Em 2019, o Programa  das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Ação Ozônio (United Nations Environment Programme´s (UNEP) OzonAction), em conjunto com o ONU Mulheres (UN Women) editou a publicação Women in the Refrigeration and Air-conditioning Industry –  Personal Experiences and Achievements, destacando ações de mulheres que, em todo o mundo, fazem andar a indústria do AVAC-R através de práticas sustentáveis. Do Brasil, foram exibidos os perfis e histórias de cinco profissionais: Carmosinda Rodrigues Alfaia dos Santos, Gabriela Giacomini, Jossineide Oliveira e Silva Viana, Leylla Christian Lisboa Silva e Natália Dantas Borges.

Vamos mostrar um pouco mais da Jossineide, primeira mulher a abraçar a carreira na refrigeração e ar-condicionado na região Norte do Brasil. Inauguramos, também, uma série de perfis de mulheres brasileiras que têm conseguido furar o bloqueio do, ainda, mundo extremamente masculino do AVAC-R. “E nem apenas do Brasil”, alerta Jossineide, que conta ter visto poucas mulheres em visita a mercados de outros países.

A entrada de Jossineide no “mundo do freon” não deixa de ser peculiar. Na família era mandatório que, completos 14 anos, os jovens procurassem uma profissão. Na Porto Velho de então, a única instituição a oferecer cursos de aprendizagem profissional era o Senai. Neide, como é carinhosamente chamada por familiares e amigos, seguindo os passos de boa parte das moças da época, tentou o curso de corte e costura. Para a sorte de todos nós, o curso escolhido estava com as vagas preenchidas. Para não retornar à casa de mãos abanando, inscreveu-se em refrigeração e ar-condicionado.

Determinada, abraçou com tudo aquela que viria a ser uma grande vocação. E não foi fácil! “Quando fazíamos algum trabalho coletivo, os rapazes diziam: ‘deixe a limpeza da bancada com a Jossineide’. Na hora das práticas, talvez por um instinto de proteção ou apenas por acreditarem que eu não daria conta, me deixavam de lado”, lamenta.

Dizem que quando a vida lhe atira limões, faça uma limonada. Foi o que ela escolheu. Um ano depois de iniciado o curso, surgiu a oportunidade para a vaga de artífice (o que seria, atualmente, o monitor de classe). E como o professor era obrigado a se ausentar muito das aulas, a jovem Jossineide, então com 17 anos, já assumia uma classe inteira.

Mas eis que terminava a Aprendizagem Industrial e a capital da Rondônia não oferecia, à época, um curso técnico que a ajudasse a avançar. Aos 18 anos candidatou-se a processo seletivo nos cursos da modalidade em São Paulo e Belo Horizonte. A Oscar Rodrigues Alves, de São Paulo, saiu derrotada e Jossineide abriu novo capítulo da sua vida na capital mineira.

Em campo, aplicando os conhecimentos adquiridos

Em Minas Gerais conheceu o esposo e pai das duas filhas, de 17 e 14 anos, e do filho de 19 anos. “Já fomos sócios, eu e meu marido. Hoje somos concorrentes, mas felizes no casamento”, diverte-se.

O investimento feito na profissão, ela repassou para o mercado. Continuou dando aulas no Senai, que agora já avançou para outras modalidades, como o curso técnico em refrigeração e ar-condicionado, existente desde 2017. Tem contribuído, também, para o convênio com o GIZ para a disseminação das boas práticas em refrigeração. “Minha missão é aperfeiçoar a mão de obra”, diz ela. Aliás, está sempre disposta a contribuir onde for necessário. Eu, por exemplo, a conheci no dia 7 de março último na Fatec Itaquera quando a Abrava lançou o Comitê de Mulheres tendo como tema central as “Boas Práticas”, palestra desenvolvida por Jossineide.

Indócil, iniciou em 2011 o curso de Serviço Social, movida pela inconformidade com a exclusão de pessoas com limitações, tema do seu trabalho de conclusão do curso. “Mas nunca ganhei uma arruela com o serviço social”, diz entre risos, “só fiz trabalho voluntário”. Como a evolução faz parte da sua personalidade, atualmente cursa Engenharia Mecânica.

Com o desenvolvimento econômico de Porto Velho, abria-se desafiante oportunidade para a garota que trocou o corte costura pelo AVAC-R. “A maior parte das obras mais relevantes do estado eram feitas por empresas de fora. Percebemos que havia espaço e criamos a Vento Sul”.

Apesar do pouco tempo de vida no mercado, a empresa é “a que possui o maior acervo técnico do estado de Rondônia”, conta orgulhosa. Inicialmente, eram obras de pequeno porte, até 8 HP. Depois vieram as maiores, para chegar neste momento à mais vultosa instalação de VRF da região: o novo Fórum do Tribunal de Justiça. “São 22 condensadoras, com 539 evaporadoras no total”.

Mas que ninguém pense que a antiga missão foi esquecida. Jossineide continua com a atividade docente. Aliás, é do curso técnico que a empresa, hoje com 8 profissionais em manutenção e 16 em instalações, retira os melhores profissionais. “Não importa se é homem ou mulher, prezamos pela capacidade profissional.”

Coerente para quem considera que existe sempre uma pressão para que a mulher se contente com papéis secundários. “Eu já chorei, já briguei e, hoje, assumo uma posição mais proativa, vou lá e faço. Que existem preconceitos e restrições, não duvido. Mas é como, certa vez, eu respondi a alguns jovens que, durante o curso, me disseram que ali não era o meu lugar. Eu respondi que, realmente, não era, e sim na Springer Carrier, que era a marca mais expressiva na época. Anos depois eu visitei a fábrica de Canoas e, lembrando deste episódio, chorei de emoção.”

Ronaldo Almeida
ronaldo@nteditorial.com.br

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