Além da excelente eficiência energética e custo operacional mais competitivo, há que somar as questões regulatórias e a possibilidade de aproveitar o calor rejeitado

Sistemas transcríticos de CO₂ são sistemas de refrigeração que utilizam o refrigerante R-744 (dióxido de carbono) operando acima do seu ponto crítico termodinâmico (31,1°C e 73,8 bar).

Diferentemente de fluidos convencionais como o R-404A, o CO₂ em regime transcrítico não condensa acima do ponto crítico; rejeita calor em um gas cooler, e não em um condensador tradicional; e opera com pressões significativamente mais elevadas.

O equipamento, quando operando em regime transcrítico, apresenta o lado de alta pressão acima de 73,8 bar, porém, no caso de a condição atmosférica externa permitir, o sistema poderá operar em regime subcrítico pela possibilidade de a condensação do fluxo de massa da descarga sofrer transformação de fase plena.

No sistema Transcrítico, o controle da pressão de alta substitui o conceito clássico de “pressão de condensação estabilizada”, atuando a partir da informação de temperatura lida na superfície da tubulação de saída do gas cooler, e essa informação utilizada no algoritmo do controlador do sistema irá ser usada para atuar sobre válvulas de controle, instaladas no ramal de alta pressão, que ajustarão a pressão ótima do sistema, via abertura e fechamento proporcional, garantindo o melhor COP para a condição exata do momento. Essa característica torna o sistema mais sensível à temperatura ambiente, especialmente em regiões tropicais como grande parte do Brasil.

As faixas típicas de operação são:

– Lado de alta pressão (transcrítico): 80 a 100 bar (podendo ultrapassar isso em dias muito quentes);

– Pressão intermediária (flash tank): 35 a 55 bar;

– Evaporação: Baixa temperatura (BT): -35°C a -10°C / Média temperatura (MT): -15°C a +5°C.

O que isso significa tecnicamente? Elevado esforço mecânico nos componentes, compressores reforçados, tubulações de maior resistência (podendo ser cobre especial ou aço), válvulas e conexões específicas para alta pressão, alta densidade volumétrica, menor deslocamento volumétrico, linhas de sucção com diâmetros menores, excelente capacidade de transferência térmica, alta sensibilidade ao clima.

Em ambientes com temperatura entre 30 e 32°C, o sistema entra fortemente em regime transcrítico e o COP tende a cair se não houver estratégias de otimização, tal qual trocadores de calor adiabáticos, muito aplicados no Brasil.

Em comparação, o R-404A opera tipicamente com pressões de alta entre 15 e 20 bar, em regime totalmente subcrítico.

As aplicações ideais para um sistema CO2 Transcrítico são supermercados (MT + BT integrados), atacarejos, centros de distribuição frigorificados, indústrias alimentícias, sistemas com necessidade de recuperação de calor e em climas moderados ou subtropicais (ex: Sul do Brasil).

Também são muito competitivos quando há operação 24/7 e existe demanda simultânea de refrigeração e aquecimento, e quando há a busca de certificação ambiental (LEED, ESG).

As principais limitações para esse tipo de sistema são:

– Limitação 1: Sensibilidade a altas temperaturas ambientes.

O problema, nesse caso, é o COP reduzido acima de 32–35°C, pois a alta pressão de gas cooler (descarga dos compressores) aumenta o consumo. A soluções estão nos ejetores, na compressão paralela e sub-resfriamento mecânico, gas cooler adiabático, otimização eletrônica da pressão ótima (algoritmos dedicados).

– Limitação 2: Alta pressão operacional, o que exige componentes robustos e maior rigor em projeto e instalação.

As soluções passam pelo projeto mais detalhado e complexo, a seleção adequada de materiais e o treinamento especializado.

– Limitação 3: Capex inicial maior, com custo inicial podendo oscilando entre 80 e 200% acima.

