Energia
Micro geração e leilões direcionados impulsionam renováveis
Cresce o espaço de fotovoltaica, eólica e biomassa na matriz energética
postado em: 23/07/2015 16:30 h atualizado em: 28/07/2015 11:17 h

O uso de fontes alternativas, além de gerar benefícios para o meio ambiente, contribui para o aumento da capacidade energética de forma sustentável. No Brasil a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) tem realizado leilões específicos para ampliar o fornecimento a partir das fontes eólica e fotovoltaica, assim como incentivado a biomassa. A Revista Sistemas Prediais faz, a seguir, um apanhado das fontes disponíveis no país.

Células fotovoltaicas

A energia fotovoltaica é obtida a partir da conversão direta da radiação solar em eletricidade. É uma fonte de energia limpa e gratuita. Os painéis fotovoltaicos, responsáveis pela captação e transformação da luz solar em energia, são feitas de “fatias” superfinas de silício, o segundo componente mais abundante da Terra, sendo que o Brasil possui uma das maiores reservas de silício do mundo. A eletricidade produzida nas células vai para um inversor, deixando com as mesmas características da rede elétrica. Quando esse sistema é instalado em edificações, essa eletricidade pode ser usada em equipamentos elétricos e eletrônicos, e iluminação.

O superintendente de Pesquisa e Desenvolvimento e Eficiência Energética da ANEEL, Máximo Luiz Pompermayer, comenta que "o primeiro leilão de energia solar no Brasil, realizado em outubro de 2014, deu um bom sinal do potencial dessa fonte/tecnologia. A quantidade contratada (mais de mil megawatts de potência instalada) e o preço médio praticado (cerca de 215 reais o megawatt-hora) foram melhores do que o esperado pelo governo e pela maioria dos analistas de mercado. Seu potencial energético é ainda maior, melhor distribuído do que o da energia eólica e há mais opções tecnológicas e flexibilidade em relação ao tamanho da planta, localização e arranjo técnico e comercial. Vai desde películas que podem ser utilizadas em dispositivos fixos ou móveis (como janelas, fachadas, veículos e aparelhos de celular) até painéis e arranjos mais sofisticados, com plantas de maior porte. Além das células convencionais de silício, cuja eficiência e preço tem melhorado significativamente, há uma expectativa muito boa em relação a células produzidas por materiais orgânicos. Além de serem ainda mais flexíveis em termos de instalação, são mais sustentáveis, tendo em vista a sua origem renovável e seu menor impacto ambiental".

De acordo com a ANEEL, em março de 2015 havia apenas 500 instalações homologadas. Porém, apesar de ainda não ter alcançado o nível que se espera, o crescimento no último ano foi bastante significativo. De março de 2014 a março de 2015, o crescimento foi de mais de 300%. "Nos últimos vinte anos, o custo da eletricidade fotovoltaica vem diminuindo gradativamente e, atualmente, já é competitiva com a eletricidade convencional, principalmente onde é possível a implantação da geração distribuída, uma vez que os sistemas podem ser implementados sem o uso de baterias, um item de custo ainda muito elevado", explica o engenheiro Elétrico e diretor Executivo da SunVolt, Henrique Almeida.

Para Alexandre Vieira de Freitas, diretor Técnico da EAS Soluções Integradas, na última década houve uma queda significativa no preço dos módulos fotovoltaicos em todo o mundo, originada pelo avanço tecnológico, pelo aumento da produção em larga escala e pela demanda por soluções de energia limpa por países como Alemanha, Japão, Espanha, Itália e EUA. "No Brasil, grande parte das soluções de energia fotovoltaica ainda se referem ao abastecimento de residências ou processos instalados em locais remotos, desprovidos da rede pública de energia, os chamados sistemas 'off grid'; contudo, ao meu ver, são dois os pontos divisores de águas para o crescimento da energia fotovoltaica em nosso país: A Resolução 482 da ANEEL, que possibilitou a micro e minigeração de energia por parte de todos os clientes conectados à rede pública; e o  1º leilão de energia fotovoltaica ocorrido em outubro de 2014, quando foram contratados 890MW de capacidade instalada a um preço médio de R$ 215,12 o Mwh. O sucesso desse leilão originou a elaboração de mais 2 novos leilões para 2015, os quais deverão ocorrer em agosto e novembro deste mesmo ano", explica Freitas. 

