A NBR 7256:2022 elevou o patamar técnico, mas seu cumprimento efetivo depende de projeto correto, comissionamento rigoroso e, sobretudo, manutenção contínua

O crescimento físico de hospitais e Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS) no Brasil não se mede apenas por mais metros quadrados, mas, acima de tudo, por uma revisão profunda de como os diferentes espaços são climatizados. Para entender essa transformação, ouvimos quatro especialistas que vivem o dia a dia da engenharia de AVAC-R em ambientes de saúde: Nathália Holanda Dantas, engenheira mecânica especialista em climatização hospitalar na Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), mestranda em Ciências Mecânicas pela UnB e Chair do Comitê dos Jovens Engenheiros da Ashrae (YEA); Felipe Niza, Gerente de Engenharia de Aplicação da Trox do Brasil; Adalberto Charnichart, Senior Regional Commercial Director de Applied Products para a América Latina na Johnson Controls; e Márcio Neves, da engenharia das Indústrias Tosi.

Não faz muito, o ar-condicionado hospitalar era tratado, sobretudo, como uma questão de conforto térmico. Isso mudou. Segundo Felipe Niza, “houve uma mudança significativa na concepção dos sistemas AVAC hospitalares” após a pandemia, quando a climatização “passou a ser considerada uma ferramenta fundamental para controle de infecções e segurança assistencial”. Márcio Neves resume o mesmo movimento sob a ótica da fabricação de equipamentos: “superamos aquela fase em que o ar-condicionado hospitalar servia apenas para o conforto térmico. O foco atual é o controle microbiológico rigoroso e a elevação dos padrões de Qualidade do Ar Interior.”

Adalberto Charnichart acrescenta uma camada a essa evolução: a digitalização. “As melhorias nos estabelecimentos assistenciais de saúde passaram a se concentrar em aspectos digitais e operacionais, e não apenas físicos. Historicamente, essas instalações eram fragmentadas em edifícios e departamentos. Hoje, esses complexos estão se tornando mais conectados e inteligentes graças a tecnologias desenvolvidas para melhorar o desempenho, a confiabilidade e a resiliência dessa infraestrutura crítica.”

“Um exemplo são os sistemas integrados com IA e as tecnologias preditivas. Essas ferramentas ajudam as instalações a passar de uma gestão reativa para uma gestão preditiva. A Johnson Controls tem observado nos EUA que a manutenção preditiva baseada em IA se tornou uma das principais prioridades para líderes do setor de saúde: 51% dos gestores de instalações planejam implementá-la, pois ela pode identificar possíveis ineficiências dos equipamentos antes que causem interrupções, aumentando a disponibilidade operacional e prolongando a vida útil dos ativos. Em um exemplo, sistemas baseados em IA reduziram os custos de energia em mais de US$ 5.000 por sala cirúrgica por ano, ou potencialmente US$ 160.000 em todo um complexo hospitalar”, argumenta Charnichart.

“Seja nos EUA, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, o uso da tecnologia para integrar sistemas tradicionalmente separados oferece maior visibilidade sobre os equipamentos, o desempenho energético, a segurança e as operações gerais da instalação, permitindo que as equipes tomem decisões mais informadas e aloquem recursos limitados de forma mais eficaz. Um estudo da Forrester com líderes do setor de saúde constatou que 39% apontam os dados em silos como um problema e 87% observaram melhora na eficiência após investir em tecnologias inteligentes e integrada”, acrescenta ele.

Para  Charnichart, “a qualidade da infraestrutura de saúde depende de uma combinação de sistemas modernizados, conectividade, automação e gestão orientada por dados, mas os investimentos contínuos em integração e na modernização de ativos físicos envelhecidos serão fundamentais para garantir que o crescimento das instalações se traduza em ambientes de saúde realmente mais inteligentes e confiáveis.”

Uma realidade ainda um bocado distante para o Brasil. O que torna compreensível a observação de Nathália Holanda Dantas ao enfatizar que o avanço “acontece com força onde a Norma é efetivamente cobrada em projeto, execução e comissionamento, e permanece desigual em obras de menor porte e em reformas conduzidas sem acompanhamento de engenharia”.