Faz-se necessário uma análise de ciclo de vida (LCCP) que leve em conta a redução de riscos regulatórios, além de considerar ganhos com recuperação de calor.

Precauções no projeto, instalação e operação

Como preceito básico é preciso formação de equipe capacitada, treinamento específico em CO₂, entendimento de risco de alta pressão, procedimentos de alívio e segurança, conhecimento técnico em componentes e materiais, uso de tubulações certificadas, conhecimento de aplicação e manutenção de válvulas de segurança, conhecimento avançado em automação de sistemas mecânicos de refrigeração e sensores de alta precisão, controladores específicos para CO₂.

Na segurança, entender os principais riscos: sobrepressão, descarga súbita, asfixia em ambientes confinados, formação de gelo seco (ponto triplo) em válvulas de alívio ou em manutenção de ramais pós vácuo.

Entre as medidas obrigatórias estão a especificação de detectores de CO₂ em casas de máquinas, ventilação adequada, válvulas de alívio direcionadas para área segura, procedimentos formais de bloqueio e despressurização.

Procedimentos de instalação: brasagem controlada, soldagem com material aço, teste hidrostático adequado até 140 bar, secagem rigorosa do sistema, controle de umidade, fluido CO2 de alta pureza, torque correto em conexões, ajuste dos tempos de operação dos compressores e seus controles de capacidade. Utilizar óleo original de acordo com recomendação do fabricante.

No projeto do sistema é necessário observar o cálculo preciso de pressão ótima de alta, o correto dimensionamento do flash tank, estratégia clara de controle eletrônico, análise climática regional (fundamental no Brasil) e distribuição da carga térmica.

Na operação e manutenção deve-se prever o monitoramento contínuo de pressão de alta, verificação periódica de válvulas de segurança, inspeção estrutural de tubulações, análise de dados de performance, verificação dos dados termodinâmicos de operação dos compressores, evaporadores, gas cooler e válvulas de controle.

Os sistemas CO₂ Transcrítico são seguros e eficientes mesmo em climas quentes, desde que o projeto seja adequado, os componentes corretos e de qualidade, a equipe de manutenção seja treinada e certificada e os procedimentos de operação sejam rigorosos e monitorados.

O CO₂ é classificado como A1 pela Ashrae, o que o torna não inflamável e de baixa toxicidade — uma vantagem significativa frente a refrigerantes A2L e A3.

No tocante à eficiência, especificamente em clima quente, sistemas básicos (sem otimização) podem perder eficiência significativa acima de 32–35°C. Sistemas modernos com ejetores e compressão paralela são plenamente viáveis mesmo em regiões quentes do Brasil. A recuperação de calor (aquecimento de água ou Glicol por exemplo) pode compensar parte da perda de COP.

Principais vantagens de um sistema transcrítico

  1. Impacto ambiental extremamente reduzido
  2. GWP = 1
  • Zero impacto regulatório futuro
  1. Comparado ao R-404A (GWP ≈ 3922), elimina praticamente o impacto direto
  2. Alta eficiência volumétrica
  3. Maior capacidade por unidade de volume deslocado pelos compressores
  • Compressores mais compactos
  • Menor diâmetro de tubulação
  1. Excelente troca térmica
  2. Alto coeficiente de transferência de calor
  3. Evaporadores mais eficientes
  • Recuperação de calor altamente eficiente
  • Temperaturas de descarga elevadas
  • Excelente para aquecimento de água sanitária
  1. Pode elevar significativamente a eficiência global do sistema pela possibilidade de agregar as cargas de climatização e aquecimento local
  2. Classificação de segurança favorável
  3. Segundo a Ashrae, o CO₂ é classificado como A1: Não inflamável; baixa toxicidade

 

 

 

 

 

Marcos Euzébio é Gerente de Engenharia de Aplicação na Bitzer Compressores

Veja também:

Sistemas CO2 transcríticos: desafio para projetistas e instaladores

Sistemas CO2 Transcíticos são seguros e eficientes

 

 

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