
A pandemia de Covid-19 reacendeu o debate sobre qualidade do ar interno (QAI) sob uma ótica sanitária urgente. Com o distanciamento, é possível separar orientações acertadas de exageros, avaliar a herança deixada para a integração da QAI com eficiência energética e descarbonização, e identificar novos paradigmas que já alteram normas, projetos e tecnologias.
As orientações das principais entidades mundiais, como Ashrae, Abrava e Rheva, visavam responder ao clima de urgência. Neste sentido, foram totalmente acertadas medidas como o aumento das taxas de renovação de ar externo, sempre que possível, especialmente em espaços compartilhados. A Ashrae Standard 62.1 já previa isso, mas a pandemia forçou a aplicação prática do conceito “diluição é a primeira defesa”.
O uso de filtros MERV-13 (ou ISO ePM1 70%) provou-se eficaz para reduzir aerossóis, assim como estratégias de flush-out antes e depois da ocupação para purgar o ar interno.
Algumas outras talvez tenham demonstrado certo exagero ou alguma inviabilidade prática. Por exemplo, a recomendação de 12 trocas por hora em todos os ambientes fechados que, embora desejável do ponto de vista biológico, é energeticamente inviável na maioria dos edifícios existentes, levando a overdesign e altíssimo consumo. Hoje se aceita uma abordagem baseada em risco (dose-resposta), não em um número fixo universal. A recomendação por pressurização positiva extrema em todos os recintos ignorou que, em zonas climáticas quentes-úmidas, isso introduz alta carga latente, gerando condensação e risco de mofo.
A Abrava, no documento “Diretrizes para ambientes internos pós-COVID”, foi mais ponderada ao recomendar faixas de 4 a 12 trocas conforme a ocupação e priorizar a filtragem em recirculação combinada com renovação.
Principal herança da pandemia para a QAI
A herança fundamental foi a mudança do paradigma de “conforto e odor” para “saúde respiratória e transmissão por aerossóis”. Antes, QAI era sinônimo de CO₂, VOCs e partículas grossas (poeira). Agora, consolidou-se que ar interno deve ser tratado como vetor de doenças – não apenas SARS-CoV-2, mas influenza, tuberculose, sarampo. A analogia “trate o ar interno como água de torneira” tornou-se didática: ninguém aceita beber água visivelmente turva; por que aceitar ar não filtrado em ambiente ocupado?
A pandemia expôs uma falsa dicotomia: “mais ar externo = mais energia”. As lições práticas foram:
- Filtragem de alta eficiência na recirculação reduz a necessidade de ar externo para diluição, mantendo QAI com menor carga térmica.
- Monitoramento contínuo de CO₂ e partículas permite demanda-controlada de ventilação (DCV), ajustando vazões em tempo real – uma ferramenta poderosa para descarbonização.
- Sistemas com recuperação de calor (enthalpy wheels) bem mantidos não são opcionais; viabilizam altas taxas de ar externo com baixo impacto energético.
- Evitar o exagero das trocas de ar mencionado: a partir de certo ponto, o benefício marginal para infecção é mínimo, mas o custo energético é enorme. A curva dose-resposta deve guiar o projeto.
Mudança na percepção da sociedade
A pandemia democratizou o debate. Pessoas comuns aprenderam o significado de “trocas de ar”, “filtro HEPA” e “CO₂ como proxy de aglomeração”. Empresas e escolas passaram a exigir medidores de QAI visíveis. Houve desestigmatização do uso de máscaras e purificadores em paralelo à percepção de que o ar-condicionado não é inerentemente limpo. A sociedade passou a ter condições de ser um ativo fiscalizador, o que, em tese, pressiona os gestores de instalações.
A absorção mundial pela indústria da climatização da nova realidade não foi igual em todos os setores. Fabricantes de equipamentos rapidamente lançaram linhas com UV-C integrado, ionização e filtros de maior eficiência (MERV-13 como padrão em novos produtos). Projetistas (escritórios de engenharia) assimilaram de forma desigual: os mais atualizados adotaram modeling de transmissão aérea. Mas houve, também, mantenedores e operadores de sistemas que agarraram-se a soluções fáceis, muitos oferecendo tecnologias como ionizadores ou lâmpadas UV sem domínio técnico, gerando soluções ineficazes ou perigosas (ozônio, exposição direta a UV-C).
O saldo final foi positivo: a indústria reconheceu que AVAC não é só térmica; é também engenharia sanitária.
Novos paradigmas emergentes
Neste aspecto, podemos destacar a ventilação baseada em risco de infecção (não apenas em CO₂ ou ocupação nominal), usando parâmetros como número de ocupantes metabolicamente ativos, atividade vocal e tempo de permanência.
Também a percepção de que a filtragem em camadas, com uma combinação de ar externo + filtros de alta eficiência + tecnologias suplementares (UV, ionização) não é redundante, mas sinérgica.
Mas, talvez, duas das mais importantes foram a compreensão da qualidade do ar como requisito de projeto de arquitetura e operação predial, colocada ao mesmo nível que segurança contra incêndio e eficiência energética. E a necessidade de que os indicadores devem estar em tempo real e visíveis aos ocupantes (painéis com CO₂, PM2.5, temperatura, umidade).
