
Trecho da Rodovia dos Bandeirantes que recebeu a mistura
(crédito: Cortesia da pesquisadora)
Victor Francisco Ferreira, da Agência USP (victor.francisco.ferreira@usp.br)
A utilização de misturas asfálticas mornas reduz o consumo energético e a emissão de poluentes gerados na pavimentação de vias. Com uma redução de 30ºC no aquecimento das pedras utilizadas na mistura é possível diminuir em 15% ou mais, dependendo do material e do tipo de mistura, os gastos necessários com combustível durante o processo de fabricação da mistura. Quanto às emissões, a redução pode ser de até três vezes em relação ao asfalto convencional. “A diferença é visível. Com o asfalto convencional forma-se uma nuvem no local da pavimentação, o que não acontece com as misturas mornas”, afirma Rosângela dos Santos Motta, pesquisadora da Escola Politécnica (Poli), autora de recente estudo sobre o tema.
O asfalto utilizado em ruas e rodovias resulta de misturas compostas pelo asfalto derivado do petróleo (5%) e pedras (95%). “Na temperatura ambiente o asfalto é duro. Por isso é preciso aquecê-lo para fazer a mistura. As pedras também são aquecidas para a manutenção da temperatura e para a retirada da água residual”, explica a pesquisadora. O asfalto convencional precisa ser aquecido a 170°C para que a mistura seja feita. “A temperatura de aquecimento do asfalto acaba sendo a mesma, mas reduzimos a temperatura de aquecimento das pedras. Como a grande maioria da mistura é composta por pedras, a redução dessa temperatura já gera uma grande economia de energia”.
Para que se pudesse diminuir a temperatura da mistura, o estudo de Rosângela utilizou um aditivo químico no asfalto. Existe também outra técnica que consiste em fazer contato do asfalto com água. Isso gera uma espuma que expande o asfalto e facilita a mistura com as pedras. Seja qual for a técnica escolhida, é necessário ou uma mudança no processo produtivo (aquisição de uma máquina que crie a espuma do asfalto) ou a compra constante de aditivos para serem acrescentados ao asfalto. Apesar de inicialmente elevar os gastos, tais medidas podem aumentar a produtividade. “Os funcionários podem produzir mais quando o ambiente de trabalho tem menos poluição e a temperatura é menor”, diz.
Trechos em rodovias
Dois trechos de importantes rodovias do estado de São Paulo, ambas sob concessão ao grupo CCR, utilizaram as misturas mornas estudadas por Rosângela. O primeiro foi feito em 2009 na Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. “O pavimento apresentava trincamentos no trecho em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo. A CCR fez a fresagem, retirando uma camada de 6 centímetros (cm) do asfalto antigo, e a via foi recapeada com o asfalto morno”, conta. Já o outro trecho foi realizado em 2010 na Rodovia dos Bandeirantes, próximo a Campinas, no interior de São Paulo. Foi colocada uma camada de 3 cm de asfalto morno por cima do já existente.
Na Rodovia dos Bandeirantes, foi utilizado um asfalto modificado, que contém borracha em sua composição. Esse tipo necessita de uma temperatura ainda maior para que seja feita a mistura devido à viscosidade que a borracha confere ao asfalto. A pesquisa mostrou que também é possível reduzir a temperatura da mistura do asfalto borracha com o uso de aditivos químicos. O asfalto borracha é mais flexível. Essa propriedade o torna interessante para uso em locais de tráfego intenso e pesado.
O principal objetivo das pesquisas com novos tipos de misturas de asfalto é economizar energia e gerar um produto tão resitente quanto o asfalto convencional. Rosângela afirma que, até agora, o asfalto morno parece ter resistência semelhante ao convencional, mas que é preciso fazer análises a longo prazo. “O asfalto precisa ser estudado em períodos longos, de vários anos, e com o tráfego de veículos. Por isso, os trechos na Dutra e na Bandeirantes estão sendo monitorados”.
As emissões foram analisadas em conjunto com a professora Pérola Vasconcellos, do Instituto de Química (IQ). “Retiramos amostras do ar quando da pavimentação na Bandeirantes. Na época da Dutra ainda não tínhamos essa parceria”, diz Rosângela. Os principais poluentes analisados foram os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). “Com o asfalto, a preocupação sempre são os HPAs. Não há nada provado, mas acredita-se alguns deles possam ser cancerígenos”. Seria, portanto, importante a redução dessas emissões, principalmente para os profissionais que trabalham diretamente na pavimentação, em contato direto com as misturas.
A pesquisa Estudo de misturas asfálticas mornas em revestimentos de pavimentos para redução de emissão de poluentes e de consumo energético foi defendida em maio como tese de doutorado, sob orientação da professora Liedi Légi Bariani Bernucci, do Laboratório de Tecnologia de Pavimentação (LTP), da Poli.
Imagem cedida pela pesquisadora (rosangela.motta@gmail.com)