Transição para fluidos refrigerantes de menor impacto ambiental é o exemplo mais claro do descompasso
O setor brasileiro de aquecimento, ventilação, ar-condicionado e refrigeração faturou R$ 50,15 bilhões em 2025 e deve chegar a R$ 55,62 bilhões neste ano, segundo balanço da Abrava. Dentro desse número há um detalhe que merece mais atenção do que recebeu: a atividade que mais cresceu foi instalação e manutenção, com alta de 20,7% em 2025 e expectativa de repetir quase o mesmo ritmo em 2026. Ou seja, o segmento que mais se expande é o que depende inteiramente de mão de obra qualificada, e é justamente onde ela falta.
O efeito é circular e pouco discutido: com menos técnicos do que o mercado precisa, quem está em atividade acumula carga de trabalho, e quem acumula carga de trabalho não tem tempo para se atualizar. A escassez, portanto, não apenas reduz a oferta de profissionais. Ela degrada a qualificação dos que já estão no mercado.
O currículo não acompanhou o fluido
A transição para fluidos refrigerantes de menor impacto ambiental é o exemplo mais claro do descompasso. Ela avançou por decisão regulatória e por pressão de mercado, em prazos definidos por acordo internacional. A formação técnica avançou no ritmo em que currículos de ensino profissionalizante costumam ser revisados, que é outro completamente. O resultado é uma geração de profissionais formada para trabalhar com sistemas que estão saindo de operação.
Some a isso a eletrônica embarcada, os controles inteligentes e a conectividade que hoje são padrão até em equipamento de linha comercial. Instalar deixou de ser uma habilidade essencialmente mecânica e passou a exigir parametrização, diagnóstico e leitura de dados. Poucos programas de formação trataram essa mudança como mudança de escopo da profissão, e não como um módulo extra.
Há uma discussão que precisa alcançar toda a cadeia: a de certificação. Manusear fluido refrigerante envolve risco ambiental mensurável e exige competência verificável, e hoje a comprovação dessa competência é, na melhor das hipóteses, irregular. Um sistema de certificação com validade reconhecida em toda a cadeia não resolveria o déficit sozinho, mas separaria com clareza quem está apto de quem está aprendendo no equipamento do cliente.
Formar não é responsabilidade de um só elo
É comum ouvir que formação é papel do ensino técnico. É papel do ensino técnico, mas não só. Os fabricantes conhecem a própria tecnologia antes de qualquer instituição e têm obrigação de transferir esse conhecimento à rede que instala seus produtos. Distribuidores estão no contato diário com o instalador e são o canal natural de atualização. E o contratante, aquele que decide a obra pelo menor orçamento, participa da conta mesmo sem perceber, porque a instalação barata feita por quem não domina o sistema é a mais cara de todas no horizonte de cinco anos.
Na Elgin, a resposta que encontramos foi levar a formação até onde o profissional está, com programa itinerante de atualização técnica e com um centro de treinamento segmentado por porte de aplicação. Não é modelo único nem suficiente, e não pretende ser. É a contribuição possível de um fabricante para um problema que é do setor inteiro.
Porque é disso que se trata. O déficit de qualificação não se resolve com iniciativa isolada, por melhor que ela seja. Mas ignorá-lo tem custo concreto, e ele já está sendo pago: em eficiência energética que o equipamento entregaria e não entrega, em vida útil encurtada, em chamado de manutenção que não precisava existir. O setor cresce dois dígitos. A pergunta é quem vai instalar tudo isso.
Alexandre Rosa, gerente de engenharia de aplicação da Elgin






