
A pandemia provocada pelo Sars-CoV-2 deixou marcas profundas em praticamente todos os setores da sociedade. No campo da engenharia de sistemas de climatização e controle ambiental, seu impacto foi particularmente revelador: o ar interno — aquele que respiramos em escritórios, hospitais, clínicas, escolas e residências — saiu do segundo plano e passou a ocupar o centro das discussões técnicas, normativas e, cada vez mais, sociais. A qualidade do ar interno (QAI) emerge, assim, como uma disciplina genuinamente multidisciplinar, reunindo engenheiros, médicos, sanitaristas, microbiologistas e gestores de edificações em torno de um objetivo comum: ambientes mais saudáveis, seguros e sustentáveis.
Para refletir sobre esse cenário, ouvimos três profissionais de reconhecida competência no setor: Manoel Gameiro, diretor comercial da Ecoquest; Marcelo Munhoz, diretor comercial da Sicflux, vice-presidente do conselho de administração e diretor de relações institucionais da Abrava; e Maurílio Oliveira, engenheiro de aplicação e desenvolvimento de novos negócios na Multivac. O resultado é um panorama abrangente sobre o legado da pandemia, os novos paradigmas que dela emergiram e o futuro da QAI como disciplina estruturante do setor de AVAC.
O ar como vetor de saúde pública
Se há um consenso entre os especialistas ouvidos, é que a pandemia tornou visível algo que, para os profissionais do setor, já era conhecido, mas permanecia ignorado pela sociedade em geral. “A maior herança foi a ‘invisibilidade tornada visível'”, afirma Marcelo Munhoz. “O ar interno deixou de ser um vácuo de preocupações para ser entendido como um fluido que transporta patógenos. Consolidou-se o entendimento de que edifícios não são apenas abrigos, mas infraestruturas de saúde pública.”
Para Manoel Gameiro, o impacto foi assimétrico: intenso para os profissionais do setor, mas superficial para o grande público. “Para as pessoas comuns, a pandemia ficou no passado e a grande maioria não aprendeu com o ocorrido”, avalia. Ele lembra que doenças respiratórias como a Influenza continuam em circulação e que novas variantes do coronavírus seguem sendo monitoradas — sinais de que o tema não pode ser tratado como episódico. “Nosso setor tem que continuar falando e publicando documentos e artigos para chamar a atenção.”
Maurílio Oliveira reforça que a discussão não foi exatamente uma novidade técnica, mas sim uma amplificação de conhecimentos já existentes. “Os fundamentos técnicos e as diretrizes normativas já existiam, mas a pandemia trouxe maior visibilidade ao tema, impulsionando debates, revisões de práticas e uma intensificação nas discussões técnicas e normativas.” Para ele, o principal legado está na consolidação da QAI como responsabilidade permanente dos profissionais do setor — e não como reação a uma emergência.
Acertos e excessos nas recomendações institucionais
As orientações emitidas por instituições como a Ashrae e a Abrava durante e após a pandemia foram, em sua maioria, tecnicamente sólidas — mas nem todas resistiram ao escrutínio do tempo. Gameiro adota uma postura abrangente: “Entendo que todas as normativas são acertadas e evoluem com o passar do tempo e com novos conhecimentos. Acredito que em breve teremos revisões de normas visando o aumento de segurança e saúde dos ocupantes, no mesmo movimento que vimos na certificação LEED.”
Munhoz, por sua vez, faz uma distinção mais precisa. Entre os acertos plenos, destaca a ênfase na taxa de renovação de ar e no uso de filtros de alta eficiência (MERV 13 ou superior), bem como o foco na manutenção preventiva via PMOC. “A ciência confirmou que a diluição é o método mais eficaz contra aerossóis”, afirma. Já entre os exageros do período inicial, aponta o foco excessivo na desinfecção de superfícies e a recomendação de desligar os sistemas de recirculação. “Em climas tropicais, desligar o ar-condicionado causa problemas de umidade — fungos —, e a recirculação com filtragem pesada é muitas vezes mais eficiente e sustentável do que 100% de ar externo em condições extremas.”
Uma sociedade ainda pouco alfabetizada tecnicamente
A pandemia iniciou um processo que o diretor da Sicflux define como “alfabetização técnica do leigo”. Antes, o usuário dos espaços climatizados reclamava apenas da temperatura. Hoje, uma parcela da sociedade compreende, ao menos superficialmente, conceitos como renovação de ar e concentração de CO₂. A popularização de monitores de CO₂ de baixo custo teve papel fundamental nesse processo. “Eles permitiram que o ocupante ‘enxergasse’ a estagnação do ar, empoderando o usuário final a cobrar por ambientes mais saudáveis”, observa Munhoz.