Alexandre Vieira de Freitas, diretor Técnico da EAS Soluções Integradas

A única limitação, segundo Almeida, é que esse sistema requer uma área considerável para a instalação das células. Muitas vezes, a área útil para instalação pode não ser suficiente para suprir a maior parte do consumo do edifício. "Pode ser contornada com integração dos módulos fotovoltaicos à arquitetura do edifício, técnica chamada de 'BIPV – Building Integrated Photovoltaics'. Os módulos podem substituir fachadas de vidro, funcionar como breezes ou servir como coberturas em estacionamentos e varandas. Novas gerações de células fotovoltaicas têm obtido um aumento crescente da eficiência de geração por área ocupada. Sendo assim, o problema da área ocupada tende a ser minimizado no futuro", comenta Almeida.

As vantagens e os benefícios com o uso dessa fonte são inúmeras. Redução de gastos com energia; geração de energia usando uma fonte 100% renovável e limpa; balanceamento da carga na rede, evitando sobrecargas nos aparelhos elétricos; compensação energética junto à concessionária de energia, para os sistemas conectados à rede; soluções conectadas à rede não precisam de baterias de chumbo ácido, reduzindo o impacto do descarte destes componentes ao final da sua vida útil; devido aos avanços tecnológicos o custo de manutenção e operação do sistema é muito baixo e não produz resíduos relativos a intervenções até o final da sua vida útil; o seu uso em lugares de difícil acesso, pois não requer grandes investimentos em linhas de transmissão; esse sistema, normalmente, é instalado nos telhados (residências, comércios e indústrias), assim, não há necessidade de alocar grandes extensões de terra para gerar energia, como no caso das hidrelétricas, usinas nucleares e termelétricas; zero emissão de CO2 e demais gases poluentes durante a produção energética; entre outras. Segundo a Solaris Brazil, edifícios com tecnologia fotovoltaica geram mais eletricidade nos momentos de maior demanda no Brasil, pois usa-se, por exemplo, muito ar condicionado, justamente quando há mais sol. Pela sua grande modularidade os painéis podem ser instalados rapidamente, aumentando a geração em uma mesma área.

Para Freitas, em um projeto de células fotovoltaicas, o que deve ser levado em consideração, em primeiro lugar, é a necessidade de entender qual o tipo de sistema deverá ser aplicado. Ele cita dois: sistema autônomo e sistema conectado à rede (on grid).

O sistema autônomo (off grid) é, geralmente, aplicado para fornecimento de energia à processos ou edificações desconectadas da rede pública. Para dimensionamento desta solução é preciso levar em consideração: consumo médio diário de energia em kWh; tempo de autonomia requerido para o sistema; tipo do telhado e estrutura de suporte do mesmo; irradiação do local a ser instalado; área disponível para instalação dos módulos fotovoltaicos, bem como inclinação ideal em virtude da latitude; orientação geográfica da área disponível para a instalação do arranjo fotovoltaico (conjunto de módulos fotovoltaicos), preferencialmente voltado ao norte geográfico ou com desvio azimutal de no máximo 40° em relação ao norte; observar se não existem obstáculos entre o norte geográfico e o arranjo, que acarretem sombreamento no arranjo fotovoltaico.

Já os sistemas conectados à rede (on grid), são soluções conectadas à rede publica de energia que, no Brasil, foram regulamentadas a partir da Resolução 482 da ANEEL, a qual permite ao proprietário do sistema compensar o consumo energético de sua residência ou empresa pela energia produzida pelo sistema fotovoltaico. Para dimensionamento dessa solução é preciso levar em consideração os seguintes pontos: consumo médio mensal de energia durante um ano; tensão nominal da rede (127/220V) e tipo de conexão (monofásico, bifásico e trifásico); tipo do telhado e estrutura de suporte do mesmo; irradiação do local a ser instalado; área disponível para instalação dos módulos fotovoltaicos, bem como inclinação ideal em virtude da latitude; orientação geográfica da área disponível para instalação do arranjo fotovoltaico (conjunto de módulos fotovoltaicos), preferencialmente voltado ao norte geográfico ou com desvio azimutal de no máximo 40° em relação ao norte; observar se não existem obstáculos entre o norte geográfico e o arranjo, que acarretem sombreamento no arranjo fotovoltaico.

