Ar condicionado
Novas soluções e comissionamento elevam qualidade das instalações
Seminários do PNUD/MMA transmitem conhecimento e desmistificam preconceitos
postado em: 27/06/2016 14:05 h atualizado em: 05/07/2016 10:29 h

O mercado brasileiro de AVAC-R teve a oportunidade de acompanhar, nos primeiros meses deste ano, uma série de seminários inéditos sobre sistemas de água gelada, no contexto do Programa Brasileiro de Eliminação de HCFCs (PBH). Implementado pelo PNUD, através de verbas do Fundo Multilateral do Protocolo de Montreal, e realizados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), os eventos foram executados pela Somar Engenharia, com apoio das principais entidades do setor, como ABRAVA, ANPRAC, ASBRAV, ASHRAE, Sindratar São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras.

No Rio de Janeiro o seminário aconteceu nos dias 24 e 25 de fevereiro; Fortaleza sediou o evento nos dias 30 de março e 1 de abril, em paralelo ao SANNAR; São Paulo encerrou o circuito com um workshop nos dias 27 e 28 de abril. “Os três eventos foram estruturados dentro da seção fluidos refrigerantes - eliminação do R22 - mas diante do futuro de um phase down dos atuais fluidos, como o R134a, entre outros, a discussão foi em torno das soluções para chillers com fluidos de baixo GWP que as empresas - como Daikin, Trane, York, Carrier-, estão buscando. Evidentemente existe a dificuldade de uma solução final; é difícil escapar de um fluido que não seja inflamável, incluindo muitos dos sintéticos de nova geração”, afirma Leonilton Tomaz Cleto, consultor para a otimização de sistemas de ar condicionado e autoridade de comissionamento, que organizou os eventos.

Maurício Salomão Rodrigues, diretor da Somar, outro dos organizadores, faz um balanço positivo dos resultados, que abarcavam “divulgar novas tecnologias, com foco na eficiência energética, para os sistemas de ar condicionado que aplicam água gelada, e apresentar as propostas dos fabricantes de equipamentos e de fluidos refrigerantes para substituição dos CFC e HCHC, além de apresentar o comissionamento como ferramenta de identificação e proposição de soluções para sistemas existentes, com foco em eficiência energética e conforto térmico”.

“Sobre os novos fluidos refrigerantes, os palestrantes trouxeram o atual panorama das novas propostas de substituição e suas restrições em relação a cada aplicação. O público em geral se mostrou muito interessado interagindo com perguntas relevantes, principalmente quando tomou consciência de que ainda não existe uma proposta de substituição ´simples´ (troca de fluido sem alteração de equipamento e de forma de operação). As propostas de substituição que passam por fluidos do tipo hidrocarbonetos inflamáveis ou potencialmente tóxicos, envolvem alteração de projetos de equipamentos e de casas de máquinas, e implicam em mudança no comportamento das equipes de operação destes novos sistemas”, explica Rodrigues.

O diretor da Somar, continua: “Sobre novas tecnologias com foco na eficiência energética, tivemos oportunidade de ouvir experts nacionais e internacionais apresentando novas configurações de sistemas de água gelada e respectivas soluções de equipamentos que, devidamente integradas, podem produzir como resultado um sistema mais eficiente. Aliado às soluções de configuração de sistemas e de equipamentos, o comissionamento vem dar a devida integração entre estes dois componentes buscando o melhor ponto de funcionamento e, portanto, a melhor eficiência”.

Em geral, uma tarde de cada evento ocupou-se das soluções e tecnologias de sistemas de água gelada, indo além do equipamento e mirando novas concepções para a otimização, aumento da eficiência energética e melhorias no processo de ar condicionado como um todo. Assim foram abordados chillers em série; sistemas dedicados de resfriamento de ar externo (DOAS), nos benefícios que trazem à otimização do sistema, por permitirem a desvinculação entre as cargas latente e sensível ao trabalhar com temperaturas  mais elevadas; e sistemas de vigas frias, também como resultado do desacoplamento de cargas; finalmente, foram tratados os sistemas com circuito único variável, o variável no primário.

Uma seção abordou o comissionamento e o retrocomissionamento, buscando mostrar as possibilidades da otimização dos sistemas existentes. “Não só o tema retrocomissionamento, mas o que é possível fazer com uma central de água gelada existente. Dentro do tema comissionamento, a grande ênfase foi na necessidade do processo desde o projeto e, principalmente, na fase do projeto. É preciso mudar a estrutura do comissionamento, pois o que existe hoje é muito pouco e fundamentalmente para atender sistemas de certificação como o LEED, por exemplo. Nós entendemos que não deveria ser assim e discutimos muito o impacto do comissionamento ´manco´, totalmente picotado, quando apenas partes do processo são implementadas, resultando em instalações que, ainda com ótimos equipamentos e ótimas soluções, têm operação deficiente ou insuficiente em relação ao que foi pensado”, explica Tomaz Cleto.