Além disso, a engenheira argumenta que a expansão física nem sempre veio acompanhada de fiscalização à altura. “Como a conferência das instalações costuma ser feita pela área assistencial, e não por engenheiros, ela tende a se resumir a um checklist que verifica a existência do sistema, e não a sua efetividade como equipamento de proteção coletiva. É justamente aí que ainda se encontram, nas redes pública e privada, splits hi-wall em ambientes que não os admitem: o custo elevado dos equipamentos adequados e a necessidade de redundância empurram para soluções inadequadas.”

Nathália exemplifica, por exemplo, que é comum a utilização integrada de splits hi-wall com sistema de ventilação mecânica com filtros adequados para manter os padrões de ventilação e pressão. “O problema dessa solução está em ignorar que o ambiente é um gerador de contaminante e o filtro da unidade interna desses equipamentos não é suficiente para controle. Existe, também, a possibilidade de criação de biofilme, que além de diminuir a eficiência do sistema, torna-se um vetor e fonte de contaminante, espalhando vírus e bactérias.”

“Outro ponto importante nessa consideração, está no controle de umidade que equipamentos residenciais não são capazes de controlar nos níveis exigidos por norma e essenciais para o controle microbiológico. A instalação de DOAS para resolver esse problema poderia tornar o paliativo de integração do hi-wall com ventilação mecânica em um sistema ainda mais oneroso que a instalação adequada”, argumenta ela.

A NBR 7256 como espinha dorsal

Para os quatro entrevistados, a ABNT NBR 7256:2022 é hoje a referência central do setor; mesmo sem força de lei, ela é incorporada por agências reguladoras. Como explica Niza, “uma norma técnica isoladamente não tem o poder de lei, entretanto, agências como a Vigilância Sanitária adotam como parâmetros de exigências o que se estabelece em normas técnicas”. Neves vai direto ao ponto operacional: “essa norma serve como base direta para a fiscalização da Anvisa e para as auditorias das principais certificações de acreditação hospitalar.”

Nathália detalha o alcance normativo: a NBR 7256 “deve ser aplicada tanto a EAS novos quanto a áreas modificadas, modernizadas ou ampliadas de EAS existentes”, sendo invocada pela RDC 50 da Anvisa e pelos contratantes como base de projeto, mas com limites de escopo importantes: não se aplica a áreas administrativas, que seguem a NBR 16401, nem a laboratórios de biocontenção, regidos por manuais próprios.

O executivo da Johnson Controls chama atenção para um ponto, não raro, subestimado: a conformidade não termina na entrega da obra. “Um dos maiores desafios não está apenas no projeto inicial, mas também na manutenção das condições exigidas pela norma ao longo do ciclo de vida da instalação”, afirma, citando saturação de filtros, monitoramento inadequado de pressurização e manutenção insuficiente como causas recorrentes de perda de desempenho.

“Resultado de cerca de oito anos de trabalho técnico e em revisão contínua, a Norma consolidou-se como parâmetro, mas o cumprimento pleno depende de fiscalização e da maturidade do contratante. Onde a fiscalização não é técnica, os parâmetros são adotados no papel, e não necessariamente verificados quanto à efetividade real de contenção biológica. É comum projetos seguirem corretamente os parâmetros, receberem aprovação da Anvisa para execução, mas ao decorrer da obra, com a falta de orçamento, soluções conhecidas como paliativas serem adotadas. Paliativos que se mantém durante toda a vida útil do equipamento ou funcionamento do hospital”, testemunha Nathália.

Pressão, fluxo e barreiras combinadas para o controle microbiológico

Márcio Neves

O núcleo técnico da segurança microbiológica está no controle da direção do fluxo de ar e nos diferenciais de pressão entre ambientes. Nathália sintetiza a lógica: “o ar escoa sempre da área mais limpa para a menos limpa”, com recirculação permitida apenas entre ambientes de mesmo risco e mesma classe de filtragem, e exaustão total — sem recirculação — nos ambientes de maior risco.

Um dado quantitativo relevante trazido por ela: o diferencial mínimo de pressão entre ambientes de risco subiu de 2,5 Pa para 5,0 Pa na revisão da Norma. Ainda que a vazão pelas frestas varie de forma exponencial (0,5) com o diferencial, “o novo patamar favorece um controle mais robusto de contaminantes e reduz o risco de inversão das cascatas de pressão”.