Diogo Zaverucha, sócio da SolarGrid, explica que é importante levar em consideração a qualidade dos equipamentos que serão usados, principalmente dos módulos e inversores, mas enfatiza que o principal é o dimensionamento e posicionamento dos módulos. "Um projeto mal feito pode causar uma perda de eficiência de mais de 50% na geração de energia", diz Zaverucha.

Diogo Zaverucha, sócio da SolarGrid

O tempo de vida útil de um sistema de células fotovoltaicas, segundo os especialistas, é de 25 anos. "Um sistema é feito para funcionar 25 anos, com no mínimo 80% de eficiência. Hoje, existem sistemas que foram instalados há mais de 30 anos e ainda produzem energia, porém com uma eficiência menor", esclarece Zaverucha. O tempo de retorno do investimento, segundo Freitas, varia em função do porte do sistema e das tarifas da concessionária local, no entanto, a maior parte das soluções tem uma expectativa de payback entre 5 e 10 anos, contabilizando os custos do fornecimento, projeto e instalação do sistema. "Vale salientar que, ao analisar somente o sistema, o payback é uma variável muito subjetiva, pois depende do aumento tarifário de energia que, infelizmente no Brasil, não é tão previsível quanto em outros países. Na aquisição de um sistema fotovoltaico, deveremos levar em conta, também, outros aspectos, como a produção de energia limpa, o aproveitamento da alta disponibilidade solar, a eficiência energética e a contribuição ao meio ambiente", explica Freitas.

Eólica

É uma energia limpa, renovável e competitiva. Em lugares onde o vento é abundante e a eletricidade é cara, a energia eólica é, com certeza, imprescindível. Um único gerador produz 1,67 Mwh de energia, suficiente para atender até nove mil pessoas com consumo moderado. "Hoje, a fonte eólica ocupa um lugar expressivo, com mais de seis mil megawatts de potência instalada, o que representa cerca de 4,4% de todo o parque de geração de eletricidade do país. São 272 empreendimentos em operação, 108 em construção e mais 332 outorgados pela ANEEL e previstos para os próximos anos. Em relação à energia gerada e à comercialização, os preços tem sido bastante atrativos nos leilões realizados. Trata-se, portanto, de uma fonte competitiva e muito promissora. O potencial eólico brasileiro, embora concentrado em regiões específicas do país, notadamente no litoral, é muito expressivo (o comprovado é de 140 GW, mas estudos indicam que pode chegar a 250 GW)", explica o superintendente da ANEEL. Apesar dos pontos positivos, existe um grande problema. A dependência tecnológica é, ainda, considerável. Grande parte dos componentes utilizados num sistema eólico, incluindo a construção, a conexão à rede de transmissão ou distribuição e sua operação, são produzidos e, principalmente, desenvolvidos no exterior. Isso significa que não aproveitamos bem o potencial dessa fonte em termos de desenvolvimento tecnológico, produção industrial e de capacitação profissional. Há, portanto, um desafio e uma lacuna a ser preenchida nessas áreas, o que é, também, uma oportunidade.

Para Almeida, a disponibilidade de ventos que possibilitem uma geração contínua de energia depende muito da região geográfica onde será instalada. Algumas regiões do Brasil são mais favoráveis para esta fonte, como no caso do cinturão de vento no Nordeste (do Ceará ao norte de Minas). Em outras regiões, como a região Sudeste, ele acredita que não há favorecimento para esta tecnologia. Um sistema conversor de energia eólica em energia elétrica é denominado aerogerador ou turbina eólica. Existem vários modelos, porém, o mais usual é composto por três pás acopladas em um eixo horizontal. O vento passa através das pás e, nelas, a energia dos ventos é convertida em energia mecânica rotacional. O eixo gira, e acoplado a este eixo há um gerador elétrico que converte a energia mecânica em elétrica. As turbinas, normalmente instaladas em torres, também podem ser colocadas no topo de edifícios, segundo Almeida. O engenheiro Rafael Fernandes, gerente de Energia - Barragens, Hidrelétricas e Eólicas da MC-Bauchemie, explica que o Sistema Elétrico Nacional é composto por algumas instituições governamentais que têm a responsabilidade de regulamentar a oferta e comercialização de energia elétrica, gerenciar a operacionalização do sistema e promover os leilões regulados de energia para a aquisição de energia e ainda gerenciar os contratos advindos destas compras.

