Ar condicionado
Integração multidisciplinar poupa recursos
A presença de um elemento integrador é fundamental para a qualidade
postado em: 16/10/2015 12:21 h atualizado em: 20/10/2015 09:36 h

A integração de equipes multidisciplinares para a troca de informações viabiliza a elaboração dos projetos de cada especialidade envolvida (espaços físicos, segurança, acessibilidade etc.), com participação desde o início, expondo seus conceitos e necessidades para o arquiteto e o empreendedor. Quando uma especialidade entra tardiamente no processo pode gerar retrabalho nos serviços já executados, causando atrasos de cronograma e prejuízos financeiros.

“Os sistemas de climatização interferem significativamente no conceito do projeto. O partido arquitetônico, que envolve área envidraçada, orientação geográfica e materiais de construção, influi diretamente na carga térmica e capacidade do sistema. Como a maior parte do consumo de energia de um edifício comercial é referente ao sistema de climatização, a disciplina de elétrica é diretamente afetada. Também os espaços físicos para casas de máquinas, prumadas, linha de dutos etc., implicam diretamente nos projetos de arquitetura, civil, elétrica e hidráulica. Um projeto racional e eficiente deve necessariamente contar com toda a equipe desde o início dos trabalhos”, diz Osvaldo Francisco Alves Jr, do DNPC da Abrava e diretor da Masterplan Engenheiros Associados.

A necessidade de integração é um sonho antigo da maioria dos projetistas de ar condicionado, diz Ricardo Gibrail, do DNPC da Abrava e diretor da Air System Engenharia. “Já realizamos no passado apenas dois projetos industriais onde o que ocorreu nestes projetos é o que deveria ser executado em todos os demais, ou seja, planejamento. Os projetos foram desenvolvidos com todos os projetistas envolvidos com reuniões semanais durante um ano, e o projeto foi executado em apenas seis meses. A equipe técnica deve ser montada antes da concepção do projeto. Todos os projetistas envolvidos participam do nascimento do projeto de arquitetura colocando suas necessidades de infraestrutura, onde cada um aponta as necessidades de espaços em entre forro, dimensionais de shafts para as instalações, entre outras necessidades. O que ocorre hoje é que recebemos os projetos de arquitetura e temos de improvisar soluções técnicas que na maioria das vezes não são as melhores alternativas. A falta de integração gera inúmeros prejuízos, entre eles, cito os espaços de entre forros insuficientes para a passagem de tubulações, gerando velocidade excessiva nos dutos, maior consumo de energia com a maior perda de carga, maior nível de ruído nos elementos de difusão, espaços apertados para o retorno de ar, shafts de dimensões reduzidas para eventuais manutenções e na própria execução da montagem, e soluções com baixa eficiência energética”, informa Gibrail.

Ele acredita que na maioria das vezes o erro maior é do próprio cliente, que contrata o arquiteto e somente depois os demais profissionais. Por isso é necessário que os arquitetos mostrem ao cliente contratante a necessidade da montagem da equipe técnica desde o início dos trabalhos. A função destes profissionais pode influenciar na eficiência energética global da instalação, orientando materiais de construção, áreas de vidros, coeficientes de vidro, entre outros pontos que podem reduzir o custo da instalação e melhorar a eficiência energética. “Atualmente estamos estudando um projeto novo junto a um fabricante de vidros, e definimos um tipo de vidro onde a economia no tamanho do ar condicionado implicou numa redução de R$ 1.770.000,00 e o custo da diferença dos vidros em apenas R$ 550.000,00”, exemplifica Gibrail.

Área envidraçada influi diretamente na carga térmica e capacidade do sistema

Se um evento é realizado por um time, seja uma equipe de futebol, ou o governo da república, ou os participantes de projeto de uma edificação, é necessário e indispensável que haja uma integração entre os membros desse time e um líder possuidor de bons conhecimentos das matérias envolvidas. Se o integrador não tem a capacidade de liderança e competência suficientes, o time perderá os jogos, a república fica à deriva e o projeto da edificação é falho e custa caro. “Uma concepção de sucesso em projetos é ter a presença do agente comissionador participando das fases iniciais dos trabalhos, na definição dos requerimentos do empreendedor para o projeto (OPR), e avaliando os documentos básicos do projeto (BOD) elaborados pela equipe. O estabelecimento destes documentos resultará naturalmente na melhora da comunicação entre as partes envolvidas.  Não se está propondo que o comissionador seja o agente de integração, poderia até ser, mas, que execute no mínimo o acompanhamento do trabalho de integração entre as equipes. Na maioria dos projetos não há a presença do agente comissionador e nos poucos projetos restantes (falando de Brasil), nem sempre ele está presente em todas as fases das atividades. Considero que o comissionador estando presente na fase de projeto pode verificar a realização da integração, e não necessariamente ser o integrador”, enfatiza George Raulino, diretor da Estermic Engenharia.