O gerente da Trox reforça que, “em áreas com isolamento respiratório, centros cirúrgicos, UTIs e ambientes especiais […] o controle do sentido do fluxo de ar entre ambientes, obtido pelos diferenciais de pressão, é fundamental para evitar que contaminantes sejam transferidos para áreas adjacentes”. Charnichart destaca que a versão 2022 da Norma “trouxe uma abordagem mais alinhada às práticas internacionais de controle de infecção”, mas adverte: “a simples existência do sistema não garante proteção microbiológica”. Quartos de isolamento e salas cirúrgicas frequentemente perdem o diferencial de pressão de projeto por calibração inadequada ou desgaste de vedações.

Neves descreve a resposta da engenharia de fabricantes: “nós fornecemos equipamentos customizados com ventiladores de alta precisão” para garantir “a pressão positiva necessária em salas cirúrgicas […] ou a pressão negativa essencial em alas de isolamento infeccioso”.

Vale reforçar, para o projetista, o modelo conceitual que Nathália propõe: a pressão de um ambiente não é uma grandeza que se impõe diretamente, mas, sim, consequência do balanço de massa entre insuflação e exaustão/retorno. Como a vazão de insuflamento normalmente é fixa (definida pelo maior valor entre carga térmica, trocas mínimas de ar e requisitos de exaustão), o grau de liberdade para gerar o diferencial de pressão está na exaustão/retorno: retirar mais ar do que se insufla gera pressão negativa; retirar menos gera pressão positiva. Por isso, grelhas de porta não podem ser usadas como fonte de ar de compensação, já que elas transformam uma fresta controlada em um caminho livre, comprometendo o balanço.

Filtragem é um dos pontos de maior impacto da Norma no mercado

A filtragem redesenhou o mercado de equipamentos. De acordo com Niza o impacto foi “desde filtros grossos classe G4 em áreas comuns até filtros absolutos HEPA em salas cirúrgicas”. Nathália detalha a lógica por estágios e ambientes: por exemplo, sala de cirurgia e isolamento AII com recirculação exigem três estágios (G4 + F8 + absoluto ISO 35H/HEPA), enquanto UTI e indução anestésica, classificadas no mesmo nível de risco 1 e 2 conforme o caso, podem exigir apenas dois estágios (G4 + F8), numa evidência de que “o nível de risco, isoladamente, não determina filtragem”.

Nathália alerta: a antiga classificação G4/M5/F8 (EN 779) foi substituída pela ABNT NBR ISO 16890, baseada em eficiências mínimas por faixa de partícula (ISO Coarse, ePM₁₀, ePM₂,₅, ePM₁), sem conversão direta entre as famílias, mas apenas aproximações. Ela conecta esse ponto à NBR 17037:2023, que fixou padrões de qualidade do ar interior que, na prática, “inviabilizam o uso exclusivo de filtros grossos”, acrescentando mais um argumento técnico contra o uso de splits hi-wall em EAS.

Charnichart reforça que “áreas assistenciais convencionais normalmente utilizam dois estágios de filtragem, enquanto áreas críticas, como salas cirúrgicas, quartos para pacientes imunocomprometidos e determinados ambientes especiais, exigem um terceiro estágio de filtragem de alta eficiência com filtro ISO 35H”. Ele chama atenção para um detalhe operacional muitas vezes negligenciado: a eficiência e a vida útil do filtro HEPA dependem diretamente da manutenção adequada dos pré-filtros G4 e F8. Quando esses estágios anteriores são negligenciados, “a vida útil dos filtros de alta eficiência é reduzida, elevando significativamente os custos operacionais”. Neves descreve a resposta industrial: “caixas de filtragem modulares integradas às unidades de tratamento de ar”, com ventiladores dimensionados para vencer a alta perda de carga dos filtros absolutos.

Descarte de filtros saturados

Um aspecto muitas vezes esquecido, mas crítico na operação, é o descarte do material filtrante. Nathália é categórica: filtros saturados de ambientes de risco 2 e 3 e de exaustões contaminadas “devem ser tratados como resíduo de serviço de saúde (RSS)”, seguindo a RDC Anvisa 222/2018 e as normas ABNT NBR 10004/12808, sua remoção deve ser feita com EPI, acondicionamento identificado por grupo de risco, destinação por empresa licenciada com manifesto de transporte e registro no PGRSS e no PMOC. A classificação, alerta, “deve ser sempre confirmada pela CCIH e pela segurança do trabalho, nunca presumida”.

