
Edifício Jurubatuba, em São Paulo (SP): primeira implantação das fachadas ventiladas com cerâmica extrudada no Brasil
(crédito: Divulgação Gail)
Alberto Nascimento
A escolha do sistema de fachada é uma etapa importante. No momento de definição, o usuário quebra a cabeça diante de tantas opções. Sob o ponto de vista de arquitetos e engenheiros que não estão preocupados apenas com a estética, no entanto, o primordial é a preocupação com aspectos como durabilidade, estanqueidade, rapidez na execução e baixo impacto ambiental.
Para que o projeto alcance esse objetivo, deve ser minuciosamente analisado e planejado, levando em consideração as normas brasileiras (de dimensionamento e execução); o local onde será construído (clima, relevo, localização em relação a centros comerciais e vizinhança); o tipo de uso da edificação (residencial, comercial ou industrial); o investimento previsto a ser despendido até a conclusão da obra; e a mão de obra a ser empregada. “Deve-se considerar tudo para que atenda às necessidades dos usuários do edifício, proporcionando conforto, qualidade e segurança para as atividades a serem realizadas, respeitando o orçamento disponível e seguindo o cronograma físico-financeiro”, resume o professor Wagner Augusto Andreasi, coordenador do Laboratório de Análise e Desenvolvimento de Edificações (LADE) da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Andreasi também destaca o período de ocupação, a existência de condicionamento artificial de ar, metabolismo dos ocupantes e geração de cargas térmicas internas, radiação solar incidente, entre outros. “Escolhe-se o sistema construtivo adequado com base nesses critérios”, diz.
Para o engenheiro civil Jonas Silvestre Medeiros, diretor técnico da Inovatec Consultores Associados Ltda., o projeto de fachada deve focar o desempenho e possui caráter técnico, estético e econômico. “Existem critérios absolutos e relativos para definir um determinado nível desempenho adequado para um dado projeto. Um revestido aderido deve permanecer estável e seguro estruturalmente durante sua vida útil. Isso ninguém discute. Já esta vida útil pode ser de 20, 50 anos ou mais e será definida em função das necessidades do cliente e uso da obra. Isso então é relativo”, afirma.
Segundo Medeiros, a função do projeto é definir bem o produto para se saber aonde se quer chegar e detalhar suficientemente para que a execução na obra ocorra sem dúvidas ou improvisações. “Projeto e produção bem elaborados é que permitem garantir algo, neste caso, atingir o desempenho que foi definido”, diz.
A respeito da rapidez na execução e redução do impacto no meio ambiente, Medeiros cita a importância da qualidade do projeto, mas ressalta a escolha dos materiais e métodos construtivos, que seriam determinantes para isso. “A utilização de um sistema construtivo industrializado compatibilizado com as outras partes dos edifícios (estrutura, vedações e esquadrias) pode trazer resultados surpreendentes com relação à racionalidade, redução desperdícios e produtividade”, afirma. “Projetamos duas fachadas ventiladas recentemente com painéis cerâmicos de grandes dimensões que reduziram em alguns meses o prazo da obra quando comparado com as soluções convencionais. Embora esta tecnologia custe mais por metro quadrado aplicado, isso fez toda a diferença para a viabilidade do empreendimento e o investimento foi compensador para o cliente”, acrescenta.

Fachada ventilada
(crédito: Divulgação Inovatec Consultores)
Conforto térmico
Há diferenças significativas entre materiais e soluções construtivas e uma infinidade de possibilidades hoje disponíveis no mercado. Quanto se trata de conforto, entretanto, seria necessário separar as alternativas em dois grupos, pois existem aquelas que exercem função de vedação vertical principal e outras que funcionam exclusivamente como revestimento. Assim, projetar fachadas com vedações em painéis pré-moldados é bem diferente de projetar revestimentos, aderidos ou não, aplicados posteriormente sobre estrutura e alvenaria, por exemplo. “No caso dos revestimentos aderidos multicamadas, é mais difícil de prever o comportamento, pois eles dependem muito das condições como são executados e a determinação teórica do nível do conforto pode ser imprecisa”, diz Medeiros.
Do ponto de vista da concepção e detalhamento, um ponto muitas vezes mal estudado, segundo o engenheiro civil, é o encontro entre os diferentes revestimentos, e entre os revestimentos, as vedações e esquadrias. “Não é incomum que o desempenho da fachada como um todo fique comprometido por causa disso”, diz.