Para ele a real integração e a presença de um experiente elemento integrador é um investimento que proporcionará economia de tempo e de retrabalho. Raulino acredita que é preciso que as equipes conversem, que cedam ao que seja melhor para o projeto e não para o seu projeto. O projetista estrutural talvez não possa usar a solução de menor custo de execução, pois, no processo de integração foi preciso abrir espaços para tubulações e dutos. No projeto de forros, a integração deve ter a participação de todos. Ter somente o seu projetista atuando resultará em inadequadas locações de bocas de ar, luminárias e sprinklers, e este é um exemplo simples, onde a integração é indispensável. “O agente integrador deve determinar os pontos onde será preciso interromper o trabalho de cada parte envolvida para que se faça a integração até aquele momento do projeto. Realizadas as alterações de cada projeto, prossegue-se até o próximo momento de retornar à mesa e fazer novo alinhamento e assim, sucessivamente, até a conclusão do projeto. A presença desde o início do projeto das equipes das várias matérias é indispensável e, particularmente, do projetista de AVAC, pois, este tem necessidades específicas quanto as áreas e volumes na edificação as quais devem ser definidas na concepção inicial do projeto arquitetônico.  É usual quando iniciamos nossa participação em projetos nos ser apresentada uma arquitetura que se mostra totalmente inviável para alojar equipamentos, dutos e tubulações dos sistemas de AVAC. Consequentemente, o projeto de arquitetura deve ser adaptado gerando custos adicionais e os resultados nem sempre permitirão o desenvolvimento adequado do projeto de condicionamento de ar”, diz Raulino.

Na visão da arquiteta Maria Carolina Fujihara, coordenadora técnica do Green Building Council Brasil, em todos os âmbitos do projeto e obra, desde o início até sua conclusão, incluindo integração entre equipes e estratégias, é de extrema importância alinhar as expectativas e tarefas de cada um durante o processo, para que todos tenham o mesmo foco: desenvolver um projeto com alto desempenho. “Estamos falando de pessoas, de profissionais, que muitas vezes não estão acostumados a interagir com outros profissionais, mas que precisam de apenas uma abertura, um diálogo para que possam desenvolver melhor suas aptidões. É muito importante ouvir os outros profissionais e chegar a uma solução em conjunto, para que as sinergias entre as estratégias adotadas sejam positivas, e não anuladas entre si. Os projetos devem ser concebidos e compatibilizados com todos os agentes do processo, para que possa ocorrer interações positivas entre as estratégias escolhidas. Por exemplo: ao projetar um telhado verde, deve-se conversar com o projetista de ar condicionado para entender qual a redução da necessidade de carga no edifício. Deve ser avaliado junto com o paisagista quais serão as espécies a serem plantadas, para que o engenheiro e o arquiteto pensem na melhor estrutura a ser concebida; deve ser tratado com o engenheiro hidráulico as melhores estratégias de captação e armazenamento de água deste telhado, e assim por diante. Tudo isso deve ser discutido em reuniões com todas as equipes envolvidas, pois, uma decisão pode afetar o trabalho de todos. As reuniões devem ser otimizadas e objetivas, para que possam encontrar as melhores soluções, de forma mais ágil possível. Deve haver troca de informações e ideias o tempo todo e as compatibilizações só devem ser feitas depois que as decisões principais forem tomadas. Dentre muitos exemplos, acho que a falta de planejamento sempre causará a elevação dos custos do projeto/obra. Um projeto sustentável possui um tempo de planejamento muito maior do que um projeto comum, e consequentemente, um tempo de obra menor do que um projeto comum. Quando você avalia os riscos previamente e já possui resposta para todos os problemas que podem vir a surgir ao trabalhar de forma integrada, você consegue otimizar tempo e dinheiro, as duas locomotivas principais no mundo atual. Ou seja, perder mais tempo durante o projeto, pode custar muito menos tempo e dinheiro durante uma obra, desde que levantados todos os detalhes e previstas as alterações necessárias”, diz Maria Carolina.

O engenheiro Edimauro Arouca acrescenta que os principais problemas encontrados na falta de integração dos projetos incidem sobre a mão de obra e materiais necessários para corrigir as deficiências, se estendendo, também, a revisão de projetos, recálculos estruturais, cabeamentos, novos arranjos de dutos etc. “Arquitetos e engenheiros deveriam realizar obrigatoriamente reuniões de avaliação crítica antes de se iniciar as montagens, reunindo todas as disciplinas sem exceção e tornar rotina reuniões diárias de produção para alertar possíveis problemas. Na minha ótica, o ponto crítico da importância deste acompanhamento é garantir o máximo conforto aos usuários, geralmente ocupantes de “open spaces”. Sem acompanhamento dedicado, quando os edifícios estão prontos para serem reformados pelos locatários, a regra e conceitos pensados no início do empreendimento são perdidos, resultando inicialmente em criticar o projeto. Acompanhando e fiscalizando ativamente esse problema é resolvido”, informa Arouca.

