energética de nossas edificações", ressalta Pompermayer.

FIGURA 1: Porcentagem do uso de energias renováveis no Brasil

No Brasil, segundo o engenheiro Rafael Fernandes, gerente de Energia - Barragens, Hidrelétricas e Eólicas da MC-Bauchemie, as fontes de energias renováveis contribuem de maneira competitiva e sustentável para o desenvolvimento do setor elétrico. "Recentemente, a fonte eólica cresceu de maneira exponencial e, atualmente, contribui com 5% da matriz, com capacidade instalada de mais de 6 GW (conforme figura 1). Ainda há um significativo potencial energético a ser explorado e as fontes de energias renováveis complementares (eólica, solar, biomassa e PCHs - Pequenas Centrais Hidrelétricas) podem contribuir, e muito, para o SIN - Sistema Interligado Nacional e para a população brasileira com o fornecimento de uma energia competitiva, limpa e renovável", diz Fernandes.

Edifício Energia Zero

Um prédio eficiente chama-se Edifício Energia Zero, ou seja, totalmente independente da rede elétrica, autossuficiente na produção de energia. O PROCEL - Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica, coordenado pela Eletrobras, estabelece algumas premissas para atingir essa eficiência. Uma vertente desse programa atua especificamente com edificações. "Quando se busca a eficiência no consumo de energia de uma edificação, leva-se em conta a envoltória, os sistemas de climatização e a conservação de energia, que envolve toda a parte elétrica e o uso de equipamentos que tenham a etiqueta A em conservação. Na parte de produção, a edificação deve dispor de sistema de geração, como o fotovoltaico, combinado com outro sistema, como o de célula de hidrogênio, por exemplo, que garanta autonomia na geração de energia nos períodos em que não há radiação solar", explica Jorge Luis Alves, gerente da Assessoria de Pesquisa e Desenvolvimento da Eletrosul.

Jorge Luis Alves, gerente de Assessoria de Pesquisa e Desenvolvimento da Eletrosul

Segundo José Carlos Felamingo, sócio-diretor da Union Rhac, o compromisso com a eficiência energética deveria estar sempre pautado no início de um projeto. Assim, o proprietário do empreendimento definiria inicialmente os níveis de energia que servirão de base para todos os envolvidos no projeto, ou seja, o arquiteto e todos os engenheiros. Independente da busca ou não de uma certificação. "A obtenção de bons resultados acontece quando o consultor de energia é convidado a participar na data 'zero' do projeto, antes mesmo da concepção arquitetônica. Essa fase é preponderante para um planejamento eficiente. O acompanhamento da etapa de implantação física das utilidades, o comissionamento, os testes iniciais etc., são igualmente importantes", explica Felamingo.

Para a analista de infraestrutura da Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Alexandra Albuquerque Maciel, o projeto deve respeitar os condicionantes climáticos do entorno para um melhor aproveitamento da iluminação natural e dos ventos, e fazer o correto sombreamento das fachadas. Dessa forma, estará demandando menos dos sistemas de iluminação e ar condicionado. "O período de utilização do edifício é crucial para o desempenho energético do mesmo, por isso, a gestão energética da edificação é primordial. A gestão envolve o monitoramento do desempenho dos sistemas através de sistema de medição por uso final e, não menos importante, o investimento na capacitação e sensibilização dos usuários em relação à melhor forma de utilização do edifício", explica Alexandra.

O ar condicionado é o grande consumidor de energia numa edificação. Neste sentido, o engenheiro Francisco Dantas, diretor da Interplan Planejamento Térmico Integrado, sustenta que a primeira coisa a ser feita no planejamento de um edifício é procurar dotá-lo de cargas que, de acordo com a 2ª Lei da Termodinâmica, requisitem a menor qualidade possível de energia. Mesmo que, de acordo com a 1ª Lei da Termodinâmica, não seja a menor quantidade. "É preferível optar pelo consumo de energia de qualidade inferior, mesmo não sendo a menor quantidade, do que fazer o que é comum no Brasil, onde um edifício recebe como única fonte a energia elétrica e, a partir daí, busca-se artifícios e esforços no sentido de melhorar a eficiência do uso dessa energia", diz Dantas.