Rafael Fernandes, gerente de Energia – Barragens, Hidrelétricas e Eólicas da MC-Bauchemie

A Prof. Dra. do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétrica da Escola Politécnica da USP - Universidade de São Paulo, Eliane Aparecida Faria Amaral Fadigas, explica que, para saber quanto de energia se pode gerar com uma determinada turbina eólica em um determinado local é necessário conhecer a curva de potência da turbina (potência elétrica x velocidade do vento) e a velocidade dos ventos e sua distribuição ao longo do período de análise. Sobre a geração de algumas usinas conectadas ao SIN - Sistema Interligado Nacional, é possível ter acesso a esta geração consultando o site (www.ons.org.br) do ONS - Operador Nacional do Sistema, por meio do Boletim Diário de Operação divulgado por esta instituição.

"Uma vantagem essencial da fonte eólica é o aproveitamento do efeito da complementariedade entre os recursos vento e água no Brasil. O período em que chove pouco é o mesmo período em que há os melhores ventos para a geração de eletricidade. Deste modo, é possível afirmar que a fonte eólica contribui para o armazenamento de água nas hidrelétricas. Essa característica é imprescindível, atualmente, diante da atual crise hídrica que compromete especialmente os estados do Sudeste, com o fornecimento de água para o consumo e para a geração de eletricidade", exemplifica Fernandes. Para Eliane, além de uma fonte limpa e renovável, devido às aplicações em grande escala no Brasil, o preço tem diminuído, aumentando sua viabilidade econômica frente aos outros tipos de fontes geradoras de energia elétrica "em aplicações de pequena escala, o preço  da energia gerada por uma fonte eólica ainda é considerado elevado no Brasil", diz a professora.

A fonte eólica não emite gases de efeito estufa durante o processo de operação e possui baixo potencial de impacto ambiental, pois o uso e ocupação do solo são pontuais e relativos apenas à fundação das torres eólicas. Segundo o engenheiro da MC-Bauchemie, entre 3% e 5% da área arrendada é usada para o desenvolvimento efetivo da usina, e por este motivo não há necessidade de desmatar uma grande área. Os impactos na fauna também são reduzidos se comparados aos impactos efetivos e potenciais de usinas de geração de outras fontes de energia. Para Fernandes, a única desvantagem da energia eólica é que a mesma não é constante. No caso de instalações conectadas à rede, a natureza intermitente do vento não é um problema, pois a rede fornece energia quando o vento não está disponível.

Para o desenvolvimento de um projeto eólico, a primeira tarefa é realizar o estudo sistemático do recurso eólico na região onde se pretende instalar o projeto. Geralmente, realiza-se esta medição por três anos e desenvolve-se o layout do parque a partir das informações deste mapeamento inicial. "Para que seja possível projetar uma usina economicamente e ambientalmente viável, o empreendedor deve considerar também as características ambientais da região, como topografia, acessos e presença de comunidades tradicionais nas proximidades", explica o engenheiro Fernandes. Eliane acrescenta que a disponibilidade, preço, eficiência, garantia das turbinas eólica, disponibilidade de área e obtenção das licenças ambientais e demais licenças, é de fundamental importância na hora de realizar um projeto. Ela comenta, também, que os melhores potenciais de vento estão localizados no litoral do Nordeste, entre a Paraíba e o Maranhão; região mais central da Bahia; região Sul, em Santa Catarina; e litoral do Rio Grande do Sul.