Renovação de ar e o método de cálculo da vazão

A taxa de renovação de ar externo é outro pilar dimensionado pela norma conforme o risco de cada ambiente. Niza lembra que a NBR 7256 diferencia, em seus itens 3.20 e 3.21, “Número de Movimentações de Ar por Hora” e “Número de Renovações de Ar por Hora”, distinção que ganhou peso central durante a pandemia, quando a ventilação passou a ser vista como estratégia direta de redução de risco de transmissão aérea.

Nathália apresenta um princípio de cálculo que todo projetista de AVAC hospitalar deveria dominar: a vazão de insuflação não decorre de um único critério, mas do maior valor entre três: a vazão para atender à carga térmica sensível interna, a vazão para atender ao número mínimo de trocas de ar da norma, e a vazão para repor o ar exaurido e compensar vazamentos ou infiltrações pelas frestas. “Em ambientes pequenos e de baixa carga térmica, é a Norma que passa a governar a vazão”, observa. Isso é o que explica porque salas compactas costumam ter volumes de ar aparentemente desproporcionais à sua carga térmica.

Charnichart ilustra com exemplos práticos de renovações e movimentações por hora — de 5 ACH/25 movimentações em salas de emergência a 2 ACH/4 movimentações em farmácias satélites —, evidenciando como a exigência varia conforme a criticidade assistencial de cada espaço.

Monitoramento de pressão

Sobre como assegurar, na operação diária, que os diferenciais de projeto se mantenham, Nathália defende monitoramento “contínuo, local e centralizado”: dispositivos de leitura local nos ambientes críticos (a norma exige indicador de pressão visível em centro cirúrgico), integrados ao BMS para registro histórico, geração de tendências e disparo de alarmes, “crítico em isolamentos de pressão negativa”. Sensores IoT, segundo ela, ampliam esse monitoramento com acompanhamento remoto e diagnóstico antecipado.

Eficientes, bombas de calor ainda são pouco utilizadas em instalações hospitalares

Quando o domínio da psicrometria é essencial

O controle de umidade relativa aparece nas respostas como um dos pontos mais técnicos e mais sujeitos a erro de especificação. Felipe Niza situa a faixa usual em áreas críticas entre 40% e 60% de UR, equilibrando o risco de proliferação microbiológica (umidade alta) e o desconforto/eletricidade estática (umidade baixa).

Nathália vai além da faixa percentual e chama atenção para um ponto que a maioria dos profissionais menos experientes ignora: a norma acrescenta, em nota, que ao citar UR máxima de 60% recomenda-se um intervalo de umidade absoluta de 4,0 a 10,6 g/kg, “o que exige domínio sobre a psicrometria por parte do profissional AVAC-R”, já que a UR depende da temperatura, enquanto a umidade absoluta é variável independente. No clima brasileiro, predominantemente úmido, “a desumidificação [é] a regra e a umidificação a exceção”, sendo Brasília uma das poucas exceções relevantes. Quando a umidificação é necessária, os critérios são rígidos: água com no máximo 1.000 UFC/L, dreno obrigatório após 24h de inatividade e nenhuma condensação a jusante, “do contrário, o próprio umidificador vira fonte de contaminação”.

Charnichart detalha o mecanismo físico envolvido: a desumidificação ocorre principalmente pela serpentina de resfriamento, processo que “exige um consumo significativo de energia”; daí a importância de tecnologias de recuperação como heat pipes wrap-around, dampers de bypass e rodas dessecantes, além de configurações de chillers com bomba de calor para compensar a energia gasta no resfriamento excessivo do ar. Márcio Neves acrescenta sensores de precisão comandando serpentinas de resfriamento profundo, complementadas por resistência elétrica ou umidificação ultrassônica/vapor limpo quando necessário.

Segurança sanitária sem desperdício

Hospitais operam 24 horas por dia, com altas vazões de ar externo e filtros de alta perda de carga, numa combinação intensiva em energia. O desafio comum a todos os entrevistados é reduzir esse consumo sem comprometer a segurança do paciente.

Felipe Niza lista as principais estratégias: “ventiladores com motores EC, […] controle de vazão variável, inversores de frequência, atenção aos requisitos de estanqueidade de gabinetes, recuperação de energia do ar de exaustão, otimização hidráulica, utilização de chillers mais eficientes e filtros com maior eficiência energética, sem perda de eficiência de filtragem”. Ele cita ainda a Ashrae 90.1 como referência complementar de eficiência energética predial.

