
Conforto térmico contempla também outras funções tão importantes quanto o resfriamento, como a homogeneidade de temperatura
(crédito: Arquivo NT Editorial)
Gustavo Bloisi Fraga
Estamos vivenciando uma fase de transição ou até mesmo de consolidação de outra era na implantação de sistemas para conforto térmico de pequeno e médio porte, caracterizada pela rejeição aos princípios mais elementares e básicos da engenharia de aplicação, predominantemente nas instalações de sistemas splits com capacidade igual ou acima de 12M Btu/h. É preocupante como os procedimentos mais elementares de conservação de energia, compatibilização arquitetônica, racionalização operacional e distribuição de ar no ambiente climatizado, estão sendo ignorados, em função de resultados comerciais e da proliferação de instaladores não capacitados, favorecidos por clientes desinformados na escolha dos seus fornecedores. Evaporadoras são esteticamente e operacionalmente mal posicionadas, buscando exclusivamente a situação de menor custo de instalação em função da menor distância da condensadora. Como conseqüência gera o grande desconforto do fluxo de ar com alta velocidade sobre os ocupantes do ambiente, assim como causando uma acentuada heterogeneidade de temperaturas no ambiente falsamente beneficiado ou climatizado. Podemos afirmar que um jato de ar frio sobre um ocupante, é tão ou mais desconfortável que um ambiente sem refrigeração. Identificamos estas não conformidades nas aplicações onde se utiliza as unidades de parede hi wall e a do tipo piso teto. Nos casos dos cassetes, consegue-se trabalhar com uma distribuição mais uniforme, no que se refere ao atendimento de todos os lados do ambiente assim como se reduz a possibilidade de jatos de ar frio sobre os ocupantes.
Instalações
Nas aplicações em restaurantes o resultado é mais negativo, pois encontramos uma somatória de defeitos: zonas termicamente desconfortáveis, jatos de ar frio em determinados locais e impregnação de odor de alimentos nas pessoas, pois os sistemas de exaustão da cozinha, no que se refere ao desequilíbrio de pressões, esta sempre positiva e a área de atendimento do público geralmente negativa, favorecendo assim a migração de odores da cozinha para o salão de clientes. Quanto aos condensadores, são lançados em jardineiras geometricamente inadequadas , assim como em falsas áreas técnicas que não permitem a perfeita troca do calor de condensação, gerando temperaturas do ar para condensação acima de 35°C, provocando elevado consumo de energia e redução da vida útil dos compressores. Também não existe área suficiente para acesso de mantenedores, ficando os equipamentos sem manutenção até a pane total. As tubulações de gás e fluido refrigerantes são esteticamente mal posicionadas e dificilmente instaladas em locais previamente planejados para tal fim. Quando longas, as linhas são mal isoladas, mal sustentadas e mal alinhadas sem obedecer nenhum principio técnico de montagem, no que se refere a suporte e proteção mecânica para a rede e para o isolamento. A tubulação de dreno dificilmente é isolada, provocando após algum tempo de operação manchas de umidade na pintura da parede. Nas instalações de porte maior, acima de 7,3 kW (2,0 TR) os sistemas auxiliares de renovação de ar nem sempre são instalados, e quando são, não atendem as mínimas condições técnicas de vazão, filtragem e operacionalidade. Ou seja, estamos caminhando a passos largos para o caos da engenharia de aplicação para os sistemas splits de pequeno e médio porte.
Conforto térmico
Nós engenheiros ainda não conseguimos convencer o mercado fornecedor de sistemas que o processo de climatização ou conforto térmico contempla também outras funções tão importantes quanto o resfriamento: homogeneidade de temperatura, distribuição e velocidade de insuflação, eficiência operacional, filtragem e renovação de ar. As instalações domésticas (sistemas independentes de 12M, 18M e 24M btu/h), por beneficiarem ambientes com baixa taxa de ocupação, são mais susceptíveis às não conformidades citadas, mas já identificamos instalações de porte médio em aplicações específicas e especiais como cinemas, restaurantes e até instalações da área de saúde, onde não são obedecidas as mínimas condições de projeto, montagem e operação. Lançamos então a pergunta: A que, ou a quem atribuímos esta deterioração técnica de uma área tão importante do setor de sistemas prediais? Aos fabricantes, aos setores de regulamentação da qualidade do ar, aos projetistas, aos instaladores ou aos conselhos de engenharia? Por outro lado, esta situação nos permite concluir, que os compressores estão mais resistentes, ou mais tolerantes às condições adversas de operação, isto de alguma forma facilita a permanência dos procedimentos inadequados citados. Mas não podemos limitar a evolução dos processos de construção mecânica dos equipamentos ou restringir a aplicação de sistemas evoluídos de automação e proteção dos sistemas, em função da não evolução dos processos de aplicação das instalações. Existe também certa omissão por parte dos fabricantes dos equipamentos, que indiscriminadamente fornecem as máquinas para aplicação, através de grandes redes de lojas e magazines, sem estabelecer e exigir as condições técnicas necessárias de instalação e operação plena dos sistemas. O setor dos projetistas pode contribuir para a melhoria das condições gerais de instalação. É importante que haja uma avaliação criteriosa da necessidade do cliente, com estudos arquitetônicos e energéticos, fazendo as avaliações das diversas soluções, definindo o sistema mais adequado, considerando as demandas da instalação e do cliente.
Gustavo Bloisi Fraga – Engenheiro Mecânico /Integrante da Organização Odebrecht / Coordenador da Câmara de Engenharia Mecânica