Segundo Andreasi, para avaliação de conforto térmico, todos os sistemas de vedação vertical, característico de cada sistema construtivo, podem ser resumidos na análise da absortância solar, resistência térmica e capacidade térmica. “A partir desses valores pode-se verificar a eficiência e adequação de cada sistema utilizando-se softwares de simulação computacional termoenergética (por exemplo,.EnergyPlus, DesignBuilder, Ecotect, AnalysisBIO, VisualDOE, ESP-r, TRNSYS), com adoção de parâmetros existentes em normas técnicas brasileiras e internacionais”, diz o coordenador do LADE.
Convencionalmente, paredes de alta resistência térmica seriam as mais adequadas. Seria possível, no entanto, conciliar baixa resistência térmica com baixa absortância solar das superfícies externas de forma a alcançar eficiência similar.
Andreasi afirma que, devido à variabilidade de espessuras e combinações entre os materiais dos sistemas construtivos, é impossível de se retratar as características de cada um. “O que se pode dizer é que sistemas leves como o wood framing e light steel framing (quando concebidos de acordo com as boas práticas) apresentam alta resistência térmica devido ao isolamento térmico no interior do componente e baixa capacidade térmica, devido à baixa massa específica dos materiais. Sistemas como esses podem diminuir a temperatura do ar interno dos ambientes, no entanto, os picos de temperatura interna podem ocorrer juntamente com os picos de temperaturas externas”, explica.
Sistemas como paredes de concreto armado moldado in loco, ou blocos de concreto poderiam apresentar baixa resistência térmica e alta capacidade térmica, podendo acarretar maiores temperaturas internas e atrasar os picos para horários posteriores do dia. “Para obras de comércio as características destes materiais são interessantes, por não haver funcionamento no horário de pico da temperatura”, diz.
O desempenho acústico se refere à capacidade de isolamento ou absorção acústica por parte da vedação. Este requisito, de acordo com Andreasi, pode ser atendido a partir de elementos massivos ou materiais porosos e atenuantes, respectivamente. “As normas brasileiras indicam apenas procedimentos de medição in loco ou em laboratório dos níveis de redução de pressão sonora dos elementos. Nota-se que o desempenho acústico depende também das frestas, aberturas, fissuras que podem ser característicos do sistema aplicado ou por erros de execução. As esquadrias representam grande influência neste aspecto”, diz.
Para um projeto de edifício que possua como ponto de partida as palavras-chaves obra rápida e uso de sistemas industrializados, Andreasi sugere o uso de concreto armado moldado in loco, wood framing e steel framing. Tendo como objetivo principal a eficiência energética e conforto térmico, ele cita o uso de qualquer sistema, desde que dimensionado corretamente. “No entanto, muitos podem não apresentar viabilidade, dependendo da concepção”, ressalta.
Considerando uma edificação hipotética, em clima quente, de uso residencial, com disponibilidade de mão-de-obra especializada e materiais a preços competitivos, sendo apenas uma unidade igual a ser construída:
Desempenho térmico
Steel framing, wood framing e blocos de concreto celular autoclavado seriam alternativas indicadas. “No entanto, deve-se ressaltar que uma edificação como essa, sem limitações, não existe na prática. O que ocorre na realidade é uma carência de mão-de-obra e projetistas especializados para projetar e executar sistemas diferentes dos convencionais. Isto pode gerar inconsistências em estudos que inviabilizam sistemas eficientes por estarem concebidos erroneamente ou superdimensionados”, explica.
Para Andreasi, é um pouco extravagante apresentar justamente os sistemas menos utilizados em nosso país. Segundo ele, existem outras boas alternativas, “pois uma edificação em sistema construtivo convencional pode obter eficiência similar ou superior ao Steel framing, ao wood framing e aos blocos de concreto celular autoclavado, se outros aspectos de eficiência energética forem aprimorados.”
O coordenador do LADE salienta que as regulamentações sobre eficiência energética no Brasil são recentes e, mesmo com o pouco tempo de atuação, seria possível constatar grande ineficiência das edificações nacionais de forma geral, indicando que o mercado deveria trabalhar para viabilizar sistemas mais eficientes ou aprimorar os sistemas construtivos existentes visando a melhoria de seu desempenho.
“As soluções não podem, no entanto, serem banalizadas aplicando, por exemplo, isolamento térmico exageradamente nas paredes e cobertura; sombreando excessivamente todas as janelas com dispositivos como brises e marquises; pintura de paredes e coberturas com cor branca; utilizar-se vidros duplos de baixo fator solar com esquadrias térmica e acusticamente bem produzidas; exclusão de todas as aberturas na fachada oeste, entre outras estratégias”, diz. “Na verdade, deve-se buscar soluções através de estudos específicos a partir de consultoria especializada que levará à obtenção de edificações energeticamente eficientes e de custo de implantação adequado às pretensões do cliente e/ou investidor”, conclui.