Fernandes concorda com Eliane sobre as regiões Nordeste e Sul, serem viáveis para a implantação de fontes eólicas. "O potencial eólico brasileiro é um dos melhores do mundo, uma vez que temos ventos fortes, unidirecionais, com velocidades adequadas e sem rajadas. Os parques eólicos instalados no Brasil têm fatores de capacidade que rondam os 50%. Os maiores fatores de capacidade nos países Europeus são em torno de 35%", esclarece.

Em relação ao retorno de investimento, Eliane diz que "esse payback depende do custo de instalação, que varia em função da tecnologia, área onde vai ser instalada a turbina, potencial eólico e fator de capacidade da planta. Para aplicações em grande escala já é viável economicamente".

Biomassa

Biomassa é todo o recurso renovável que provêm de matéria orgânica, tanto de origem animal como vegetal, tendo por objetivo principal a produção de energia. Existem diversos caminhos para a biomassa energética, com extensa variedade de fontes, como resíduos agrícolas, industriais e urbanos, e até as culturas plantadas exclusivamente para a obtenção de biomassa. Entre as biomassas de cultivos agrícolas, além do etanol, propriamente dito, o bagaço e a palha de cana são considerados fontes importantes no contexto da agricultura brasileira, sendo aproveitadas em caldeiras para gerar energia nas usinas, além do excedente energético ter a possibilidade de ser acrescido ao sistema elétrico. Em 2014, foram produzidos, segundo o gerente executivo de Atendimento ao Mercado da CCEE - Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, César Pereira, 20.815 GWh de energia elétrica proveniente da fonte biomassa, 20% a mais do que em 2013. Essa quantidade seria capaz de abastecer 11 milhões de residências; isso é equivalente a 52% da energia que será produzida pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte (Estado do Pará), a partir de 2019. A geração desse tipo de energia está crescendo a cada ano. No ano passado, o montante gerado pelas usinas a biomassa foi recorde, segundo o gerente da CCEE. “Em relação a novos empreendimentos, o que verificamos nos últimos leilões é que outras fontes renováveis vêm se apresentando mais competitivas, como as eólicas e, mais recentemente, as solares. Mesmo assim, somente considerando os dois últimos Leilões de Energia Nova, foram negociados 11 novos empreendimentos que representam uma potência instalada superior a 700MW. Talvez o salto da biomassa tenha dado lugar ao salto da eólica, que pode também dar lugar ao salto da solar, em breve. Mas acredito que o crescimento da biomassa irá permanecer", diz Pereira.

César Pereira, gerente executivo de Atendimento ao Mercado da CCEE - Câmara de Comercialização de Energia Elétrica 

A biomassa tem um importante papel na diversificação da matriz energética. No caso do bagaço de cana, por exemplo, a produção de energia das usinas coincide com o período seco do sistema elétrico. Trata-se de uma fonte renovável e pouco poluente. Além disso, é uma fonte de baixo custo, pois geralmente utiliza materiais que seriam descartados. "Ela é considerada de emissão neutra. Isso significa que as emissões de CO2 geradas pela queima, são compensadas pela absorção do CO2 na produção da própria biomassa. Outra forma de avaliar os benefícios ambientais da biomassa é sua associação à redução no consumo de combustíveis fósseis, como o petróleo e seus derivados, que não são matérias-primas renováveis", explica.

Gás natural (GN)

O gás natural está presente no nosso dia a dia de diversas maneiras, como nas residências, indústrias, comércio, como combustível em veículos, matéria prima para produção de fertilizantes e nas usinas termelétricas. Segundo especialistas, ao redor do mundo essa fonte de energia vem crescendo de maneira significativa. Isso se deve à baixa emissão de resíduos poluentes, quando comparado ao óleo combustível.

