Ar condicionado
O impacto do LEED na saúde ocupacional
Certificação contribui para qualidade do ar interno
postado em: 02/08/2012 11:29 h atualizado em: 05/08/2012 07:17 h
Sistema de distribuição de ar pelo piso conta pontos no LEED e garante qualidade aos usuários
(crédito: NT Editorial)

A preocupação com os poluentes dos ambientes interiores é cada vez mais presente, uma vez que estes podem causar a elevação da taxa de absenteísmo no trabalho e o aumento no número de casos de problemas respiratórios, incluindo as alergias respiratórias e outras, nos usuários de ambientes climatizados. Desta forma, a qualidade do ar de ambientes interiores assumiu importante papel não só em questões relativas à saúde pública, como também no que diz respeito à saúde ocupacional.
Atualmente o tema Qualidade do Ar Interior faz parte de ações que visam a sustentabilidade das edificações. Por exemplo, dentre os pré-requisitos para uma certificação LEED (Leedership in Energy and Environmental Design), adotado pelo GBC - Green Building Council, estão os critérios mínimos de qualidade do ar para assegurar a preservação da saúde e da qualidade de vida dos usuários de edificações sustentáveis.

Existe dentro do sistema de certificação LEED a categoria específica Indoor Air Quality, que exige o cumprimento das normas ASHRAE 62 para a Qualidade Ambiental Interna e a ASHRAE 55 para Conforto Térmico. Atendendo a estes critérios o empreendimento soma pontos que contribuem para a certificação e, principalmente, torna o ambiente climatizado saudável para os trabalhadores e demais ocupantes, influenciando diretamente na saúde ocupacional.

De acordo com Marcos Casado, gerente técnico do GBC Brasil, a principal transformação que a certificação LEED está trazendo para o setor é a maior atenção na execução de projetos que garantam uma melhor qualidade ambiental interna, promovendo mais conforto e saúde aos usuários, assim como o desenvolvimento de sistemas de climatização de maior eficiência e com baixo consumo de energia.

“Hoje, temos 54 empreendimentos certificados no Brasil como o Eldorado Business Tower e o ECO Berrini, que conquistaram a certificação LEED Platinum, maior nível de certificação possível para a Construção Sustentável, e outros quase 500 em processo de certificação. Essas obras atenderam aos pré-requisitos exigidos no LEED como: desempenho mínimo da qualidade do ar interno, controle da fumaça do cigarro e créditos que passam a somar pontos conforme descritos no quadro 1 que, uma vez atendidos, garantem às edificações um ambiente interno saudável”, explica Casado.

Ele acrescenta que para construções novas existem créditos que exigem pesquisa de verificação e monitoramento destes critérios por pelo menos 18 meses após o início de operação e, após dois anos da construção, recomenda-se a certificação LEED EB_OM voltada para Operação e Manutenção de Empreendimentos Existentes, que exigem o controle e monitoramento destes critérios durante a operação do empreendimento.

 

De acordo com Edison Tito Guimarães, diretor da Datum Consultoria e Projetos, não resta dúvidas que a certificação LEED contribui para a qualidade do ar de ambientes internos e, por consequência, impacta positivamente na saúde ocupacional.

“A certificação LEED tem critérios relacionados com a qualidade do ar e suas implicações. Um deles é relativo à filtragem do ar, onde o LEED exige filtros de melhor qualidade, ou seja, de acordo com a classificação G5, por exemplo, semelhante  aos exigidos na NBR 16.401 da ABNT. Outro item é sobre a renovação do ar e que soma pontos no LEED, apesar de não ser obrigatória. Assim o LEED prestigia, ou seja, concede mais pontos, se você aumentar a vazão de ar exterior 30% acima do mínimo indicado pela ASHRAE (crédito 2 do Indoor Air Quality). Isso significa que, uma vez aumentada a vazão de ar exterior, a qualidade do ar interior melhora sensivelmente, se tratado adequadamente. Embora o tratamento do ar exterior não seja obrigatório no LEED, ele recomenda a incorporação de sistemas DOAS (sistemas dedicados ao tratamento do ar exterior). Todos os meus projetos são especificados com DOAS, pré tratando o ar exterior que será injetado. Na minha opinião, é praticamente impossível hoje em dia instalações não se valerem de sistemas DOAS. A Resolução da Anvisa - RE 09, limita a umidade relativa interna do ar em 40 a 60%, e não é possível garantir esse teor de umidade sem um sistema dedicado ao tratamento do ar exterior, pois a variação de umidade externa é muito grande, e a monitoração das condições de temperatura e umidade por meio da central de automação da edificação concede 1 ponto no LEED, garantido a qualidade do ar interior. Em termos de eficiência, recomendo a incorporação de recuperadores de calor. Isso tudo para mostrar que as instalações podem melhorar a qualidade do ar interior com sistemas extremamente eficientes, promovendo não só uma otimização energética, como também conforto e bem estar aos ocupantes dessas edificações”, informa Edison Tito.