Alvenaria x concreto armado
Wagner Augusto Andreasi afirma que a parede de concreto armado moldada in loco para Habitações de Interesse Social ou edificações multifamiliares é utilizada quando há uma grande repetitividade de edificações, sendo que a viabilidade desse sistema dependeria do grau de reaproveitamento de formas, da quantidade de edificações e da velocidade de execução. “São utilizadas quando a própria vedação vertical é a estrutura da edificação”, diz.
Ele descreve as vantagens e desvantagens do sistema:
- Vantagens: alta produtividade e custo competitivo (quando em grandes quantidades); maior regularidade das superfícies, dispensando grandes espessuras de revestimentos; execução da vedação e estrutura da edificação simultaneamente.
- Desvantagens: não permite grande variedade de formas em planta, vãos limitados; o custo total depende da reutilização das formas (de madeira, plásticos, metálicas); necessita de grande domínio tecnológico sobre o produto, visto que existem ensaios laboratoriais consolidados e normas técnicas específicas sobre este sistema para utilização correta; dependendo das condições da obra e da quantidade de habitações pode perder para a alvenaria estrutural em termos de custo.
No caso de alvenarias, existem vários tipos: tijolos comuns; blocos cerâmicos; blocos de concreto de cimento Portland, blocos de concreto celular autoclavado, blocos de EPS, com inúmeras combinações de dimensões e tipos de assentamento, além da possibilidade de serem destinados apenas à vedação ou componente estrutural.
A respeito do sistema dito convencional (alvenaria de blocos cerâmicos de vedação em estrutura de concreto armado moldada in loco), Andreasi diz que se tratar do sistema mais utilizado devido à cultura no país e à exigência de serviços pouco especializados para sua execução e o que apresenta maior oferta. “Consequentemente, existe grande potencial de gerar erros construtivos e estruturais se não houver a devida fiscalização e acompanhamento por profissional capacitado durante a execução”, alerta. Sobre as vantagens desvantagens do sistema, Andreasi afirma:
- Vantagens: exige mão-de-obra pouco especializada (menores custos); os materiais necessários são produzidos em grande escala e a preços competitivos no mercado; exige projetos mais simples, visto que geralmente as paredes não são moduladas de acordo com a posição e o tamanho dos tijolos.
- Desvantagens: baixa produtividade devido ao pouco controle tecnológico e informalidade da mão-de-obra; grande perda de materiais e geração de resíduos; grandes imperfeições superficiais necessitando de maior quantidade de materiais de revestimentos.
Fachadas ventiladas
Ainda pouco conhecida no Brasil e amplamente utilizada nos Estados Unidos, Europa e Ásia, a fachada ventilada com revestimento cerâmico, não aderido ao corpo das edificações, vem conquistando cada vez mais espaço no país, tanto em obras comerciais quanto em obras corporativas.
Um desses produtos é o sistema de fachadas ventiladas composto por placas cerâmicas extrudadas em grandes formatos, que apresenta um dispositivo de fixação constituído por encaixes entre ranhuras presentes na parte de trás das placas, e perfis de alumínio préestampados. O dispositivo permite que a subestrutura de fixação fique oculta, não comprometendo o efeito estético da fachada. O produto, denominado KeraGail, chegou ao Brasil por meio de uma parceria entre a Gail e a Buchtal, empresa do grupo Deutsche Steinzeug.
Segundo a arquiteta Cris Côrrea, a primeira implantação das fachadas ventiladas com cerâmica extrudada no Brasil foi feita com o KeraGail. A obra concluída em 2010 foi feita no Edifício Jurubatuba, um empreendimento comercial de alto padrão localizado em São Paulo.
A arquiteta explica que o principio fundamental da fachada ventilada é o de possuir juntas abertas entre as placas de revestimento (cerca de 8mm de largura). O espaço criado entre a parede da edificação e o revestimento externo – que vária entre 8 a 12cm de largura, possibilitando um fluxo de ar renovável entre os dois planos. Assim, o ar entra, esquenta e sai por cima – o famoso efeito “chaminé”. Apesar de possuir as juntas abertas o sistema estanca as águas da chuva, evitando infiltrações principais responsáveis pela deterioração das fachadas.
Ainda de acordo com Cris Corrêa, o sistema se destaca pela leveza. “Todo o conjunto pesa apenas 32 Kg/m². Com placas de 20mm de espessura, o sistema apresenta ainda a possibilidade de se configurar detalhes arquitetônicos, cores especiais e dimensões, conforme modulação de aberturas, esquadrias e elementos de fachadas”, observa.
Alberto Nascimento - Editor da revista Sistemas Prediais