O diretor da Interplan explica que, por exemplo, ao usar uma máquina por absorção para climatizar um edifício, será consumida a energia térmica equivalente a cinco vezes o que se gasta em energia elétrica. Para produzir energia elétrica, a partir da irradiação solar, é usado um painel fotovoltaico. Usando os coletores solares planos, os mais simples e mais baratos, com essa energia térmica é possível fazer a refrigeração a partir de equipamentos por absorção ou adsorção. "Deve-se sempre priorizar a produção da refrigeração a partir da energia obtida por processo térmico e nunca, ou só em casos excepcionais, por energia gerada através de processo fotovoltaico”, comenta Dantas.

Num exemplo hipotético, Dantas coloca uma instalação usando uma máquina de refrigeração por compressão mecânica, onde, o COP - Coeficiente de Performance definido pelo Ciclo de Carnot -, "após colocar todas as máquinas e os satélites (bombas, torres de resfriamento, etc.) digamos, seja 5. É termodinâmico. Se usarmos uma máquina por absorção, estaremos usando a energia térmica, o calor para produzir o frio. Esse COP, que é térmico, em uma máquina de simples efeito, é mais ou menos 0,7. Isso significa que, se usarmos a máquina por compressão mecânica iremos usar de 5 a 7 vezes menos a quantidade de energia. Mas, o processo de captação é muito mais barato e não envolve a transformação de uma forma de energia em outra. É por isso que o conveniente é usar uma energia de menor qualidade. Por exemplo: com água a 82°C você faz a refrigeração por absorção, no entanto a refrigeração por compressão mecânica é feita apenas com eletricidade ou com energia mecânica que possui o coeficiente de qualidade em 100%, o outro pode ter 15%. Isso já está bom! Por quê? Por que você usa de 5 a 7 vezes mais? Porque é uma energia em que a qualidade é de 5 a 7 vezes menor. A termodinâmica não engana ninguém. Engana-se quem não a conhece e pretende aplicá-la por intuição. Projetar a edificação de tal maneira que, dentro do possível, se use energia da menor qualidade possível. Isso é a mesma coisa que dizer: conceito de baixa exergia no resfriamento e aquecimento das edificações, que é a mesma coisa que dizer: altas temperaturas de resfriamento e baixas temperaturas de aquecimento. Amplia-se muito a possibilidade de usufruir de free cooling e free heating e majora-se, bastante, a eficiência dos ciclos por processos artificiais. Por isso, para obter uma produção eficiente, primeiro precisa preparar o consumo para que dê condições para isso. Preparar o edifício para que ele possa, além de ser eficiente do ponto de vista energético, ser eficiente do ponto de vista exergético. Significa usar energia de valor exergético tão baixo, quanto possível", explica.

A ASHRAE tem desenvolvido o projeto Net Zero Buildings, edifícios que usam de 50% a 70% menos energia, comparado com os convencionais. O uso de energia restante provém de fontes renováveis como painéis solares ou turbinas eólicas incorporadas na própria instalação, visando o balanço zero de energia. Para que isso possa ser possível, segundo Edison Tito Guimarães, diretor da Datum Consultoria e Projetos, é necessário ter altíssima eficiência no consumo e ter sistemas de geração própria que consigam produzir toda a energia utilizada. "O Brasil ainda está longe da meta do edifício de balanço zero de energia, porém, os avanços conseguidos são expressivos. Temos que pensar em soluções alternativas realmente diferentes, como, por exemplo, o uso da água do mar e o emprego de geotermia. Infelizmente, nossos 'camaradas' do meio ambiente ainda não captaram a importância disso tudo. Os sistemas com uso de água do mar encontram grande resistência dos órgãos ambientais", explica Tito.  

Integrar e otimizar as fontes de consumo

Como um edifício poderia integrar e otimizar as diversas fontes de consumo? Para o sócio-diretor da Petinelli Inc., Guido Petinelli, as tecnologias para que isso aconteça já existem. "Quando chegamos a reduções de consumo de até 60%, através da integração de sistemas, o investimento em geração começa a se tornar viável, mesmo se o período de retorno desses sistemas ainda se mantenha acima de seis anos.  Por isso que eficiência energética e geração local de energia renovável estão absolutamente interligadas. Para viabilizarmos edifícios autossuficientes precisamos primeiro reduzir ao máximo o consumo, para depois pensarmos em geração. Para reduzir o consumo é preciso repensar como projetamos, buscando maior integração entre sistemas. Isso já se faz. É, basicamente, a proposta de Green Building, trazer um novo olhar ao modo que concebemos edificações", diz Petinelli.