Ele cita os benefícios que as exigências do LEED geraram ao Edifício Cidade Nova, localizado no Rio de Janeiro, RJ. Com projeto iniciado em 2006, uma das metas foi a construção de uma edificação sustentável, visando a classificação para receber o LEED CS 2.0.  O longo processo de preparação da documentação, que envolveu todo o trabalho desde o projeto, a construção e o comissionamento, foi desenvolvido com a participação de todos os projetistas e construtores, tendo sido a primeira edificação comercial de escritórios a receber o selo do GBC no Brasil.

“O prédio é ocupado pela Petrobras e utilizado como universidade corporativa. Considerando a classificação LEED, boa parte da pontuação a ser obtida foi direta ou indiretamente ligada ao sistema de ar condicionado, tornando-o um importantíssimo elemento diferencial na obtenção da classificação, devido a sua importância no conforto e saúde dos ocupantes, além do desempenho energético e outros itens relacionados ao meio ambiente. O resultado foi uma edificação altamente saudável, agradável aos seus usuários, eficiente do ponto de vista energético e ambientalmente responsável”, comenta Edison Tito.

Promovendo qualidade interna do ar

De acordo com o diretor da Datum, um dos pontos de maior importância do projeto do Edifício Cidade Nova foi a preocupação com a qualidade do ar interior. O projeto do sistema de climatização inclui um sistema de água gelada, distribuição de ar em regime de volume de ar variável pelo piso elevado, pré-tratamento de todo o ar exterior, além de completa integração ao sistema de automação.

Nesta solução, todas as fachadas são dotadas de vidros duplos, com um espaço de ar de 60 cm entre eles (aberto nas partes inferiores e superiores), com ventilação por convecção natural em função do aquecimento dos próprios vidros pela radiação solar. Desta forma, a energia radiante solar ao ser absorvida pelos vidros externos de alto coeficiente de absorção, aumenta consideravelmente sua temperatura, provocando correntes naturais de ar entre as duas placas de vidro.

No Edifício Cidade Nova (RJ) a obtenção do LEED privilegiou a QAI para conforto e saúde dos ocupantes

“Um artigo recentemente publicado na Ashrae Journal (Ventilating Facades) estudou detalhadamente diferentes combinações de vidros e sistemas de circulação de ar em fachadas ventiladas, exatamente como executado no Edifício Cidade Nova. Os resultados apresentados são tão interessantes quanto os que obtivemos no projeto Cidade Nova, mostrando que este tipo de solução tem elevada atratividade, tanto para o conforto dos ocupantes quanto para a eficiência energética. Além da área envidraçada das fachadas, o edifício conta com uma claraboia de cerca de 900 m2 que cobre todo o átrio central. Esta área com vidros de baixo SC, conta com um colchão de ar naturalmente estratificado, permanecendo imóvel sob os vidros da claraboia e agindo como isolante térmico, sendo um eficiente redutor da carga térmica por diferença de temperatura (transmissão de calor). O área do átrio é condicionada somente no nível de ocupação (no térreo), e o restante do volume não é termicamente tratado, com as passarelas de circulação nos pavimentos totalmente fechadas por vidros. Todos estes fatores foram levados em consideração na preparação da documentação do envelope (envoltória) da edificação, de vital importância na análise de desempenho do LEED”, informa Tito.

