Não raro, sistemas projetados e concebidos para serem energeticamente eficientes e eficazes quanto à qualidade do ar e ao conforto térmico falham a partir da ocupação da edificação. Pode-se detectar questões relacionadas à própria cultura dos usuários. Mas, há quem considere que o principal problema está na própria concepção do edifício que deveria ter, entre seus objetivos finais, propiciar a qualidade do ambiente interno para os ocupantes. Tendo claro que o sistema de ar-condicionado é o responsável para garantir os pressupostos alinhados acima.

“Com os requisitos de produtividade e as exigências dos ocupantes, não é mais possível conceber um edifício com um sistema de ar-condicionado padrão, que não possa ser otimizado para a sua ocupação final. E isso está cada vez mais fácil de ser atendido devido ao grande desenvolvimento tecnológico nos últimos anos, principalmente nos elementos de controle, para atender diversos requisitos”, explica Leonilton Tomaz Cleto, consultor, diretor de tecnologia da Abrava e da Yawatz Engenharia.

Tomaz Cleto continua: “É muito importante observar que um sistema de ar-condicionado superdimensionado para um determinado ambiente dificilmente atenderá os requisitos de qualidade do ambiente interno. Principalmente se não houver um controle otimizado e ajustado corretamente para atender as condições do ambiente. Tipicamente, os sistemas de ar condicionado são dimensionados com um excesso de 50% a 70%. Isso resulta em um sistema mais caro e que na ocasião da contratação das empresas, ao invés de reduzir o tamanho dos equipamentos superdimensionados, reduz-se os elementos de controle.”

Do alto de uma experiência de mais de 3 décadas, o diretor da Yawatz afirma que um sistema que seja dimensionado adequadamente, o que envolve condicionadores de ar, elementos de distribuição de ar e de difusão, elementos de filtração e, principalmente, os elementos de controle, e que possibilite aos ocupantes versatilidade para o controle da qualidade do ambiente interno, é um sistema que trará os melhores resultados de desempenho. Inclusive de eficiência energética.

“Na verdade, isso é um desafio, pois a maioria dos edifícios comerciais são construídos para serem alugados e somente na ocupação – quando o projeto dos ambientes for definido – é que serão especificados os requisitos para a qualidade do ambiente interno. Mas ainda assim é possível conceber os pavimentos típicos com versatilidade para o controle do sistema de ar condicionado. E, óbvio, a previsão de desvios ou a adequação para cada ocupação deve ser uma das etapas mais importantes na concepção do projeto para os ambientes, tanto do projeto básico, para a fase de construção, quanto do projeto final, na fase de ocupação”, defende Tomaz Cleto.

Sendo o conforto térmico e a garantia da saúde para os ocupantes o objetivo final de um sistema de ar-condicionado, os usuários deveriam atuar de maneira ativa para o controle do sistema. No entanto, isso normalmente não acontece e o usuário é obrigado a se adaptar às condições do ambiente impostas pelo sistema de ar-condicionado.

Assim, o usuário sai do ambiente externo que está muitas vezes desconfortável, devido a alta temperatura, e entra no ambiente interno, pretensamente climatizado, que também está desconfortável, mais quente ou mais frio e, não raro, úmido e, ainda menos raramente, com qualidade do ar inadequada. “É importante observar que mesmo um sistema de ar-condicionado energeticamente eficiente, se propicia desconforto, desperdiça toda a sua eficiência”, dispara Cleto.

Portanto, na opinião do consultor, a avaliação do usuário é de suma importância para o bom desempenho do sistema de ar-condicionado. “A norma ABNT NBR 16401 Parte II – Conforto Térmico, dispõe de metodologia e procedimentos para a avaliação do conforto térmico e da qualidade do ar interior, incluindo questionários abrangentes que podem contribuir de maneira substancial para a melhoria e otimização de um sistema de ar-condicionado para atender os requisitos dos usuários”, diz ele.

Impacto das vestimentas

Finalmente, sempre de acordo com o diretor de tecnologia da Abrava, os usuários podem contribuir muito para a qualidade do ambiente interno, incluindo o conforto térmico e com impacto até mesmo na eficiência energética do sistema, se eles adotarem o conceito de conforto térmico na aplicação das suas vestimentas. “Tipicamente no verão espera-se utilizar roupas mais leves. Com roupas mais leves (Clo < 0,61) é plenamente confortável habitar um ambiente de escritório com temperatura de bulbo seco do ar entre 24°C e 25°C, com umidade relativa do ar entre 50% e 60%. O uso de paletós e roupas mais pesadas torna-se completamente inadequado e requer temperaturas nos ambientes inferiores a 22°C. Isso resulta em um sistema que consome cerca de 17% a mais de energia que um sistema com ambientes mantidos entre 24°C e 25°C. Para manter ambientes em 19°C o aumento do consumo chega a 31%”, indigna-se Cleto.

Num mundo mais racional o usuário é que deveria “controlar” o sistema de ar-condicionado. Não apenas quando se trata dos chamados e reclamações para a central de controle com solicitações de “mais quente” ou “mais frio”. Hoje em dia, os questionários sobre a qualidade do ambiente interno já estão disponíveis em aplicativos para celulares e de maneira interativa permitem que a avaliação do usuário resulte no ajuste do controle das condições internas para o melhor conforto dos usuários de um determinado ambiente. “Infelizmente, não é raro um usuário com roupas mais pesadas durante um dia de verão solicitar que a temperatura do ambiente seja mantida abaixo de 22°C”, lamenta Tomaz Cleto.

Leonilton Tomaz Cleto

Comissionamento pode ser ferramenta de defesa dos usuários

Mas existem saídas para que os usuários sejam respeitados nos ambientes climatizados. “O processo de comissionamento bem aplicado é essencial para que um sistema de ar-condicionado opere para atender os requisitos de conforto térmico e qualidade do ar interior nos ambientes atendidos. E é fundamental que o comissionamento seja aplicado desde a concepção do sistema e principalmente durante a fase de projeto. A outra etapa fundamental é durante a ocupação, quando os profissionais do processo de comissionamento atuam para que os fornecedores envolvidos (fabricantes, instaladores, integradores do sistema de automação e empresas de TAB) atendam aos requisitos dos usuários. Além disso, cabe aos profissionais do comissionamento instruírem os operadores para atender os requisitos dos usuários, assim como instruírem os próprios usuários sobre os dispositivos que o sistema dispõe e de que maneira eles podem atuar para obter melhores condições da qualidade do ambiente interno”, conclui o diretor da Yawatz. (RA)

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