Sensor mede, algoritmo decide, mas quem resolve o problema é a movimentação correta do ar

A Qualidade do Ar Interno (QAI) deixou de ser um conceito subjetivo para se tornar um pilar fundamental nos projetos de climatização. Impulsionada pela evolução de sensores, atuadores e algoritmos inteligentes, a automação está transformando os sistemas AVAC de meros reguladores térmicos em ecossistemas ativos, capazes de garantir saúde, produtividade e eficiência operacional. Para entender os contornos dessa evolução, conversamos com três especialistas do setor: Cristiani Marques (coordenadora de engenharia de produto e aplicação da Berlinerluft do Brasil), Laura Baldissera (diretora da Projelmec) e Jairo Alfonsin Cardoso (gerente de marketing da Soler Palau Brasil).

O objetivo é munir os profissionais que atuam em sistemas de climatização com uma visão inicial de como a tecnologia está redefinindo os parâmetros de controle da QAI, transformando desafios operacionais em oportunidades de excelência.

Os pilares da qualidade do ar

Para que a automação atue de forma eficaz, é necessário primeiro entender o que se deve medir. Os especialistas são unânimes em apontar que a QAI é determinada por um conjunto complexo de variáveis que vão muito além da temperatura.

Segundo Cristiani Marques, os parâmetros críticos incluem:

  • Concentração de CO₂: Funciona como um indicador indireto da renovação do ar e da ocupação.
  • Material particulado (PM1, PM2,5 e PM10): Essencial para a saúde respiratória.
  • Compostos Orgânicos Voláteis (VOCs): Provenientes de materiais de construção, produtos de limpeza e processos.
  • Temperatura e umidade relativa: Impactam diretamente o conforto térmico e a proliferação de agentes biológicos.
  • Contaminantes biológicos: Fungos, bactérias e vírus.
  • Taxa de renovação e pressurização: Fundamentais para evitar contaminação cruzada entre ambientes.

Laura Baldissera complementa destacando a importância do contexto operacional. “Em ambientes industriais, além da saúde ocupacional, a qualidade do ar também influencia estabilidade de processos produtivos, conservação de equipamentos e qualidade do produto final”. Ela ressalta que, antes mesmo da automação, a base de tudo está no dimensionamento correto: “A qualidade do ar começa antes da automação. Ela começa com ventilação e renovação de ar bem dimensionadas.”

Jairo Alfonsin Cardoso sintetiza de forma prática, listando CO₂, VOC, material particulado, temperatura e umidade como os pontos de atenção primários.

Automação como sistema nervoso das instalações

Se os parâmetros são os sinais vitais do ambiente, a automação é o sistema nervoso que os interpreta e responde. Cristiani Marques define a automação como o elemento que permite que variáveis como “vazão de ar, abertura de dampers, velocidade de ventiladores, capacidade térmica e até estágios de filtragem possam ser moduladas automaticamente conforme a necessidade.”

Baldissera explica que essa abordagem representa uma mudança de paradigma: “Com isso, os sistemas deixam de operar de forma fixa e passam a funcionar de forma adaptativa, respondendo à ocupação do ambiente, às condições externas e às cargas térmicas internas.”

Cardoso complementa, destacando a dinâmica cíclica da automação: monitoramento contínuo, análise em tempo real e ajuste automático.

Tratamento de anomalias em tempo real

Um dos grandes valores da automação é a capacidade de reagir a anomalias antes que elas impactem a saúde dos ocupantes ou a integridade dos processos. Os especialistas detalharam como a tecnologia responde a cada desafio:

  • Renovação do Ar (CO₂ elevado): Todos os três especialistas apontam para o aumento automático da admissão de ar externo ou da vazão de insuflamento. Cristiani Marques chama essa abordagem de Controle Baseado em Demanda (DCV), ajustando a renovação conforme a ocupação real.
  • Filtragem e pressurização: Baldissera e Marques destacam o uso de sensores de pressão diferencial que indicam saturação de filtros, acionando alarmes de manutenção preventiva ou ajustes automáticos para manter a pressurização correta e evitar contaminação cruzada.
  • Temperatura e umidade: O controle atua sobre válvulas e serpentinas, evitando oscilações. A engenheira da BerlinerLuft defende o uso de modulação contínua para garantir conforto com eficiência energética.
  • Material particulado e VOCs: tanto a diretora da Projelmec, quanto o gerente de marketing da Soler Palau, sugerem estratégias combinadas: reforço na filtragem (recirculação) combinado com aumento da exaustão localizada ou diluição com ar externo. Marques menciona a possibilidade de acionar “purgas de ar” em casos de detecção aguda de VOCs.