Para o diretor da Union Rhac é necessário experiência, pois deve-se observar a viabilidade de aproveitamento quando se olha para o rejeito de energia de cada sistema e cita, como exemplo, o aquecimento da água para banho. "Uma vez utilizada possui energia suficiente para pré-aquecer a água limpa que vai ser utilizada em outros banhos, diminuindo assim a energia necessária nos aquecedores. No entanto, após o banho, essa água (e parte da energia utilizada no seu aquecimento) vai para o ralo, literalmente. Embora seja tecnicamente possível a recuperação desse calor (energia), muitas vezes sua implantação não se efetiva, por não ser viável do ponto de vista econômico, ficando de fora do plano global de eficiência, dando-se preferência a outros itens mais atrativos do ponto de vista financeiro. Por terem retorno em longo prazo são retirados do conjunto de medidas a serem implementados.  Se houvesse consciência ecológica eles seriam incluídos nos itens de implantação do pacote de eficiência energética.  A justificativa para esses casos deveria ocorrer sob um novo referencial, que poderíamos chamar de 'eco eficiência', ou seja, a economia de energia existe, porém, o retorno do investimento se justificaria pelo puro e simples benefício ao ecossistema e não pelo apelo econômico", diz Felamingo. O diretor da Datum explica essa questão por outro prisma. Os sistemas de ar condicionado e iluminação devem ser eficientes e operar em conjunto com os equipamentos de escritório, também de alto desempenho. É uma combinação de diversas estratégias e que devem incluir, também, a construção com proteções passivas (vidros especiais, isolamentos térmicos etc.) e ativas. "Discute-se bastante, hoje em dia, usar os vidros das fachadas para captação de energia solar fotovoltaica, sem perturbar a visibilidade", diz Tito.

Edson Tito Guimarães, diretor da Datum Consultoria e Projetos

"A primeira coisa que temos que pensar é na envoltória e nas transparências. É preciso ter parcimônia no dimensionamento dessas superfícies transparentes e, em segundo lugar, utilizar materiais que sejam energeticamente eficientes", comenta Dantas. Isso significa, através das transparências, deixar transmitir o máximo possível de energia visível, que são os raios de onda com comprimento de 0,38 a 0,78 micron, e serem eficientes para rejeitar a passagem dos raios de longo comprimento de onda, de 0,78 até 2,1 micra (comprimentos de raios infravermelhos da irradiação solar). Todos eles possuem como meta reduzir em 98%, aproximadamente, a transmissão de raio de micro comprimento de onda, os raios ultravioletas que ficam abaixo de 0,38 micron, onde começa o comprimento de onda dos raios de transmissão de luz visível.

O sócio-diretor da Petinelli Inc. relaciona a iluminação ao ar condicionado. Para ele, o consumo de energia por um sistema de iluminação é determinado pela sua potência e número de horas de operação. Um sistema eficiente fornece a quantidade necessária de luz com a menor potência possível. Uma luminária led é mais eficiente quando produz mais luz (lumens) por potência (Watts) do que uma luminária convencional. Mas a cor do ambiente afeta o aproveitamento da luz. Um ambiente mais escuro precisa de mais luminárias (lumens) para assegurar o nível de iluminância adequado. "Para reduzir o consumo de energia de um sistema de iluminação é possível: (1) investir em luminárias com maior lumens/Watt ou (2) utilizar revestimentos de piso, teto e parede Em tons claros, que, consequentemente, reduzem o número de luminárias necessárias para obter o mesmo nível de iluminância desejado. Ao reduzir a potência do sistema de iluminação, reduzimos também a carga térmica do ambiente. Junto com a luz, a luminária emite calor. Quanto menor a potência do sistema, menor a quantidade de calor emitido, consequentemente, menor o tamanho e consumo do sistema de ar condicionado. Portanto, para reduzir o consumo de energia pelo sistema de ar condicionado, basta reduzir a potência do sistema de iluminação. Uma medida simples e barata para reduzir a potência do sistema de iluminação é utilizar revestimentos internos de cores claras. Isso é Green Building. Enxergar todos esses links.  Um edifício ideal integra todos esses sistemas de modo a otimizar as oportunidades de redução de consumo. Isso significa olhar além do potencial de redução individual de cada sistema e enxergar as ligações entre eles. Fazendo isso, é possível reduzir o consumo em até 70%", diz Petinelli.

