
Todas as alternativas ao HCFC apresentam alguma debilidade em relação a ele, considerando apenas sua eficiência
Em 2030 o Brasil deixará de importar o R-22, um refrigerante desenvolvido para substituir os CFC, de alto potencial destrutivo da camada de ozônio. No entanto, logo viu-se que as novas substâncias possuíam, também, forte impacto ambiental, contribuindo para o aquecimento global. Não há como negar que, dadasas suas várias características, dentre as quais a eficiência e a adaptação às condições de trabalho, nenhum dos substitutos, até o momento, consegue preencher as vantagens que ele oferece.
“Se excluirmos os aspectos relacionados à camada de ozônio, o mercado perderá o fluido refrigerante mais eficiente e adaptado às condições de trabalho dos equipamentos e sistemas de refrigeração, tudo em função das suas características termodinâmicas, custo acessível, excelente distribuição no território nacional, capacitação técnica dos profissionais e por ser uma substância classe A1. Quaisquer das alternativas que estão sendo aplicadas, ou sendo desenvolvidas para serem utilizadas no futuro próximo, perdem algo em relação ao R-22”, sentencia Rogério Marson Rodrigues, Gestão Industrial SMR na Eletrofrio e membro do Conselho Editorial da revista Abrava+Climatização& Refrigeração.
Além dos impactos estratégicos, existe uma situação de médio e curto prazo com grande influência sobre o mercado. “Este ano de 2025 já tivemos um corte de 67,5%, já estamos sentindo o impacto de preços, comparado a 2024,em cerca de 40% maior; entretanto, ainda não sentimos a falta de produto no mercado, mas acredito que ainda no segundo semestre começaremos a sentir sua falta.O impacto é enorme, pois hoje temos, por exemplo, mais de 90 mil supermercados, 60 mil padarias, mais de 5 mil redes de fast food espalhados no Brasil que ainda são grandes usuários do R-22”, afirma Paulo Neulaender, diretor da Frigga.
Mas, há o que comemorar. Pelo menos na avaliação de Vanessa Ortiz Ferreira, da área de marketing da RLX Fluorochemicals. “A proibição da importação do R-22, prevista para 2030, representa um marco importante para o mercado de refrigeração no Brasil. Como ainda é amplamente utilizado, especialmente em sistemas antigos de ar-condicionado e refrigeração comercial, essa mudança trará impactos significativos tanto para os consumidores quanto para os profissionais do setor. A transição para alternativas será inevitável, exigindo planejamento, conhecimento técnico e soluções confiáveis.”
Empresas se preparam
Independente das avaliações, o fim das importações e, logo, o fim do R-22 é inevitável. Como diz Neulaender, o primeiro impacto será econômico. E, principalmente, os fabricantes já desenharam suas estratégias.
“Grande parte dos fabricantes de máquinas e equipamentos de refrigeração já possuem alternativas ao uso do R-22, e muitos deles deixaram de utilizar este fluido há alguns anos. Os usuários finais que ainda possuem equipamentos e sistemas de refrigeração com R-22, como muitos supermercados, por exemplo, estão aguardando uma efetiva elevação do custo do produto para tomar alguma decisão a respeito. Na refrigeração comercial brasileira, estima-se milhões de quilos de R-22 ainda em uso, demandando retrofit ou a substituição por equipamentos novos”, pondera Marson Rodrigues.
Essa não é uma opinião unânime. “Em geral as empresas estão mal preparadas, como sempre, tem que acabar para o mercado procurar soluções; creio que no máximo 30% deste mercado está atento, o restante não”, arrisca Neulaender.
“O desafio no Brasil é ainda maior devido à ampla base instalada de sistemas que utilizam o R-22, o que pode gerar um aumento significativo nos custos operacionais com trocas de equipamentos ou retrofit. Apesar disso, o mercado já começa a se mover em direção a soluções mais acessíveis, como os refrigerantes drop-in, que permitem a substituição direta do R-22 sem grandes modificações nos sistemas, reduzindo custos e tempo de adaptação”, rebate Ferreira, da RLX.
Do lado dos usuários, tampouco existe inércia, ao menos em relação aos grandes consumidores, mesmo que a decisão não conduza, necessariamente, para sistemas mais eficientes. “Muitos usuários finais já deixaram de aplicar o R-22 quando da aquisição de equipamentos e sistemas de refrigeração novos. Resta tomar a decisão sobre o que fazer com o R-22 em operação, resultante de projetos mais antigos. Cada segmento da refrigeração nacional, comercial ou industrial, terá preparação e caminhos distintos a seguir, porém, a substituição por algum HFC, de alto GWP e alto consumo de energia, será o caminho mais rápido e de menor custo inicial”, acredita o executivo da Eletrofrio.