O retrocomissionamento foi discutido na ótica do mercado brasileiro, onde se pensa apenas em retrofit de chiller, e raramente do sistema, envolvendo bombas, torres etc., levando a resultados decepcionantes frente ao planejado. “Se apenas o chiller é trocado em uma instalação com muitos problemas, às vezes de projeto e instalação, mas principalmente operacionais, com automação praticamente inexistente ou muito ineficiente, um chiller, por mais fantástico, não fará milagres. O resultado será um retrofit muito aquém das necessidades. A ênfase foi, assim, em como usar o retrocomissionamento para um retrofit e não uma simples auditoria da energia ou um diagnóstico constante do Programa de Eficiência Energética da ANEEL. O processo de retrocomissionamento analisa todo o sistema de ar condicionado, não apenas na instalação de água gelada. E várias ações podem ser realizadas como resultado do processo do retrocomissionamento que não requerem um investimento absurdo ou muito maior do que a substituição apenas do chiller. Se além do chiller, se procedesse a uma ou outra alteração, como troca de componentes secundários, fazendo uma otimização do sistema, com implantação ou correção da automação, haveria muito mais resultado no retrofit”, sustenta o consultor.

“Eu pessoalmente compartilho da visão do comissionamento, conforme apresentado no seminário, onde este é ferramenta fundamental na integração dos sistemas de água gelada, ou melhor, não adianta termos equipamentos eficientes, eles precisam operar em conjunto dando ao sistema a melhor eficiência. Operar de forma eficiente significa entender a rotina da edificação, entender seus diferentes modos de operação (diurno, noturno, final de semana etc.) e ajustar os componentes e equipamentos do sistema para que operem, em cargas parciais, na sua melhor eficiência, resultando em um conjunto mais eficiente, mais confiável, entregando o conforto ao usuário final, de forma que se produza um ambiente de trabalho saudável, confortável e eficiente. Os estudos de caso confirmam que é possível produzir conforto térmico gastando menos energia, desde que o sistema seja visto como um todo (difusores, redes de dutos, sistema de controle, condicionadores de ar, rede de distribuição de água gelada e CAG), incluindo o respectivo treinamento adequado das equipes de operação, responsáveis por manter o sistema operando em seu melhor desempenho, nos diferentes regimes a que é submetido em sua rotina”, enfatizou Rodrigues.

O que distinguiu a série implementada pelo PNUD e realizada pelo MMA, foi o ineditismo. Tratou-se do primeiro evento realizado no Brasil com foco no sistema de água gelada. Comumente realizam-se seminários ou palestras sobre temas pontuais, como chillers ou circuito variável, por exemplo, mas nunca com a abrangência apresentada, com todos os temas tratados com a consistência observada.

“Vemos uma redução bastante acentuada de sistemas de água gelada nos novos projetos, mas acredito que esses são, ainda, os que se mostram mais eficientes. Eu digo que, de longe, são os melhores em termos de controle, eficiência e mesmo de operação. Mas independente de novos sistemas, 90% das instalações de grande porte existentes são de água gelada. Dentro dos aspectos tratados, ainda há muito a ser explorado. E a discussão mostrou isso. Houve grande fluidez, as palestras foram interligando-se umas às outras e era muito comum um painel de discussão puxar um assunto que fora discutido em painel anterior. Em todos os períodos foram reservados tempos para discussão com o público que participou ativamente. A contribuição do público, que contava com conhecedores profundos dos temas, foi enorme”, avalia Tomaz Cleto.

Um dos muitos assuntos críticos foi um certo receio dos fluidos inflamáveis. Invariavelmente os participantes externavam sua preocupação com a formação de mão de obra. “Sem dúvida que é importante formar os técnicos, mas isso deve ser feito sempre. A possibilidade de incêndio é tão grave quanto os vazamentos de fluidos refrigerantes para a atmosfera. Fazer milhares de instalações de Split, VRF, com carga 20 vezes maior do que o sistema com resfriamento indireto, traz um impacto ambiental muito maior. Se não vazar, não explode, assim como não destrói a camada de ozônio e não contribui para o efeito estufa. Estão todos aterrorizados com fluidos inflamáveis mas deveríamos estar aterrorizados com a grande quantidade de sistemas mal instalados, como em supermercados cujo vazamento, em média, é de 100% da carga num ano. Sem contar a criticidade do VRF, por exemplo, que a depender do ambiente, caso ocorra um vazamento, pode até matar pessoas por asfixia”, exalta-se o consultor.