Petinelli cita dois exemplos muito interessantes de edifícios que tiveram uma redução, significativa, no custo de energia. O primeiro é um edifício comercial corporativo de 14 andares e com área construída de aproximadamente 16.000 m². O edifício é autossuficiente em água. O esgoto gerado é 100% tratado (águas cinzas e negras) e reaproveitado para vasos, limpeza e paisagismo. Para que isso fosse realizado, utilizaram um sistema chamado Constructed Wetlands, conhecido como Zona de Raízes. São 400 m² de telhado verde que exercem dupla função. Uma lâmina d’água de 20cm abaixo do telhado verde possibilita as raízes das plantas tratarem a água. O tratamento principal é feito através de uma composteira de 8 m3. "Foi possível viabilizar o sistema porque buscamos sinergias, utilizar o telhado para contenção de cheias, tratamento de esgoto, impermeabilização e isolamento térmico, e, claro, o bônus de um telhado verde", explica Petinelli.

O segundo exemplo é um pequeno prédio administrativo térreo para uma montadora de veículos na região de Curitiba (PR). Melhorando o desempenho da envoltória, reduzindo drasticamente a densidade de potência de iluminação e trabalhando com sistemas de climatização eficientes, foi possível reduzir o consumo do edifício em 60%. Painéis fotovoltaicos no telhado atendem 100% da demanda de energia. O custo adicional da obra foi de apenas 6%. Segundo Petinelli, por um investimento adicional mínimo foi possível zerar a conta de luz pelos próximos 20 anos.

Para o engenheiro elétrico e diretor executivo da SunVolt, Henrique Almeida, atualmente é possível implementar grande parte dos recursos citados acima para uma edificação ideal, porém, em um grau menor de controle e aproveitamento energético em relação ao que seria num cenário ideal. Mas, com o avanço de novas tecnologias este controle e equipamentos eficientes tendem a se aproximar desse cenário. "É possível, por exemplo, conceber um projeto construtivo que aproveite as brisas e evite a radiação solar excessiva, que obtenha a luz natural com o dimensionamento correto de aberturas. Além do uso de paredes, revestimentos, vidros duplos ou polarizados e coberturas que isolem o ambiente. A implantação de telhados verdes também proporciona eficiência no isolamento térmico, já que impede a incidência direta dos raios de sol. Árvores no entorno da edificação também desempenham essa função", explica Almeida.

Dantas explica que, depois da envoltória, o segundo ponto importante para integrar e otimizar um edifício é cuidar da eficiência dessas superfícies transparentes. Em terceiro, o dimensionamento compatível com a quantidade de lumens que precisa ter no ambiente. Em quarto, promover dentro desse ambiente a possibilidade de distribuição da iluminação natural, às vezes fazendo até duto de transmissão luminosa. Em relação ao ar condicionado, utilizar o desacoplamento total entre cargas, de forma que possam trabalhar com altas temperaturas de resfriamento, no caso das vigas frias, frio radiante, paredes, tetos e pisos radiantes. O rejeito das máquinas por absorção poderá produzir água quente sanitária. "As máquinas por absorção possuem uma capacidade muito maior de emissão de calor, quase o dobro das outras, que trabalham com COP 5, ou seja, no condensador você tem 100% da potência de refrigeração e mais 20% relativo ao trabalho mecânico, como rejeição de calor; nas outras, de simples efeito, com um coeficiente 0,7, possui 100% e mais 140% de calor injetado, uma quantidade de calor muito grande, inclusive no nível de temperatura compatível com o que se precisa para o aquecimento de água, pelo menos para banho. Isso repousa no conceito básico de que, para você ter mais fontes naturais, principalmente para o ar condicionado, é necessário adotar o processo de acumulação de energia. Nos sistemas de ar condicionado solar, a energia disponível para a geração de energia térmica e para propulsão das máquinas por absorção, vai das 7h00 às 17h00. Então é preciso considerar que haverá uso durante a noite, fazendo-se necessário projetar uma potência suplementar cuja energia deverá ser acumulada para fazer frente aos períodos que não houver sol", explica Dantas.