Nathália detalha algumas estratégias de projeto: dimensionamento correto evitando super ou subdimensionamento (que penaliza o desempenho em carga parcial); recuperação de energia por rodas entálpicas, placas ou run-around, com dupla serpentina acoplada por bomba de recirculação, como alternativa segura em áreas contaminadas, isolando fisicamente o ar novo do ar exaurido; uso de reaquecimento com água morna para elevar o ΔT do circuito de água gelada; chillers e bombas com inversores seguindo a demanda real; e setback controlado quando a Norma permite, “sem desligar o que mantém assepsia e pressão”. Um ponto que ela sublinha: “todo o ar deve passar pelo elemento filtrante, o by-pass não é solução aceitável em hospital”.

Charnichart insiste na incorporação de tecnologias de recuperação de energia — chillers com operação simultânea de aquecimento e resfriamento, heat pipes e sistemas integrados às UTAs — combinadas a motores de alta eficiência e gabinetes projetados para minimizar perdas de pressão. Neves aponta para sistemas de volume de ar variável, que modulam vazões conforme a ocupação real, e para a possibilidade de uso simultâneo de refrigeração e rejeição de calor.

No entanto, Nathália alerta que a recuperação de energia ainda é questionável. “Para utilizá-la deve-se considerar a contaminação química, microbiológica ou radiológica do ar, principalmente em sistemas que expõem o ar de externo diretamente à mídia ou superfícies por onde passou o ar de exaustão (contaminado), o que pode permitir a contaminação do ar sendo tratado.”

“Mesmo com separação física completa (placas) entre os escoamentos, as vedações entre os escoamentos devem sofrer reavaliações frequentes, para evitar a exposição do ar fresco aos contaminantes e, em caso de contaminações químicas ou radiológicas, as separações podem não conter os contaminantes ao longo do tempo” conclui. Ela lembra, ainda, que em determinados países a recuperação direta de energia não é permitida.

UTAs, fancoletes e a resposta à alta perda de carga

Os requisitos de filtragem e estanqueidade impostos pela Norma forçaram uma reengenharia dos próprios equipamentos de tratamento de ar. Niza descreve UTAs hospitalares modernas com “maior estanqueidade construtiva, painéis com melhor isolamento térmico, superfícies internas lisas e materiais resistentes à higienização frequente”, ventiladores EC e sensores integrados ao BMS.

Nathália aponta um marco tecnológico específico: o surgimento de UTAs built-in hospitalares compactas (1 a 3 TR), oferecidas em versões com água gelada ou expansão direta (VRF), com ventilador plug-fan EC capaz de corrigir a rotação para manter a vazão nominal mesmo com os filtros carregando, inclusive em versões com HEPA terminal (G4+F8+H13) que já declaram, em catálogo, pressão estática suficiente para dispensar caixas de filtragem externas. Segundo ela, essa é “a resposta da indústria à alta perda de carga imposta pela NBR 7256”. (Ver box)

Charnichart menciona selantes de grau alimentício, melhorias de resistência térmica e mecânica dos gabinetes, filtros HEPA capazes de operar com maior velocidade de fluxo e menor perda de carga, e a integração de serpentinas DX com capacidade de bomba de calor. Márcio Neves detalha a linha de produção da Tosi: substituição de motores de polia e correia por plug fans EC de acoplamento direto, gabinetes com painéis de parede dupla e isolamento de alta densidade para eliminar pontes térmicas, e serpentinas de geometria otimizada.

O que se espera de um equipamento hospitalar

Consolidando os requisitos, Niza resume: confiabilidade, segurança sanitária, facilidade de manutenção e menor consumo de energia possível, com construção estanque e materiais resistentes à limpeza frequente. Nathália acrescenta que o equipamento deve comportar os estágios de filtragem exigidos com monitoramento de perda de carga, controlar temperatura e umidade de forma independente, viabilizar o balanço de massa para pressurização, ter construção higiênica e lavável, operar continuamente sem perder assepsia, e ser integrável ao BMS para manutenção preditiva.

Charnichart destaca a importância de sistemas de drenagem bem projetados, para evitar estagnação de condensado e corrosão, e de materiais que não gerem partículas, “evitando soluções como ventiladores acionados por polias e correias ou superfícies com fibra de vidro exposta”. Márcio Neves resume a exigência de mercado como “estanqueidade mecânica absoluta, alta confiabilidade e uma construção focada em biossegurança”.

