O início de 2026 tem sido marcado por eventos climáticos extremos em diferentes regiões do planeta, reforçando o alerta sobre a intensificação dos impactos das mudanças do clima.

Enquanto no Brasil as chuvas provocaram inundações e deslizamentos em várias cidades de Minas Gerais, os Estados Unidos, Canadá e Europa já registraram nevascas de grande magnitude, paralisando cidades, cancelando voos e deixando um rastro de caos nas redes de energia e transporte. O Japão também enfrentou grandes nevascas, deixando ao menos 30 mortos e centenas de feridos, segundo autoridades locais. Enquanto isso, no hemisfério sul, a Austrália viveu uma das ondas de calor mais severas em anos, com temperaturas atingindo ou superando 50 °C.

Não se engane com afirmações – não sei se ingênuas ou maliciosa – questionando o “aquecimento global” em tempos de frio extremo. Climatologistas destacam que esses extremos — frio extremo em algumas latitudes e calor recorde em outras — são consistentes com um clima global aquecido, no qual eventos outrora raros se tornam mais comuns devido ao aumento da temperatura média da Terra e à maior disponibilidade de energia térmica na atmosfera e nos oceanos.

E se é certo que estas mudanças vieram para ficar, é certo também que precisaremos de mudanças para enfrentar o clima extremo – a tão falada adaptação – sob o risco de continuarmos apenas resgatando vítimas ao final de cada episódio climático.

Mudanças pequenas, grandes efeitos

Imagine a quantidade de energia envolvida para aquecer o oceano. No Pacífico, episódios de El Niño e La Niña mostram como mudanças de poucos graus são capazes de provocar impactos climáticos em todo o planeta. O oceano é o principal reservatório de calor do planeta e, quando essa energia se acumula e se redistribui de forma cada vez mais rápida entre as bacias oceânicas e a atmosfera, o sistema climático entra em desequilíbrio.

Processos que antes levavam vários anos hoje ocorrem em períodos de 6 a 9 meses. Essa aceleração no deslocamento de energia ajuda a explicar a intensificação de eventos extremos ao redor do mundo, como ondas de calor recordes, chuvas intensas, secas prolongadas e até nevascas severas em regiões acostumadas ao frio.

E como fica o Brasil em 2026

Em tempos de mudanças climáticas, qualquer previsão é um desafio. O que é certo é que no Brasil o cenário climático deve continuar caracterizado por extremos. Institutos meteorológicos e estudos científicos apontam que, mesmo em anos sem um evento forte de El Niño, a tendência é de manutenção da frequência e intensidade de ondas de calor elevada e da irregularidade no padrão de chuvas.

Nosso novo normal – pelo menos por enquanto – é esta combinação de variabilidade natural (como fases de ENSO — El Niño e La Niña) com o aquecimento global, resultando em um Brasil com verões mais quentes e secos em algumas regiões e chuvas intensas e concentradas em outras — cenário que agrava riscos de incêndios, danos no sistema de distribuição de energia, falta de água e impactos para a agricultura e infraestrutura urbana.

Impacto no mercado de ar-condicionado no Brasil

Nesse contexto de temperaturas elevadas e ondas de calor mais frequentes, o setor de ar-condicionado no Brasil tem registrado um crescimento contínuo desde 2024, impulsionado por uma maior demanda residencial e comercial por soluções de climatização. A expectativa é de que essa tendência continue em 2026, à medida que consumidores e empresas buscam conforto térmico e proteção contra o calor extremo.

O balanço divulgado pela Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), estima um crescimento orgânico médio de 10% ao ano para o setor nos próximos cinco a dez anos, ainda que as incertezas na geopolítica internacional e do cenário eleitoral brasileiro possam impactar os custos de insumos e a estabilidade do mercado. Destaque para o segmento de instalação e manutenção, que lidera o crescimento em 2026, com alta estimada de 19,8%.

A demanda pelo equipamento também é reforçada pelos picos de temperatura em centros urbanos. Reportagem exibida recentemente pelo Fantástico, da TV Globo, mostrou como as chamadas ilhas de calor afetam de forma desproporcional favelas e periferias urbanas, onde a alta densidade de construções, a falta de áreas verdes e o uso de materiais que acumulam calor fazem com que a temperatura seja significativamente mais alta do que em bairros vizinhos.

Adaptações e maior proteção à saúde

O calor excessivo agrava problemas de saúde, reduz o conforto térmico e expõe moradores — especialmente idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas — a riscos cada vez maiores em um contexto de aquecimento global. Nesse cenário, o acesso ao ar-condicionado tende a ganhar importância como medida de adaptação e proteção à saúde nessas comunidades, já que soluções de climatização passiva, como ventilação natural ou sombreamento, têm eficácia limitada diante das condições urbanas e térmicas desses territórios.

Durante a COP30, ouviu-se repetidamente que climatização deve ser encarada como direito humano básico, ao lado de água potável, saneamento básico e energia.

Mas com todo esse crescimento, o setor elétrico nacional já começa a sentir os efeitos de uma nova dinâmica de consumo. Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a energia destinada ao uso de condicionadores de ar no setor residencial deve crescer significativamente nas próximas décadas, pressionando a necessidade de geração, distribuição e atendimento dos picos de consumo nos períodos mais quentes.

Conforto térmico mais acessível

Esses relatórios também mostram que, em anos recentes, o avanço das temperaturas já elevou a carga elétrica no país, levando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a registrar aumento expressivo da demanda nos horários de pico durante ondas de calor. Os avanços que estamos tendo em eficiência energética, tanto para aparelhos de ar-condicionado quanto para edificações, não só reduzirão o impacto sobre o sistema elétrico, mas tornarão o acesso ao conforto e segurança térmica mais acessível para toda a população, reduzindo custos.

Por fim, o avanço acelerado da climatização também traz um desafio ambiental adicional: o aumento do estoque de hidrofluorcarbonos (HFCs), gases refrigerantes amplamente usados em aparelhos de ar-condicionado e com alto potencial de aquecimento global se liberados na atmosfera. Vazamentos durante a instalação, falhas na manutenção e o descarte inadequado de equipamentos antigos podem transformar uma solução de adaptação ao calor em um fator de agravamento da crise climática.

Nova instrução normativa do Ibama

Não à toa, a nova Instrução Normativa do Ibama, que esteve em consulta pública até 28/02, coloca como crime ambiental o vazamento do gás refrigerante em qualquer etapa do processo. E os Programas Brasileiros de Eliminação de HCFC e de redução de HFC tem colocado grande esforço no fortalecimento da economia circular destes equipamentos e no treinamento de técnicos por todo o país.

É essencial garantir instalações bem executadas, manutenção com recolhimento correto do fluido refrigerante e o funcionamento efetivo da logística reversa, assegurando que a expansão da climatização ocorra sem ampliar as emissões responsáveis pelo aquecimento global.

*Thiago Pietrobon é biólogo, consultor em sustentabilidade e diretor de Meio Ambiente da Abrava.

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