Francisco Dantas, diretor da Interplan

Maior viabilidade de geração distribuída

As opiniões, em relação às fontes de produção de energia distribuída e que apresentam maior viabilidade neste momento, são muito divergentes. Para Felamingo, as fontes mais viáveis são aquelas que possuem um custo próximo do zero, como, por exemplo, a eólica, a fotovoltaica e a biomassa. "Embora o preço do energético seja importante, o custo de implantação da solução escolhida tem, também, fator preponderante, assim, a eólica e fotovoltaica possui alto custo de implantação, quando comparadas com a biomassa (podemos incluir aqui o gás natural), com custos menores de implantação (R$/kW instalado). Outro quesito que impacta na escolha dessas formas de energia (eólica e fotovoltaica) é a disponibilidade, ou seja, não podemos contar com elas o tempo todo. Soma-se aí, também, a característica própria de cada uma quanto a instalação, que normalmente requer, em ambos os casos, maior área quando comparada pelo índice kW/m² (energia produzida pela área utilizada na instalação) frente às soluções de biomassa e de gás natural", diz Felamingo.

Cada fonte de energia tem suas características próprias, seja na captação, no índice de disponibilidade e na transformação em energia utilizável, como, por exemplo, a eólica. Pode-se obter energia dela durante 24 horas, porém, nem sempre próxima ao consumo; a fotovoltaica algumas horas do dia, podendo ser captada junto ao local de consumo. Segundo o diretor da Union Rhac, elas não podem ser encaradas como fornecimento firme, quando comparadas, por exemplo, ao gás natural ou à biomassa. "Com certeza a mais fácil e viável no momento é o gás natural, que está pronto e disponível imediatamente. Os problemas neste caso são as visões míopes do Governo/Petrobras quanto ao custo e incentivos a esta importante solução energética. Para um edifício, as soluções com energia eólica, até o momento, são apenas fantasiosas, com alguns prédios no exterior tentando incluir estranhos aerogeradores no conjunto arquitetônico, uma missão quase impossível. As alternativas com células fotovoltaicas são perfeitamente possíveis. Começaram a ser implantadas (fachadas e telhas como geradoras de energia elétrica), porém, o custo ainda é alto. Devido à complexa operação logística e de manutenção, não vejo a biomassa como solução em prédio. Esta alternativa estaria mais apropriada para indústrias", explica Felamingo.

Para Petinelli, essa questão depende muito da região e da condição do entorno: "Estamos observando a energia renovável ganhar espaço, pois o custo unitário desses sistemas tem caído, enquanto a capacidade de geração (eficiência dos painéis), aumentado. Ainda assim, são necessárias condições específicas para viabilizar esse tipo de tecnologia". Para ele, a eólica tem sido pouco utilizada no país e a fotovoltaica vem ganhando espaço e avanços tecnológicos importantes. "Estamos empolgados com os próximos doze meses, tanto no que diz respeito à redução de custo desses sistemas, quanto as mudanças no ambiente regulatório e de financiamento no Brasil", relata Petinelli.

Para o executivo da SunVolt, cada fonte pode ser mais ou menos viável, dependendo das características de construção e do local onde se encontra a edificação. Almeida acredita que a solução ideal é trabalhar com mais de uma fonte, podendo gerar energia de forma complementar. "Podemos citar como exemplo regiões de grande potencial de ventos e raios solares, como no interior do Nordeste (Brasil). Os ventos têm incidência maior à noite, quando não há sol. Sendo assim, uma fonte complementa a outra. Da mesma forma, onde houver disponibilidade de biomassa ou gás natural, estas podem sempre atuar como complementos em sistemas solares ou eólicos, para os horários ou dias em que houver escassez de sol ou ventos", explica o engenheiro elétrico.

O gás natural, segundo Jayme Buarque de Hollanda, do INEE - Instituto Nacional de Eficiência Energética, apresenta o maior potencial devido à maior possibilidade de contribuir para a geração distribuída, pois a cogeração permite utilizá-lo com maior eficiência, produzindo eletricidade e calor/frio. Essa utilização depende da disponibilidade de suprimento local, ou seja, de rede de dutos ou entrega segura de GLP - Gás Liquefeito de Petróleo. Para Hollanda é uma visão em curto prazo, pois a energia solar (térmica e fotovoltaica) poderá ter papel mais relevante e, sobretudo, porque se trata de energia de origem fóssil, cuja queima produz gases de efeito estufa. "O emprego desses combustíveis poderá, em poucos anos, sofrer restrições, sobretudo por taxas que aumentem o custo de sua aquisição. Nesse caso, o uso de biomassa, se disponível localmente e, sobretudo, da energia fotovoltaica, se tornarão ainda mais competitivos", diz Hollanda.