A simulação térmica das fachadas é abordada por Roberto Montemor Augusto Silva, membro do Comitê Editorial da revista Abrava+CR e diretor da Fundament-AR: “ Assim poderia se construir com materiais mais apropriados, reduzindo o consumo energético do prédio e ajudar também a conceber os espaços necessários para a infraestrutura do ar local para máquinas e equipamentos e altura de entre forros. No caso de pressurização de escadas, na definição conjunta das áreas de shaft, de casa de máquinas e tomadas de ar. Somos chamados às vezes quando já tem projeto de prefeitura aprovado ou, ainda pior, quando se está no projeto básico pronto, onde dificilmente se muda materiais de fachada ou entre forros ou pé direito e somos obrigados a fazer um projeto que não é o melhor, mas o possível. Vamos remendando algo que ainda não este construído. Contratar a equipe logo na fase de estudo e dar voz as especialidades tentando fazer o melhor projeto, racional e sustentável possível, passa por todos os protagonistas e não complementares. Caso contrário, acarreta em prejuízos de custo inicial por usar matérias caros e às vezes ineficientes termicamente.  Custo de energia pelo resto da vida por escolher materiais ruins de fachada e, por causa disso, ter que colocar mais carga instalada do que o devido, e custos de manutenção maiores por colocar máquinas em locais impróprios, por exemplo”, enfatiza Montemor.

Certificações e novas ferramentas

A falta de integração tem interferência nos vários sistemas de certificação e etiquetagem em qualquer obra que busque a sustentabilidade (ambiental, econômica e social) e, principalmente, nos edifícios certificados LEED.

Maria Carolina explica que a certificação LEED, por exemplo, possui um crédito específico que trata de Projeto Integrado para Novas Construções (1 ponto) e para Interiores Comerciais (2 pontos). Já para a nova versão do LEED Healthcare (hospitais e centros de saúde), este item é um pré-requisito, ou seja, obrigatório para que o edifício receba a certificação. Esta é uma questão presente e uma tendência futura, sem dúvida nenhuma. “Acredito que utilizar tecnologia e outras ferramentas ajuda muito no processo. Definitivamente, o BIM (Building Information Modeling), por exemplo, é uma delas, mas existem ferramentas gratuitas de gerenciamento de projetos e diversas outras ferramentas online. Utilizar o conceito de Design Thinking ajuda bastante no desenvolvimento de projetos mais complexos; braistorming e reuniões de integração entre equipes também podem ser importantes aliados. Se possível, possuir um facilitador de projeto integrado, que coordene as equipes e já possua experiência com este tipo de abordagem. Temos que levar sempre em consideração que além de um trabalho técnico, este também é um trabalho psicológico, que considera acima de tudo as pessoas”, revela Maria Carolina.

Ela lista algumas dicas valiosas neste processo:

- todos da equipe integrada de projeto precisam saber o valor global de porquê alterar um processo de projeto tradicional para um processo de projeto integrado;

- conhecer o processo de uma forma geral, para entender o que aconteceria em um projeto integrado;

- necessitam saber seus papéis individuais e o escopo do trabalho; e como participar em um processo integrativo, incluindo a forma que as decisões são tomadas e que podem afetar o trabalho e as decisões de todos os demais envolvidos;

- como desaprender atividades, processos e funções utilizados no passado e mudar a forma de pensar e agir em relação à projetos tradicionais;

- como construir edifícios sustentáveis, saudáveis e de alto desempenho devem ser os focos principais do projeto e todos os aspectos relacionados à isso;

- conhecer os conceitos do LEED e suas principais estratégias ajudam e beneficiam durante o processo.

Além disso, os proprietários devem saber os benefícios dos processos integrados/integrativos; orçamento, custos de processos e riscos de custos extras, se não seguir um processo de projeto integrado; aspectos legais e contratuais; criar um documento “Requisitos de Projeto do Proprietário - Owner’s Project Requirements (OPR)”, especificando os requisitos e objetivos a serem alcançados com o projeto.

O facilitador do projeto integrado deve saber como o processo de projeto integrado deve ser aplicado para o projeto em especifico e de preferência possuir experiência com isso; conhecer o processo de orçamento e custos do edifício; como trabalhar com a equipe explorando as partes de integração entre elas e entre os sistemas, reconhecendo quando isto não estiver acontecendo.