Gameiro, no entanto, pondera que esse avanço ainda é limitado a nichos específicos. No mundo corporativo, as certificações de sustentabilidade têm contribuído para elevar o padrão dos edifícios de alto padrão, mas “as pessoas comuns ainda não conseguem diferenciar um prédio saudável de um prédio comum e não valorizam essa diferença”. Há, portanto, um longo caminho de educação e comunicação pela frente.
Como a indústria respondeu
A cadeia produtiva do setor de climatização — fabricantes, projetistas e instaladores — respondeu à pandemia de formas distintas, mas convergentes. Do lado dos fabricantes, o diretor comercial da Ecoquest aponta a chegada de novos produtos com melhores sistemas de filtragem, inclusive nas linhas de minisplit, maior oferta de equipamentos com lâmpadas UVC instaladas em fábrica e expansão dos fornecedores de sensores multifuncionais (temperatura, umidade, CO₂, particulados e TVOCs). Marcelo Munhoz acrescenta que os fabricantes aceleraram o desenvolvimento de purificadores portáteis e sistemas de sanitização ativa, como UV-C, fotocatálise e ionização.
Entre os projetistas e instaladores, o principal ganho foi de conhecimento. “Já sabiam dos problemas, mas durante a pandemia muitos artigos técnicos e recomendações foram publicados, o que aumentou bastante o conhecimento de todos”, avalia Gameiro. Os projetistas passaram a superdimensionar a capacidade de filtragem e a prever espaços para expansão dos sistemas de tratamento de ar. Quanto ao PMOC, Munhoz observa uma transformação simbólica: o Plano de Manutenção, Operação e Controle deixou de ser uma “taxa burocrática” para se tornar um diferencial de mercado.
Há, contudo, um alerta pertinente de Gameiro: “Muitos clientes finais que investiram no tratamento de espaços para o retorno de seus colaboradores deixaram de fazer manutenção e troca de equipamentos depois que a pandemia foi controlada.” O risco, portanto, é que as melhorias implantadas na urgência do momento sejam progressivamente abandonadas na normalidade.
Do mínimo necessário ao minimamente necessário para a saúde
A expressão que melhor sintetiza a mudança de paradigma vem de Marcelo Munhoz: a QAI migrou do “mínimo necessário” para o “mínimo necessário para a saúde”. A partir desse eixo, três novos pilares estruturam o campo: a resiliência epidêmica, com prédios projetados para operar em “modo pandemia” com taxas de exaustão e filtragem temporariamente elevadas; a saúde holística, em que a QAI passa a ser vista como fator de produtividade e redução de absenteísmo; e o comissionamento rigoroso dos sistemas, para assegurar que o que foi projetado esteja de fato sendo entregue.
O engenheiro da Multivac complementa com uma mudança igualmente relevante: o questionamento do modelo de renovação de ar fixo, dimensionado para a ocupação máxima — condição que raramente ocorre na prática. “A discussão evoluiu para conceitos como ventilação sob demanda, viabilizados pelo avanço dos motores, sistemas de automação e estratégias de controle”, explica. Com isso, torna-se possível ajustar em tempo real a quantidade de ar de renovação conforme a ocupação efetiva, equilibrando qualidade e consumo energético.
Outra revisão paradigmática diz respeito ao papel do CO₂ como indicador de qualidade do ar. “É possível encontrar ambientes com concentrações aceitáveis de CO₂ e, ainda assim, com qualidade do ar comprometida por partículas em suspensão, compostos orgânicos voláteis ou contaminantes biológicos”, alerta Oliveira. O CO₂ continua relevante, mas passa a ser interpretado principalmente como indicador de ocupação, não como parâmetro absoluto de QAI.
QAI e descarbonização: uma tensão produtiva
A relação entre qualidade do ar interno e eficiência energética sempre envolveu alguma tensão. A pandemia tornou esse conflito ainda mais evidente: mais renovação de ar implica mais energia para climatizar o ar externo. A resposta do setor veio na forma de tecnologias de recuperação de energia (ERVs) e sistemas de Ventilação Controlada por Demanda (DCV), com sensores de CO₂ como proxy da ocupação real.
A Ashrae, sob a liderança de seu novo presidente, tem encampado essa visão com o tema Healthy Buildings: Designing for Life, que parte do entendimento de que é possível — e necessário — descarbonizar edificações sem abrir mão da qualidade do ar interno. Como resume Gameiro, a posição da entidade é “desenvolver e revisar diretrizes e padrões para reduzir as emissões de gases de efeito estufa enquanto se mantém ou melhora a qualidade do ar interno, a sustentabilidade e a resiliência”.