O GN, segundo Celestino Boente Garcia, assessor de Tecnologia de Gás Natural da Bahiagás, começou a se desenvolver no Brasil a partir do ano 2000, com exceção dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e do segmento industrial na Bahia. O consumo de GN representava cerca de 1% da matriz energética nacional. Hoje, está em 11%. Na esfera federal a regulamentação do transporte do gás natural só foi implementada em 2009, com a Lei do Gás (Lei 11.909, publicada em 04 de março de 2009), que estabelece as novas regras para a construção dos novos dutos de transporte e o acesso aos dutos existentes. No âmbito estadual, muitos estados ainda não possuem uma regulação dos serviços de gás canalizado consolidada, de forma que a indústria de gás no Brasil precisa contemplar seu crescimento. Mas para que isso aconteça, Boente cita quatro pilares essenciais. "O primeiro pilar deve focar no amadurecimento da regulação, tanto no âmbito federal como dos estados, principalmente buscando a segurança jurídica que garanta o cumprimento das cláusulas dos contratos de longo prazo a serem firmados em todas as etapas da cadeia de produção. Salientamos como de vital importância a independência da ANP - Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis e das agências estaduais de regulação. O segundo pilar deve considerar o GN num papel mais relevante dentro do contexto da política energética nacional, deixando sua oferta de ser subordinada à disponibilidade de energia elétrica de origem hídrica, como atualmente ocorre com a oferta adicional de gás natural para o segmento industrial, que depende da operação das usinas termoelétricas. O terceiro deve contemplar o aumento da oferta do gás convencional e do gás não convencional (gás de folhelho, mais conhecido com gás de xisto), em decorrência do programa de exploração que vise o aumento da produção do gás nacional, item também dependente da política energética. O último é o aporte de tecnologia, inovação para acarretar aumento de produtividade em toda cadeia de produção (do poço até o usuário final). O fortalecimento destes quatro pilares é de fundamental importância para atrair o capital necessário para o desenvolvimento da indústria do GN no Brasil, equilibrando a rentabilidade do capital usado com a modicidade tarifaria exigida pela prestação de um serviço de utilidade pública, como é o caso do serviço de gás canalizado".

GN: Ligação de clientes residenciais no período de 2004 a 2015

Globalmente, o gás natural tem uma participação significativa na matriz energética. Com o surgimento de novas reservas, principalmente o 'shale gás', nos EUA, o GN vem ocupando espaços. "Um caso bastante significativo foi o desastre nuclear de Fukushima, no Japão, que levou ao desligamento do parque gerador nuclear e a rápida substituição pelo GNL - Gás Natural Liquefeito, permitindo a continuidade do fornecimento de energia ao país. Com a crise hídrica vivida pelo Brasil nos últimos dois anos, o mercado foi atendido pelas térmicas a GN, evitando um racionamento e demonstrando que essa fonte é um energético estratégico para o país. Entretanto, especificamente para os segmentos de geração distribuída/cogeração, temos poucos avanços em relação ao potencial do mercado", explica Nelson Rocha, diretor de Tecnologia e Regulação da Cogen - Associação da Indústria de Cogeração de Energia.

Em um projeto com gás natural é preciso, em primeiro lugar, uma análise para saber se existe rede de GN próximo ao empreendimento ou se a companhia de gás natural contempla a expansão da sua rede para aquela região. Em seguida é feito um estudo de viabilidade técnica e econômica, sendo verificado - em função da utilização que será feita pelo usuário - qual a vazão de gás natural que deve ser usada no projeto e à pressão requisitada dos equipamentos que vão utilizar o GN. "A responsabilidade da companhia de gás natural é de construir os dutos de distribuição e o ramal externo de ligação até o conjunto de redução de pressão e controle de medição (CRM), ficando o usuário com a responsabilidade de contratar uma empresa especializada para construir a rede interna até os equipamentos de consumo de gás natural. Salientamos que todo o sistema de gás natural deve ser projetado e construído seguindo, rigorosamente, as normas técnicas existentes. Antes de iniciar o fornecimento, a Bahiagás realiza a inspeção para verificar se o projeto e execução do sistema de gás seguiram as normas, além de exigir e acompanhar um teste de estanqueidade para constatar se existe algum tipo de vazamento. No caso de ser um empreendimento comercial e residencial, é necessário que o usuário possua o Habite-se ou outros tipos de licenças exigidos pelos órgãos municipais e estaduais", esclarece Boente. Para a Cogen, além da escolha da tecnologia adequada, para maximizar a eficiência e minimizar os custos, é necessário cuidar dos riscos econômicos, como, por exemplo, os associados/ligados a variações dos preços do GN e da energia adquirida da rede (custo evitado), assim, o investimento realizado não apresenta um resultado diferente do planejado. As curvas de demanda, diária e sazonal, devem ser cuidadosamente avaliadas para projetar a melhor solução.