“Todos os envolvidos em um projeto possuem essencial importância para o sucesso da construção. Os projetistas de instalações normalmente possuem resistência ao processo integrado, pois eles são pouco incentivados para isso. É necessário fazer reuniões antes de terem que compatibilizar os projetos, pois, dessa forma, a arquitetura pode ser pensada para uma melhor valorização desses sistemas. Os sistemas de ar condicionado trabalharão em conjunto com os sistemas passivos da edificação e necessitam ser adaptáveis para cada tipo de uso. É necessário que os projetistas se envolvam mais com os arquitetos e engenheiros para encontrar soluções que beneficiem todos e não somente compatibilizem os projetos, cada um em seu escritório, e enviem para aprovação final”, aponta Maria Carolina.

No caso específico do LEED, diz Alves Jr, no capítulo “Energy and Atmosphere” o “Prerequisite 2” estabelece o desempenho energético mínimo do edifício projetado, comparado com a edificação de referência. Para ele, a falta de integração ou o envolvimento tardio dos especialistas de ar condicionado pode ocasionar o não atendimento deste pré-requisito e, consequentemente, inviabilizar o processo de certificação como um todo.

A presença desde o início do projeto das equipes multidisciplinares é indispensável para a definição das áreas e volumes na edificação 

Além desse pré-requisito o crédito 1 confere uma pontuação maior, em função do percentual de eficiência energética obtido. Como a carga térmica e, consequentemente, consumo energético é diretamente afetada pelas características construtivas, a interface entre o arquiteto e o projetista dos sistemas de climatização é fundamental.

Já Montemor expõe os dois lados da moeda na utilização do BIM para a integração multidisciplinar: “O BIM, ou Modelagem da Informação da Construção, pode e não pode ajudar.  Hoje, o desenho em DWG, se bem usado, pode gerar um belo de um projeto, listar automaticamente os materiais e ver interferências, mas o mercado usa pouco essa ferramenta e muitos profissionais a usam como uma prancheta eletrônica. Me atrevo a dizer, em alguns casos, somente 20% da capacidade do software. Muitos gerenciadores, como uma oportunidade de negócio, têm ofertado projetos BIM e dito que é a ferramenta ideal, que vai  revolucionar o mercado, que vai ser usado na vida útil do prédio e tal e tal; mas vejo que muitos desses produtos gerados  são somente desenhos em 3D, bonitinhos, porém, ainda não têm realmente os blocos BIM em toda a sua capacidade; as empresas fabricantes não têm essas famílias com toda informação que deveriam ter. O mercado está só começando e num momento atual de crise, o custo de implantação é muito alto e o cliente final não quer pagar por isso. Desta forma se torna algo capenga um bloco 3D sem atributos, sem características, fazendo com que uma Ferrari seja um Fusca ou ainda como se usa hoje o DWG sem usar nada de seu potencial. Vejo também que as interferências que o BIM deveria evitar facilmente, em muitos casos, é uma bazuca usada para matar formiga, ou seja, num empreendimento comercial com nível de complexidade pequeno, quase não se tem problemas desde que os níveis de projeto sejam criados e definidos corretamente; uma ferramenta fantástica para um processo fabril, por exemplo, de muitas montagens em vários níveis. Vejo ainda que a mão de obra de manutenção predial é muito ruim, não sabe operar as instalações, às vezes mal sabe ler projeto, não tem planilhas, histórico da vida útil, enfim, esse é um elo muito fraco ainda, gente mal preparada para tocar a manutenção predial, o BIM poderia ajudar muito esse elo fraco”, alerta Montemor.

Raulino enfatiza que num processo de certificação, como o LEED, é mandatória a presença do agente comissionador que pode, nas fases iniciais, verificar a integração das matérias: “Há dezenas de projetos certificados que não obtiveram o benefício da necessária integração entre as matérias, mas que não os impediu de obter a certificação, entretanto, por caminhos mais difíceis e talvez com resultados inferiores de avaliação se caso houvesse a permanente integração entre os projetistas. Os programas na linha de modelagem da informação da construção (BIM) não despertam mais dúvidas de que proporcionam a integração de maneira eficiente.  A maioria dos escritórios de projeto já utilizam parcialmente ou estão desenvolvendo sistema BIM, mas é fato também que a recessão atual deverá retardar a disseminação de sua utilização em função dos altos custos de implantação. Como já citei anteriormente, o elemento de integração traz benefícios à realização de projetos proporcionando redução de retrabalhos, evitando as soluções na obra, em resumo, ter este elemento é um excelente investimento. O agente integrador na maioria dos projetos é o escritório de arquitetura, mas é preciso que este tenha uma capacitação mínima em cada matéria do projeto para que seu trabalho ofereça bons resultados”, finaliza Raulino.

Ana Paula Basile Pinheiro <anapaula@nteditorial.com.br>

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