Esses paradigmas alteram algumas práticas anteriores. Por exemplo, projetar com vazão de ar externo fixa conforme Tabela 6.2.2.1 da Ashrae 62.1. A nova prática está lastreada na vazão variável baseada em demanda e em análise de risco de transmissão para o cenário de pior ocupação.
Na prática anterior tinham-se os filtros MERV-8 em recirculação. Agora, a exigência recai sobre os MERV-13 como mínimo em zonas comuns, com possibilidade de filtros portáteis HEPA em salas sem renovação adequada.
Anteriormente tinha-se a manutenção apenas quando há queixa de conforto. Os novos paradigmas exigem o monitoramento contínuo e a manutenção preditiva orientada por sensores de QAI.
Algumas recomendações têm impacto direto na reformulação de normas. Entre os exemplos, podemos assistir a inclusão de orientações explícitas para mitigação de aerossóis virais em Ashrae Standard 62.1.
A equivalência entre filtração e ar externo, permitindo que vazões de ar externo sejam reduzidas se houver filtração de alta eficiência (e.g., MERV-14 ou HEPA) na recirculação, desde que monitorada. Como também, a exigência de verificação periódica da eficácia de tecnologias ativas (ionização, UV) com medição de ozônio residual e intensidade de UV.
Por fim, a recomendação de umidade relativa entre 40-60%, faixa que minimiza transmissão viral e reduz formação de aerossóis, mas que exige mais energia (umidificação/desumidificação), criando desafio de balanceamento.
Visão do futuro da QAI como disciplina
Muito provavelmente a QAI se tornará cada vez mais uma subespecialidade obrigatória dentro da engenharia de AVAC, a exemplo de outras, como a eficiência energética. Haverá certificações específicas (à semelhança do LEED, mas focadas em saúde respiratória – o WELL já pavimenta esse caminho). A integração com Building Information Modeling (BIM) incluirá simulações de dispersão de contaminantes biológicos. A disciplina incorporará conhecimentos de virologia ambiental, aerobiologia e análise de risco epidemiológico – algo impensável para um engenheiro de climatização há cinco anos.
Tecnologias e produtos para ambientes saudáveis
Além da filtração tradicional e renovação de ar, espera-se o crescimento de:
- Purificadores de ar autônomos com filtro HEPA + carvão ativado, enquanto solução de baixo custo para retrofit.
- Sensores de CO₂, PM2.5, COV, temperatura e umidade integrados em rede BMS.
- Sistemas de UV-C em dutos ou em lâmpadas de irradiação superior (Upper-Room) – eficazes para inativar microrganismos.
- Ionizadores controlados (com mínima geração de ozônio e outros subprodutos).
- Desumidificadores/umidificadores para manter UR na faixa ideal.
Repetindo, nenhuma delas substitui a filtração, pelo poder de remoção de partículas, incluindo microrganismos inteiros e inativados, poeira, pólen, esporos. Por exemplo, UV-C e ionização inativam ou modificam biologicamente, mas não removem tais partículas. Um microrganismo inativado por UV continua no ar e pode causar inflamação em indivíduos sensíveis. Além disso, partículas não biológicas (fumaça, material particulado) não são afetadas. Assim, a hierarquia correta é filtração (como primeira barreira) e tecnologias ativas como complemento para inativação de patógenos que passam pelo filtro.
Importante: não existe “um filtro para todos os ambientes e todas as situações”. O projeto deve considerar carga ocupacional, tipo de atividade, necessidade energética e risco de transmissão.
Além do grau de eficiência (MERV/ePM), outras exigências operacionais devem orientar a escolha do filtro, como :
- Baixa perda de carga inicial e final bem definida – para não degradar o desempenho do ventilador e evitar aumento injustificado de consumo.
- Selagem adequada no quadro do filtro – vazamentos em bypass entre filtro e estrutura podem reduzir eficácia de 95% para 30%, sem que o operador perceba.
- Substituição baseada em queda de pressão, não apenas calendário – filtros saturados aumentam drasticamente o consumo energético e podem romper.
- Compatibilidade com o tipo de poluente predominante – carvão ativado para COV; filtros antimicrobianos (tratados) para ambientes hospitalares, mas cuidado com lixiviação de biocidas.
- Certificação e rastreabilidade – filtros HEPA devem ser testados individualmente; MERV-13 requer certificação laboratorial conforme ANSI/ASHRAE 52.2.
A pandemia não inventou a QAI, mas arrancou as vendas do “faz de conta”. Engenheiros e técnicos de AVAC têm agora a responsabilidade de abandonar práticas puramente baseadas em conforto térmico e adotar uma visão sistêmica – combinando renovação, filtração, tecnologias suplementares, controle de umidade e monitoramento contínuo – com eficiência energética e descarbonização como restrições reais, não como desculpas para omissão.
*Referências sugeridas para aprofundamento: ASHRAE Position Document on Infectious Aerosols (2023), REHVA COVID-19 guidance (versão 5), ABRAVA Nota Técnica NT-06/2021, e a próxima revisão da NBR 16401-3.
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