AVAC-R deixou de ser um coadjuvante na agenda climática para se tornar um agente central na construção de um futuro resiliente, saudável e justo

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, em Belém, consolidou-se como um marco histórico para o setor de Aquecimento, Ventilação, Ar-Condicionado e Refrigeração (AVAC-R). E a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), representada pelo seu Diretor de Meio Ambiente, Thiago Pietrobon, esteve no epicentro das discussões, não apenas como observadora, mas como protagonista na defesa da climatização como pilar fundamental da justiça climática e da saúde pública.

Num contexto global de tensões políticas, obstáculos ao financiamento climático e incertezas geopolíticas, a COP30 enfrentou o desafio de avançar na agenda prática do clima. Foi nesse cenário que o resfriamento emergiu com força inédita, sendo formalmente reconhecido como um direito humano básico, equiparado ao acesso à água, energia e saneamento. Declarações de lideranças como Inger Andersen (Diretora Executiva do PNUMA/ONU), Marina Silva (Ministra do Meio Ambiente do Brasil) e Ana Toni (CEO da COP30) ecoaram esse novo paradigma, que redefine completamente a missão e a responsabilidade social do setor de AVAC-R.

O resfriamento na agenda Global

A agenda acompanhada pela Abrava destacou-se por sua profundidade e conexão direta com as necessidades brasileiras e globais. O lançamento do Global Cooling Watch Report trouxe dados atualizados sobre a crescente demanda por resfriamento e a imperativa necessidade de eficiência. Paralelamente, o Mutirão Global contra o Calor Extremo (Beat the Heat) traduziu os objetivos da COP30 em ação concreta, focada em comunicação acessível e inclusão, reforçando que o acesso ao conforto térmico é uma questão de equidade.

Dois pontos merecem especial destaque pela sua relevância estratégica:

  1. Climatização de escolas como prioridade nacional: A defesa da climatização de ambientes educacionais ganhou força como medida urgente de adaptação ao calor extremo. Esta pauta, amplamente discutida, posiciona o setor de AVAC-R como agente essencial para garantir condições dignas de aprendizado, combater a evasão escolar em dias de calor intenso e proteger a saúde de crianças e profissionais da educação. É um exemplo prático de como a tecnologia do setor promove justiça climática e resiliência urbana.
  2. A Carta de Belém e a Nexus Clima-Saúde: A publicação da Carta de Belém, um documento internacional com diretrizes para a adaptação do setor de saúde às mudanças climáticas, elevou o debate. Ao incluir a qualidade do ar interior como fator crítico para a saúde pública, a carta valida e amplia o escopo de atuação dos profissionais de AVAC-R. Hospitais, clínicas e unidades de saúde eficientes e com ar interior controlado são infraestruturas de vida, diretamente ligadas à capacidade de resposta do sistema de saúde frente a eventos climáticos extremos.

Eficiência energética e planos de ação

A agenda técnica da COP30 também reservou espaço crucial para temas caros aos engenheiros e técnicos. A eficiência energética foi debatida em um dia completo no Pavilhão da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e em painel no Pavilhão dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Esses espaços destacaram que a otimização energética não é apenas uma opção, mas a espinha dorsal da descarbonização do setor.

Da mesma forma, os debates sobre Planos de Ação para a Redução dos Poluentes Climáticos de Vida Curta (PCVCs), como os HFCs, realizados no Pavilhão da Climate and Clean Air Coalition (CCAC), reforçaram a importância da transição para refrigerantes de baixo GWP (Potencial de Aquecimento Global). Essas discussões estão alinhadas com as regulamentações nacionais e internacionais e apontam para as oportunidades de inovação e retrofit que se avizinham para o mercado.

Caso prático: Aeroporto de Belém como Legado da COP30

A própria infraestrutura que recebeu os delegados mundiais serviu como cartão de visitas do potencial transformador do setor. O Aeroporto Internacional de Belém passou por um amplo retrofit em seu sistema de climatização, tornando-se um símbolo do legado técnico da conferência.

Com projeto desenvolvido em tempo recorde, a instalação de dois chillers parafuso de 500 TR cada, alimentando 24 fancoils estrategicamente posicionados, garantiu conforto térmico e acústico superior. O sistema de água gelada proporciona eficiência energética (com economia estimada em 25% frente a sistemas convencionais), operação silenciosa e controle inteligente, mantendo temperatura e umidade estáveis mesmo com o calor amazônico externo. Este projeto não apenas melhorou a experiência do usuário, mas demonstrou como soluções de AVAC-R de alta performance são viáveis e essenciais para infraestruturas críticas em climas desafiadores.

Compromisso setorial

Para Thiago Pietrobon, que acompanhou de perto toda a agenda, a COP30 em Belém foi palco da complexa diplomacia climática mundial. Dez anos após Paris, a conferência garantiu avanços práticos, como a triplicação de recursos para adaptação até 2035 e a criação de indicadores para medir a resiliência dos países. A “transição justa” consolidou-se como eixo central.

“Para o setor AVAC-R, a COP30 foi histórica”, afirma Pietrobon. “O reconhecimento do resfriamento como direito humano e os avanços na relação clima-saúde evidenciam o papel estratégico que devemos assumir. Os compromissos da Carta da ABRAVA para a Presidência da COP30, validados pelo setor no último Conbrava, mostram que estamos na vanguarda das discussões. Nosso foco em Segurança Alimentar (cadeia do frio), Qualidade do Ar Interior e Descarbonização é a tradução prática do acordo climático global para a realidade brasileira.”

Climatização responsável

A participação da Abrava na COP30 reafirmou que o setor de AVAC-R deixou de ser um coadjuvante na agenda climática para se tornar um agente central na construção de um futuro resiliente, saudável e justo. O caminho traçado em Belém exige dos engenheiros, técnicos e empresas uma atuação pautada pela eficiência extrema, pela inovação em refrigerantes e pela visão ampla do impacto social de seu trabalho.

Climatizar escolas, hospitais e espaços públicos não é mais um luxo, mas uma obrigação técnica e ética. A descarbonização das edificações por meio de sistemas de alta performance não é uma tendência de mercado, mas uma necessidade planetária. A Abrava, ao articular essas demandas globais com as possibilidades locais, segue liderando a transformação do setor, assegurando que o conhecimento técnico brasileiro contribua decisivamente para enfrentar os maiores desafios climáticos e sociais de nosso tempo.

Thiago Pietrobon

 

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