A eficiência começa na CAG

Da eficiência em carga parcial à descarbonização

Na central de água gelada, tipicamente o maior consumidor de energia do sistema, os avanços têm sido significativos. Niza cita compressores inverter, trocadores de calor mais eficientes, controles inteligentes e refrigerantes de menor potencial de aquecimento global (GWP), com melhoria dos índices COP e IPLV.

Nathália detalha o mesmo movimento com mais granularidade técnica: compressores inverter melhoram o desempenho em carga parcial, quando o chiller passa a maior parte do tempo; compressores magnéticos isentos de óleo oferecem excelente eficiência nessa faixa com menor manutenção; e há migração para refrigerantes de baixo GWP, como R-32 em VRFs e pequenos chillers, e R1234ze em equipamentos de médio/grande porte.

Charnichart alerta para a eficiência de bombas de calor, que podem ser de 3 a 5 vezes mais eficientes que a combinação tradicional de caldeira e chiller, reduzindo custos operacionais em até 50%. Como exemplo concreto, cita o New Aalborg Hospital, na Dinamarca, onde um sistema combinando chillers e bombas de calor “reduziu os custos de eletricidade em 80% e as emissões em até 90%”.

Márcio Neves descreve a aplicação prática desses conceitos: compressores de mancal magnético sem atrito de óleo, inversores de frequência e controle eletrônico que ajustam o consumo de forma proporcional à carga térmica real.

Chillers modulares seriam uma tendência?

Há consenso entre os quatro especialistas de que existe uma tendência de migração para chillers modulares em EAS de médio e grande porte, mas com nuances importantes. Niza observa vantagens de “flexibilidade de capacidade, expansão futura, redundância operacional e melhor gerenciamento energético”, especialmente relevantes onde a continuidade operacional é essencial.

Nathália pondera que a mudança não decorre de uma incapacidade da expansão direta em tratar o ar corretamente, uma vez que existem UTAs built-in de qualidade, com HEPA terminal, que atendem plenamente à norma, mas de um conjunto de fatores de sistema: refrigerante confinado na central (relevante pela inflamabilidade/toxicidade de certos fluidos), melhor comportamento em carga parcial e redundância com economia de escala. Ela cita o caso da Rede D’Or, que adotou chillers modulares com condensação a ar, fluido R-32 e conceito mestre/escravo com BMS por módulo em hospital de São Bernardo, e recomenda cautela quanto a sistemas “escravos” puros, nos quais a retirada do módulo mestre exige um mestre reserva, em favor de arquiteturas modulares nas quais qualquer unidade pode ser retirada sem impacto no restante.

Charnichart traz um contraponto relevante: a substituição “não [é] generalizada”, sistemas DX seguem sendo alternativa eficiente e economicamente viável para clínicas menores, enquanto a água gelada tende a ganhar em hospitais maiores com múltiplas áreas críticas e operação 24/7.

Sobre os benefícios diretos para a qualidade do ar, vale o alerta de Charnichart: “um chiller modular, por si só, não melhora a qualidade do ar interior”, esse resultado depende do desempenho do sistema como um todo (UTAs, filtragem, distribuição, pressurização e BMS). Já Nathália aponta ganhos específicos da água gelada: controle de umidade superior por desumidificação e reaquecimento precisos, eficiência em carga parcial com modulação por módulos e inverter, e estabilidade que se reflete em melhor atuação das serpentinas nas UTAs e fancoils.

Além da eficiência energética, os entrevistados destacam ganhos operacionais recorrentes: redundância (falha de um módulo não compromete o sistema todo), uso racional de espaço técnico, algo escasso em hospitais, escalabilidade para expansões e retrofits, instalação mais ágil e manutenção segmentada por módulo. Neves acrescenta a facilidade logística de transporte de equipamentos compactos em vãos estreitos e elevadores comuns, além da possibilidade de acoplar bombas de calor para produção de água quente sanitária, alinhando o projeto a metas de sustentabilidade.

Do monitoramento reativo à gestão preditiva

Encerrando o panorama, Nathália descreve o papel do BMS como um “cérebro” que coordena os subsistemas com dupla função: conformidade sanitária, monitorando em tempo real pressão diferencial, temperatura, umidade e vazões, com alarme imediato quando um parâmetro sai da faixa, e eficiência energética, sequenciando chillers e bombas por demanda, ajustando setpoints e habilitando free-cooling.