Geração distribuída

A Resolução Normativa 482, de 17 de abril de 2012, da ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica, concebeu e estabeleceu o acesso à microgeração e minigeração distribuída, ou seja, se o usuário gerar energia em sua residência, ele poderá, através dessa resolução, fornecer o excedente da energia gerada para a operadora. Essa energia excedente e, que foi injetada na rede, é revertida em créditos para a unidade geradora (consumidor) e, no momento que a unidade não estiver gerando energia suficiente, esta pode ser suprida pela energia da rede. Mas, para que isso aconteça, Alexandra, do Ministério do Meio Ambiente, ressalta: "São necessários medidores 'inteligentes', onde o relógio gira ao contrário no momento em que a unidade estiver injetando energia na rede. Os medidores, geralmente, são fornecidos pela distribuidora local". Para mais detalhes sobre essa resolução, acesse: www.aneel.gov.br/cedoc/ren2012482.pdf.

Especialistas dizem que é viável a implantação de um sistema de geração distribuída num condomínio e concordam que é necessária uma mudança na Resolução 482/2012. A ANEEL estuda, a partir do ano que vem, quando será publicada uma revisão dessa Resolução, incentivar a microgeração em condomínios, possibilitando que seja implementada em um único projeto, geração para a área comum e para os condôminos, que poderão compartilhar os créditos obtidos na geração do condomínio. "Isso se dará através da permissão da compensação de energia na conta de luz entre unidades consumidoras pertencentes a um mesmo condomínio, mesmo que os consumidores tenham CPF/CNPJ distintos. Esta e outras melhorias, que devem ocorrer na nova revisão da Resolução da ANEEL, passarão ainda por consulta pública e todos os trâmites até ser publicada em 2016. Torcemos para que essa alteração na Resolução se concretize", enfatiza Almeida.

Para o vice-presidente do SindusCon-SP, Francisco Vasconcellos, é preciso realizar vários ajustes na legislação vigente, nos impostos incidentes na energia gerada pelos microgeradores, nas formas de medição e balanço entre a energia gerada e a energia consumida por estes microgerados. Para ele são inúmeros os obstáculos que precisam ser removidos, e, para que isso possa ocorrer, é necessário haver vontade política.

"Estamos trabalhando em projetos para viabilizar a geração local de energia renovável nas áreas comuns. Para um empreendimento residencial de 23 andares e aproximadamente 20.000 m² (projeto em andamento na capital paranaense) avaliamos ser necessário um investimento de R$ 900.000 para abastecer 100% da demanda das áreas comuns. O desafio é a falta de área disponível no telhado. A potência de geração de energia renovável cai drasticamente quando utilizamos painéis fotovoltaicos nas fachadas. Mesmo assim, estamos falando de um investimento adicional (custo de obra) de menos de 1% para zerar o consumo de energia de todas as áreas comuns. Pode não ser viável ainda, mas estamos rapidamente chegando lá", avalia Petinelli, com uma visão diferente dos demais. 

O sócio da Petinelli Inc. comenta ser muito mais fácil a implantação de um sistema de geração distribuída numa residência unifamiliar. "São dois os fatores que tornam esse tipo de aplicação mais viável: 1) Disponibilidade de área de cobertura para instalação dos painéis em relação à área total construída e o consumo de energia associado. 2) Tipicamente maior custo de energia (R$/kWh).  Acredito que, em doze meses, chegaremos a cenários com períodos de retorno inferior a cinco anos. Isso, obviamente, só começa a acontecer agora, devido aos recentes ajustes no custo da energia por todo o país", diz Petinelli.

Para Almeida, além de ser viável, pode ser considerado um investimento rentável. "Após o período de retorno do investimento, atualmente entre 6 e 9 anos, de acordo com a região e valor da tarifa paga pelo consumidor, como a vida útil do sistema ultrapassa 25 anos, o consumidor passa a lucrar com a economia de energia por quase 20 anos", ressalta o engenheiro. Com o aumento das tarifas de energia elétrica ocorridas desde o final de 2014 e novas isenções que estão sendo concedidas aos poucos por governos municipais, estaduais e federal, a geração distribuída tem se tornado cada vez mais atrativa financeiramente. "Neste cenário, além do payback do sistema ser reduzido ainda mais no futuro, a geração distribuída com o sistema de compensação permite, a quem investe no sistema, 'blindar-se' dos aumentos tarifários, pois a geração de energia pode ser totalmente própria, pagando-se apenas uma tarifa mínima correspondente ao custo de disponibilidade da distribuidora", diz Almeida.

Por Charles Godini <charles@nteditorial.com.br>

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