
Embora o objetivo global da descarbonização seja essencialmente o mesmo — reduzir emissões de gases de efeito estufa —, as fontes de emissão e, portanto, as estratégias prioritárias no Brasil são diferentes daquelas observadas em países do hemisfério norte. Assim, não é adequado simplesmente copiar soluções adotadas nos EUA ou na Europa sem considerar a realidade energética, climática e econômica brasileira.
Se comparada a matriz de geração elétrica brasileira com as de muitos países do hemisfério norte, certamente o Brasil apresenta menores emissões por kWh elétrico, sendo correto dizer que temos uma matriz elétrica majoritariamente limpa. Contudo, quando analisamos a matriz energética total, que inclui transportes, indústria e uso direto de combustíveis, ainda há participação relevante de fontes fósseis. Isso muda o enfoque, mas não elimina a necessidade de descarbonização.
A adoção de bombas de calor no Brasil, em substituição a soluções baseadas em aquecimento a gás, tem grande potencial de redução de emissões, especialmente porque a eletricidade brasileira possui menor intensidade de carbono. No caso do aquecimento de água para banho, as bombas de calor também podem ser competitivas frente aos chuveiros elétricos, pois apresentam COP superior ao aquecimento resistivo, desde que bem dimensionadas e operando em condições climáticas favoráveis, o que ocorre em grande parte do território brasileiro.
Sem dúvida, a substituição de fluidos refrigerantes é parte importante da solução, pois reduz as emissões diretas associadas a vazamentos e descarte inadequado. Contudo, igualmente importante é reduzir as emissões indiretas, que dependem da eficiência energética dos sistemas, da solução conceitual adotada, do dimensionamento, da instalação e da operação ao longo da vida útil.
A indústria avança nesse sentido por meio de inovações tecnológicas que reduzem irreversibilidades e perdas nos sistemas, tais como: trocadores de calor mais eficientes, compressores de maior desempenho, uso de inversores de frequência, mancais magnéticos, válvulas de expansão eletrônicas, ventiladores mais eficientes e controle inteligente da operação. Também há avanços na redução da carga de refrigerante e na adoção de fluidos de menor GWP.
Nesse aspecto, é importante ressaltar que não há um substituto único adequado para todas as aplicações de fluidos refrigerantes. A escolha depende do tipo de sistema, faixa de temperatura, capacidade, segurança, custo, disponibilidade e eficiência energética. Entre as alternativas mais relevantes estão a amônia, o CO₂, os hidrocarbonetos, os HFOs e algumas misturas de menor GWP. Cada solução possui vantagens e limitações próprias, de modo que a escolha deve ser feita caso a caso.
Por outro lado, a eficiência energética não depende apenas do refrigerante, mas do conjunto formado por fluido, compressor, trocadores de calor, dispositivo de expansão, controle e condições de operação. Em algumas aplicações, refrigerantes de baixo GWP, como amônia, CO₂ ou hidrocarbonetos, podem apresentar excelente desempenho. Em outras, a simples substituição do fluido pode não preservar a eficiência, exigindo reprojeto ou adequação do sistema.
Além dos aspectos citados, é importante destacar que a descarbonização do ACR deve começar pela redução da própria carga térmica e pela busca de soluções de projeto mais eficientes. O sistema deve atender à carga com o menor consumo de energia possível, menor carga de refrigerante, menor risco de vazamentos, menores perdas de carga e boa integração entre projeto, instalação, operação e manutenção. Um projeto eficiente pode perder grande parte de seu potencial se não houver operação adequada, manutenção contínua, comissionamento e gestão ao longo do ciclo de vida.

João Pimenta é doutor pela Universidade de Liège, Bélgica e atua, desde 2002, como professor do quadro da Universidade de Brasília, integrando o Grupo de Energia e Ambiente, além de Coordenador do LaAR (Laboratório de Ar Condicionado e Refrigeração)
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