Estratégias eficazes e benefícios estratégicos

A eficácia dessas respostas depende da integração de três pilares. Laura Baldissera é enfática: “As abordagens mais eficazes combinam ventilação adequada, filtragem apropriada e monitoramento contínuo. Muitas vezes, melhorias na distribuição e movimentação do ar já produzem impactos significativos na qualidade do ambiente.”

Cristiani Marques acrescenta a importância da visão sistêmica, citando a “implementação de zoneamento inteligente e algoritmos preditivos, que permitem antecipar desvios e atuar antes que se tornem críticos.”

Os benefícios desse controle inteligente vão muito além do conforto. Cardoso lista a melhoria da saúde, aumento da produtividade e redução do consumo de energia como ganhos primordiais. Marques, por sua vez, reforça a conformidade com certificações como LEED e WELL e a capacidade de rastreabilidade dos dados, transformando o ambiente em um “sistema ativo que responde às necessidades humanas.”

A diretora da Projelmec conecta esses pontos ao core business das empresas, especialmente no setor industrial: “Qualidade do ar não é apenas conforto. É saúde, produtividade e estabilidade de processos.”

Evolução tecnológica: sensores, atuadores e UTAs inteligentes

A viabilidade desse novo patamar de controle se deve aos avanços significativos em hardware e software.

A engenheira da BerlinerLuft observa uma evolução exponencial nos sensores, que agora são “multiparamétricos, capazes de medir vários contaminantes simultaneamente”, com maior precisão, estabilidade a longo prazo e custos reduzidos. Isso permite uma densidade de medição antes inviável. Nos atuadores, a evolução caminha para “maior eficiência e modulantes, com controle fino e menor consumo energético.”

Laura Baldissera reforça que os sensores modernos são mais compactos e integrados, enquanto os atuadores, com o uso de variadores de frequência (VFDs) e dampers motorizados, permitem “ajustes mais precisos na movimentação e na distribuição do ar.”

Essa evolução é incorporada de forma contundente nas Unidades de Tratamento de Ar (UTAs). Cristiani Marques destaca que as UTAs evoluíram de “equipamentos essencialmente mecânicos para sistemas altamente inteligentes”, incorporando nativamente:

  • Ventiladores com inversor de frequência.
  • Controle automático de dampers.
  • Monitoramento contínuo de filtros.
  • Integração nativa com sistemas de gestão predial (BMS).
  • Lógicas embarcadas para estratégias avançadas como free cooling e recuperação de energia.

O futuro é preditivo

Ao final, fica clara a direção para onde o setor está caminhando. Cristiani Marques resume um dos pontos mais importantes: a transição de uma abordagem reativa para uma abordagem preditiva. “Com o uso de análise de dados e inteligência artificial, torna-se possível identificar padrões de ocupação, antecipar picos de contaminação e atuar proativamente,” conclui ela.

Para os profissionais de climatização, o recado é claro: o domínio da QAI não está mais restrito ao dimensionamento de cargas térmicas, mas sim na capacidade de integrar sensores, atuadores e lógica de controle para criar sistemas vivos, que respiram e se adaptam. Como bem colocou Laura Baldissera, sintetizando a hierarquia da automação: “Sensor mede, algoritmo decide, mas quem resolve o problema é a movimentação correta do ar.”

Ao dominar essa tríade — monitoramento, decisão e ação — os engenheiros e técnicos estarão prontos para entregar ambientes que não apenas climatizam, mas que promovem ativamente a saúde, a eficiência e a sustentabilidade.

Abre: ID 334488738 | A Ar © AminaDesign | Dreamstime.com

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