GN: Ligação de clientes comerciais no período de 2011 a 2015

Para o representante da Bahiagás, o fomento à instalação de sistemas de cogeração a gás no país depende muito de uma política energética do governo federal, visando criar as condições para implantação, de forma planejada, da chamada geração distribuída para ser aplicada nos segmentos industrial e comercial. "Mas a nossa política energética atual é praticamente voltada ao modelo centralizado da geração de energia elétrica. A chamada geração distribuída, em que se enquadraria a cogeração com gás natural, precisaria de incentivos para viabilizar o seu crescimento", diz Boente. A Resolução 482, criada para a microgeração e minigeração distribuída de energia elétrica, inclui a cogeração qualificada, porém a limitação da potência restringe o acesso para venda do excedente da geração elétrica.

A Figura 01 apresenta uma estrutura simplificada de uma unidade de cogeração comercial. O risco de racionamento fez o governo começar a dar mais atenção à geração distribuída, a exemplo da Portaria 44 do MME - Ministério de Minas e Energia, divulgada em 10 de março deste ano, estabelecendo diretrizes para a compra de excedentes da geração elétrica do sistema distribuído. "Essa Portaria estabelece o prazo para aquisição desses excedentes até 18 de dezembro de 2015, no entanto, espera-se que seja o primeiro passo para inclusão da geração distribuída no contexto da política energética nacional. Por conta das novas usinas hidrelétricas estarem sendo construídas pelo modelo 'fio d’água', com reservatórios pequenos ou até sem eles, fica cada vez mais evidente a necessidade de despacho 100% do tempo das térmicas a gás natural e da implantação de novas unidades de cogeração a GN, de forma que o usuário tenha o incentivo de gerar sua própria energia de maneira eficiente. Para isso, o governo precisa criar programas específicos para a cogeração a gás, como fez com o PROINFA para incentivar a produção de energia elétrica de biomassa, eólica e PCHs - Pequenas Centrais Hidrelétricas", esclarece Boente.

O diretor de Tecnologia e Regulação da Cogen, é contra a utilização de chillers de absorção com queima direta, tendo em vista o alto custo do GN. “A configuração mais competitiva tem sido a que utiliza motores de combustão a gás natural, acoplados a geradores (para energia elétrica) e com gases de exaustão dirigidos a chillers de absorção, que recuperam a energia térmica dos gases e a transformam em energia térmica da água gelada”, diz Rocha.

FIGURA 1:Representa um fluxograma simplificado de uma unidade de cogeração, com aproveitamento do rejeito térmico do motor para geração de água gelada

São inúmeras as vantagens dessa fonte alternativa. São elas: eficiência energética acima de 75%, quando a média das usinas termoelétricas está na faixa de 40%; próximo ao centro de carga, evitando perdas de energia elétrica na transmissão e evitando também investimentos nestes sistemas; permite ao consumidor uma maior segurança energética com duas fontes de suprimento, uma vez que poderá ocorrer backup da concessionária; menor impacto ambiental; redução dos custos operacionais com insumos energéticos; entre outros.

Para Rocha, da Cogen, ainda há diversos entraves em relação ao crescimento dessa fonte alternativa. Segundo ele, o preço aplicado no Brasil é bem maior do que no mercado internacional. Questões regulatórias, tais como o estabelecimento de valores razoáveis para a compra da energia excedente pelas distribuidoras, o chamado VR, também ajudariam a viabilizar os investimentos. "O aumento da produção nacional, com a disponibilização do gás natural produzido pelos campos do pré-sal e também 'convencionais/não-convencionais on-shore', bem como o estabelecimento de um mercado livre para o GN, ajudariam bastante a criação de um mercado mais amplo para este energético", diz Rocha. 

Por Charles Godini <charles@nteditorial.com.br>

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