Maurílio Oliveira reforça que essa convergência já está se materializando em soluções concretas. “As soluções mais recentes de ventilação e renovação de ar já incorporam motores eletrônicos de maior eficiência e sistemas de controle que permitem modular a vazão de ar conforme a demanda real do ambiente”, afirma. Assim, busca-se manter a qualidade do ar em níveis adequados sem impor consumo energético desnecessário — alinhando QAI e descarbonização em uma mesma estratégia.
Revisão normativa: da recomendação à obrigatoriedade
No campo normativo, a pandemia acelerou uma transição que já estava em curso: a passagem de recomendações voluntárias para requisitos mandatórios de monitoramento. Para Marcelo Munhoz, essa foi a recomendação mais importante que emergiu do período. Entre as medidas concretas, destaca a adoção de sensores de CO₂ como padrão de projeto e a exigência de filtragem mínima MERV 13 em sistemas centrais, já prevista no Standard 62.1 da Ashrae. No Brasil, a revisão das normas da ABNT, como a NBR 16401, busca alinhar esses níveis de segurança biológica à realidade climática local.
Manoel Gameiro aponta que as normas futuras precisarão incorporar o controle de umidade relativa, CO₂, TVOCs e particulados como parâmetros vitais para uma boa QAI. Para Maurílio Oliveira, a mudança normativa está intrinsecamente ligada a uma mudança de postura profissional: sair de uma zona de conforto baseada em soluções padronizadas para adotar abordagens mais integradas e adaptáveis. “A renovação de ar, que antes muitas vezes era tratada apenas como exigência normativa, passa a ser incorporada como parte do valor agregado das instalações”, afirma.
Tecnologias a serviço da QAI: filtragem, UV e ionização
A evolução tecnológica disponível ao mercado para a melhoria da QAI é hoje expressiva. Manoel Gameiro destaca a tecnologia Active Pure de fotohidrólise avançada como solução eficaz e segura para ambientes corporativos e hospitalares. No campo do tratamento por luz ultravioleta, aponta as lâmpadas UVC como altamente eficazes no tratamento de serpentinas para evitar o biofilme — colônias de fungos que colonizam superfícies úmidas dos sistemas de ar-condicionado.
Uma ressalva importante, no entanto, é que essas tecnologias emergentes não substituem a filtragem. “Um bom sistema de filtragem é fundamental, e as novas tecnologias adicionam camadas de proteção”, afirma Gameiro. Ele lembra ainda que, quando se trata de TVOCs — compostos orgânicos voláteis totais —, os sistemas de filtragem convencionais não têm ação, tornando as tecnologias complementares ainda mais relevantes.
Futuro digital, dinâmico e integrado
Os três especialistas convergem para uma visão de futuro em que a QAI será monitorada continuamente, gerida de forma inteligente e integrada à operação das edificações como um todo. Para Manoel Gameiro, o horizonte inclui o monitoramento contínuo de temperatura, umidade, CO₂, TVOCs e particulados PM2,5 e PM10, com dados disponíveis para todos os ocupantes e sistemas de controle com inteligência artificial para ajuste e correção de problemas — além da implementação do Standard 241 da Ashrae.
Marcelo Munhoz vai além: “A QAI se tornará digital e dinâmica. Não aceitaremos mais um laudo semestral de qualidade do ar que é apenas uma ‘foto’ de um momento.” O futuro, para ele, é o monitoramento em tempo real via IoT integrado ao BMS (Building Management System), com a disciplina de QAI se fundindo à ciência de dados. “O prédio ‘saberá’ quando o ar está saturado e agirá de forma preditiva para proteger os ocupantes, equilibrando saúde e consumo energético de forma invisível e autônoma.”
Maurílio Oliveira arremata com uma visão de longo prazo que resume bem o caminho percorrido e o que ainda está por vir: “Assim como já ocorreu com outros requisitos técnicos ao longo do tempo, a qualidade do ar tende a ser incorporada de forma natural aos sistemas, passando a ser entendida como um elemento básico de projeto — e não mais como um diferencial.” A QAI, em suma, está a caminho de se tornar tão fundamental quanto a própria climatização. Não como resposta a uma pandemia, mas como condição inerente a qualquer ambiente onde pessoas respirem.
- Maurílio Oliveira
- Marcelo Munhoz
- Manoel Gameiro
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