- Rogério Marson Rodrigues
- Paulo Neulaender
De certa maneira, essa é também a avaliação de Neulaender, cujo negócio tem maior proximidade com pequenos e médios consumidores. “A preparação para a substituição nesse segmento é péssima, a maioria não está preparada e é desinformada, neste caso, 90% estão nesta situação que comentei.”
Obviamente, no lado dos fornecedores de equipamentos e sistemas, a realidade é bem diferente. “Na Eletrofrio, o último sistema de refrigeração com R-22 foi montado no ano de 2017, ou seja, há mais de 6 anos que não aplicamos este tipo de fluido refrigerante em equipamentos novos. A empresa já consolidou a eliminação da aplicação deste fluido em todo portifólio”, esclarece Marson Rodrigues.
Em linhas gerais essa é, também, a avaliação de RLX. “Observamos que, após a publicação da resolução sobre a eliminação gradual do R-22, houve um movimento inicial significativo entre as empresas, especialmente no que diz respeito ao conhecimento sobre alternativas e à adaptação dos sistemas. Contudo, acreditamos que muitas ainda não se organizaram da forma esperada e não avançaram tanto quanto o necessário para garantir uma transição eficaz”, diz Ferreira.
Elevação dos preços forçará a mudança?
Como disse Neulaender, os preços já têm disparado no mercado de reposição. Esse movimento só tende a acentuar. “Grande parte dos usuários de equipamentos e sistemas de refrigeração com R-22 sabem que, em breve, o custo do produto vai subir em função da redução da oferta. Eles aguardam este evento ocorrer para então tomar as providências de retrofit do fluido ou para a substituição por outra solução de equipamento”, pontua Marson Rodrigues.
“Nossa loja, a Frigga, vem orientando nossos clientes no sentido de que já existem substitutos para retrofit, com fácil aplicação e custo mais baixo, assim como orientando nas questões ambientais (recolhimento e reciclagem), além de já alertar para o congelamento das importações.Os preços já estão subindo, mas opior é que teremos um grande buraco de fornecimento no setor que,infelizmente, está despreparado e mal-informado. Somos grandes usuários de R-22 para manutenção,principalmente na refrigeração comercial estimo ainda hoje um consumo de 300 ton/mês”, entende Neulaender.
Na condição de fornecedora do insumo, a RLX constrói uma avaliação mais abrangente, segundo Vanessa Ortiz Ferreira.“Acreditamos que, embora muitas empresas já estejam cientes do impacto do fim das importações do R-22, o nível de conscientização sobre o aumento dos custos futuros varia bastante entre elas. De um lado, empresas que já começaram a adotar alternativas, como refrigerantes drop-in, estão cientes de que a escassez do R-22 provavelmente levará a um aumento nos preços desses substitutos, principalmente à medida que a demanda por soluções alternativas cresce. Essas empresas já estão tomando as medidas necessárias para adaptar seus sistemas e se preparar financeiramente para esse aumento de custos.
“Por outro lado, algumas empresas, especialmente as que ainda não começaram o processo de adaptação, podem não estar totalmente conscientes do impacto financeiro que o fim das importações terá, tanto em relação ao preço dos refrigerantes alternativos quanto aos custos operacionais associados ao retrofit ou à substituição de sistemas inteiros. Isso é particularmente preocupante, pois muitas dessas empresas podem estar focadas apenas no custo imediato de manutenção de seus sistemas antigos e não nas implicações de longo prazo com a escassez do R-22”, alerta a executiva.
O que esperar do futuro
“O aumento do custo de aquisição e operação de máquinas e sistemas de refrigeração será a consequência direta deste processo de redução e eliminação do uso do R-22, mas é um processo irreversível e que vale para todos os agentes deste setor. Conhecer as alternativas e planejá-las com o tempo adequado de execução é a ação mais sensata a fazer durante esta fase final do período de transição”, recomenda Marson Rodrigues.
“Temos, de forma urgente, fazer com que os usuários do R-22 se preparem para as mudanças, com informação,treinamento e parceria com outras associações, como Apas e Abras.Se deixarmos para a última hora, não teremos fluidos alternativos suficientes em estoque e mão de obra preparada, pois não basta trocar o equipamento ou fluido, temos que destinar de forma correta o R-22 recolhido, caso contrário o meio ambiente será afetado, tanto na questão da camada do ozônio, como do aquecimento global”, conclui o diretor da Frigga.
“A proibição das importações de R-22 em 2030 terá um impacto significativo no mercado de refrigeração, afetando fornecedores, empresas usuárias e consumidores finais. A escassez do R-22 e a crescente demanda por refrigerantes alternativos exigem uma adaptação rápida e eficaz, principalmente em relação aos custos e à transição tecnológica”, corrobora Ferreira.