Ele destaca ainda o sistema de distribuição de ar predominantemente pelo piso com vazão de ar variável, que adiciona um ponto na contagem do LEED na categoria Controlabilidade. “Esta solução de insuflação de ar pelo piso ao melhorar as condições de qualidade interna do ar, contribui favoravelmente para a pontuação no LEED, além de introduzir o controle individual de temperatura dos ocupantes. Neste prédio 85% dos ocupantes tem seu controle de temperatura por meio de difusores especiais no piso”, revela Tito.

O ar é insuflado pelo piso e o retorno de ar se faz através de frestas no fundo das luminárias, depois pelo entreforro até as casas de máquinas. Com a adoção deste sistema de distribuição de ar, a qualidade do ar também é melhor, pois o ar limpo é diretamente lançado na área de ocupação. Junto aos vidros existem difusores lineares, também de piso, com controle independente e automático de temperatura.

Segundo o diretor da Datum, a insuflação pelo piso, além de promover melhoria na qualidade interna do ar, apresenta uma considerável redução no consumo de energia por diversas razões, dentre elas o fato do condicionamento de ar atender predominantemente o volume útil da sala, ou seja, até a altura de 1,80m. Para manter a condição prevista de umidade relativa nos ambientes e melhorar a qualidade do ar interior, todo o ar exterior para renovação é pré-tratado em condicionadores de ar na cobertura do prédio, sendo o ar tratado lançado nas casas de máquinas dos pavimentos já resfriado, desumidificado e filtrado. O resultado é a manutenção da umidade relativa interna em condições altamente estáveis, sem grandes variações ao longo do ano (o ar exterior não tratado é o grande introdutor de umidade nos ambientes, o que piora muito a sensação de conforto térmico dos ocupantes).

Controle de qualidade do ar

Os poluentes químicos e biológicos tais como dióxido de carbono, fungos e bactérias, presentes em ambientes climatizados, podem causar sintomas adversos aos ocupantes dos edifícios, caso não seja feita a manutenção adequada dos equipamentos. Estes poluentes são detectados através das medições e controle de qualidade.

 

Ar exterior para renovação pré-tratado mantém a condição prevista de umidade relativa nos ambientes e melhora a qualidade do ar interior

Edison Tito chama a atenção para os índices de concentração de CO2 como indicador de poluentes: “Os requisitos do LEED se assemelham às exigências da NBR 16.401 da ABNT, no que se refere às concentrações mínimas de CO2 no ambiente visando a manutenção da qualidade do ar interior. O que eu chamo a atenção aqui no Brasil é para a divergência na Resolução RE Nº 9 da Anvisa, que adotou o critério para concentração de CO2 em ambientes internos de 1.000 ppm, que é irreal, pois não considera o meio externo. A concentração de CO2 dentro do ambiente não é um indicador seguro para medir a qualidade do ar interno, mas poderia ser um indicador da taxa de renovação do ar, isso se você utilizasse uma adição, não de um valor fixo em ppm, mas sim um diferencial de concentração de CO2 entre o meio interno e o externo. Usando os valores de vazão de ar recomendados pela ASHRAE e ABNT, o diferencial seria de 700 a 800 ppm. Então a Anvisa deveria revisar esse número, pois o mundo inteiro abandou esse critério, inclusive a ASHRAE. Considerando o meio externo, reafirmo aqui que hoje é essencial que projetos de climatização especifiquem o sistema DOAS, sistemas dedicados ao tratamento do ar exterior, uma vez que estima-se que até 2014 a média mundial de taxa de concentração de CO2 no ambiente externo chegue a 450 ppm, o que é preocupante, uma vez que o LEED exige a monitoração da vazão de ar exterior”, destaca Edison Tito.
Ele acrescenta ainda que todo esse controle e monitoração da qualidade do ar exigidos no LEED têm como objetivo evitar a Síndrome do Edifício Doente – SED: “Se você tem uma edificação certificada pelo LEED o risco de SED é praticamente zero, garantindo a saúde de seus ocupantes. É muito difícil mensurar, mas 1% da produtividade dos ocupantes durante um ano proporciona ao empreendimento um payback de pelos menos 80% do investimento em tecnologias para a obtenção do LEED”, conclui Edison Tito.

Ana Paula Basile Pinheiro - editora da revista Climatização+Refrigeração

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