A camada de sensores IoT leva esse controle além do monitoramento tradicional: monitoramento remoto com alarmes em tempo real, coleta massiva de dados analisáveis por IA, manutenção preditiva capaz de antecipar saturação de filtros e deriva de sensores, e comissionamento facilitado de ventiladores, bombas, válvulas e atuadores. Como resume Nathália, “a IoT transforma monitoramento reativo em gestão proativa e preditiva, reforçando ao mesmo tempo a segurança do paciente e a eficiência energética”.

A engenheira da SES-DF é enfática em dizer que a ausência de automação, ou seu mau uso, é perigosa. “Já me deparei com dispositivos de segurança “jumpeados” (pressostatos, fluxostatos, válvulas de alívio) para manter um chiller operando com a automação comprometida: o compressor trabalhava com pressão e temperatura elevadas por longos períodos, arriscando queima e, com gases inflamáveis, até incêndio. Recomendo abordagem gradual, priorizando os ambientes mais críticos e de maior retorno.”

“Além da automação, a observação e conhecimento da equipe técnica é sempre necessária. Um chiller de um laboratório de alta biocontenção teve seu trocador de calor congelado, bem como o compressor, devido não só ao fluxostato jumpeado, que impediu a averiguação de falta de fluxo no trocador, mas o filtro da linha encontrava-se sujo. Esse era o real motivo para a escassez de água. Em um sistema fechado, o único ponto de entrada de sujidades era a caixa d’água, que estava em uma casa de máquinas com cobogós. Esse fato provocou a saturação do filtro, redução de vazão e consequências devastadoras para o chiller. Encontrar a fonte do problema é tão importante quanto o monitoramento e identificação da falha”, alerta ela.

O retrato que emerge converge para um mesmo diagnóstico: climatização hospitalar deixou de ser uma disciplina isolada de conforto térmico e se tornou uma camada de segurança do paciente tão crítica quanto a arquitetura clínica ou a engenharia biomédica. A NBR 7256:2022 elevou o patamar técnico exigido, mas seu cumprimento efetivo — em filtragem, pressurização, controle de umidade e continuidade operacional — depende de projeto correto, comissionamento rigoroso e, sobretudo, manutenção contínua ao longo de todo o ciclo de vida da instalação. O desafio que se coloca não é mais apenas “climatizar com segurança”, mas fazê-lo com o menor dispêndio energético possível, equilíbrio que a nova geração de UTAs, chillers modulares, automação e sensoriamento IoT já demonstra ser tecnicamente viável.

Grau de filtragem por ambiente

Ambiente  Risco Classe de filtragem (insuflação) Observação normativa
Indução Anestésica 1 G4 + F8 (2 estágios) Pré-filtro + filtro fino
UTI 2 G4 + F8 (2 estágios) Pré-filtro + filtro fino
Sala de Cirurgia 3 G4 + F8 + absoluto ISO 35H (HEPA), 3 estágios HEPA terminal na insuflação
Isolamento AII – Com Recirculação 3 G4 + F8 + absoluto ISO 35H (HEPA), 3 estágios HEPA terminal na insuflação
Isolamento AII – Sem Recirculação 3 G4 + F8 (2 estágios) Pré-filtro + filtro fino

Cuidado ao especificar built-in hospitalares

Os equipamentos built-in hospitalares representam, de fato, uma evolução importante para os projetos de climatização em ambientes de saúde. Entretanto, sua aplicação exige uma análise criteriosa das condições de projeto.

Ao avaliar catálogos de alguns fabricantes, observa-se que a pressão estática disponível após o último estágio de filtragem pode limitar significativamente a extensão da rede de dutos, chegando, em determinados modelos, a permitir aproximadamente 10 metros de duto, ou até menos, dependendo das perdas de carga do sistema.

Outro ponto de atenção é a vazão de ar externo disponível, que pode ser insuficiente para atender aos requisitos de diversos ambientes contemplados pela ABNT NBR 7256:2022.

Assim, não basta verificar apenas a capacidade térmica e a vazão nominal do equipamento. É fundamental avaliar também a pressão estática disponível, a filtragem, a vazão mínima de ar externo e as perdas de carga da rede. Caso contrário, para viabilizar o sistema projetado, pode ser necessária a instalação de ventiladores adicionais, alterando a concepção inicialmente proposta.

Built-in hospitalar pode ser uma excelente solução, mas não necessariamente uma solução completa para qualquer aplicação hospitalar. (Nathália Holanda Dantas)

Crédito da foto de abertura: ID 30588884 © Spiroview Inc. | Dreamstime.com

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