A confusão em relação ao comissionamento também foi exposta, segundo Tomaz Cleto. Para ele, não raro, principalmente o cliente final, confunde comissionamento com o TAB. A confusão ficou clara na discussão sobre sistemas, quando inclusive projetistas demonstraram seu ceticismo na aplicação das tecnologias e soluções no Brasil. “E não há nada de revolucionário. Estaríamos apenas mudando um pouquinho a posição das peças. O pessoal não assimilou que tudo isso é possível de ser adotado e implementado com expressivos resultados”. Vale dizer que, no tocante aos chillers com refrigerantes de baixo GWP, todos os fabricantes já os oferecem. Sem dúvida, há um problema de custo, tanto dos equipamentos quanto dos fluidos, mas as tecnologias já estão disponíveis. (Da Redação)

A cultura do comissionamento se expande

Este ano de 2.016 tem sido pródigo em seminários, palestras e fóruns relativos a sistemas de climatização que divulgam novas tecnologias, discutem opções de sistemas e levam o conhecimento aos mais jovens, incluindo neste movimento os fóruns de discussão  como o da ASHRAE Brasil.

Os seminários promovidos pelo PNUD alcançaram seus objetivos. Por terem sido promovidos em três datas e três locais diferentes multiplicaram as participações com a presença de um público ávido por novos conhecimentos e que teve a oportunidade de ouvir palestrantes brasileiros e estrangeiros, todos com elevado conhecimento de suas matérias.

Os seminários PNUD focaram sistemas com utilização de água gelada e, contrariando o que parte do mercado afirma, de que há pouca evolução nos sistemas com expansão indireta, que apresentariam desvantagens em termos de eficiência térmica frente aos sistemas de fluxo variável de refrigerante, viu-se nas exposições que sistemas com água gelada estão em permanente evolução, têm inúmeras variações com novas tecnologias e a eficiência destes sistemas ainda é insuperável, quando comparada a sistemas de expansão direta.

Muitas vezes os projetistas de AVAC, que têm com requisito indispensável estar ao par das novas tecnologias criadas no setor, consideram que seminários como os do PNUD na maior parte tratam de assuntos já conhecidos. Mas penso que o objetivo não era impressionar projetistas com novas ideias, mas sim trazer o conhecimento destas aos empreendedores, aos instaladores e aos jovens estudantes, provocando a discussão dos assuntos, aliás, como em todos os eventos deste tipo, o tempo para discussões sempre fica muito aquém do desejado pelos participantes. Seria uma ótima iniciativa se os organizadores de seminários promovessem a partir de cada palestra grupos de discussão nas redes, onde se teriam todas as perguntas e respostas que não conseguiram ser feitas nos eventos.

Todos os assuntos tratados foram de alta importância, mas os processos de comissionamento e retrocomissionamento, por estarem ainda engatinhando no Brasil, tiveram particular destaque na minha observação. Foram expostas as razões do investimento pelo empreendedor neste processo, pois em sua realização poderá estar a diferença daquela instalação bem projetada e bem executada operar adequadamente ou não.

As visões do comissionamento apresentadas convenceram a muitos dos presentes sobre o real benefício deste processo, que não se trata de uma despesa a mais e sim de investimento de rapidíssimo retorno.

Em nossa empresa realizamos mais de 1.300 projetos em 36 anos, em apenas um projeto o comissionamento se iniciou antes de nossa contratação, e em apenas cinco desses 1.300 houve o processo de comissionamento durante a realização do projeto e iniciados  já na fase final do projeto.  Em todos estes casos a presença da autoridade comissionadora somente somou à qualidade das soluções e do projeto. A boa notícia é que estes seis projetos aconteceram nos últimos vinte meses, o que demonstra que a cultura do comissionamento  durante o projeto está em expansão.

A realização de seminários com divulgação de novas tecnologias que incluem novos, equipamentos e novos modos de operação, não há a menor dúvida que contribuem de forma positiva na elevação do conhecimento de todos aqueles ligados ao setor, os que estiveram nos três eventos do PNUD retransmitem o conhecimento, o aplicam em suas atividades e certamente continuarão ávidos para participar de outros eventos semelhantes.(George Raulino, diretor da Estermic Engenharia de Sistemas Térmicos)

Público altamente capacitado

Acredito que eventos como estes colocam o mercado brasileiro em um nível bem mais competitivo no que tange à qualidade técnica, nos aproximando das novas tendências do mercado mundial. Neste sentido, alcançaram seu objetivo, que é o de difundir novas tecnologias e soluções. Pela qualidade de grande parte dos profissionais brasileiros, acredito que estas tecnologias serão perfeitamente absorvidas e aplicadas em nosso mercado.

Chamou-me a atenção a termoacumulação de alta eficiência e as diferentes soluções com vazão varável no primário, apresentadas pelos prepostos da ASHRAE. Acredito, também, que as palestras apresentadas, especialmente por Leonilton Tomaz Cleto e Maurício Salomão Rodrigues, serviram para desmistificar, cada vez mais, a visão que o mercado tem de que comissionamento e TAB são a mesma coisa. De suma importância as colocações apresentadas sobre o tema.

O fato da presença de um público de alta capacitação técnica, em número bastante razoável, confirma que é possível fazer eventos em nível nacional desde que patrocinados, pela iniciativa pública ou privada. Importante salientar que, mais uma vez, a ANPRAC se fez presente em um importante evento do mercado nacional. (Luiz Emilson Leiria, presidente da ANPRAC)          

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