Ferramenta pode dar grande impulso à criatividade dos projetos de AVAC, liberando  o profissional das tarefas repetitivas, mas deve ser usada com cuidado e, acima de tudo, ética e responsabilidade.

A revolução digital chegou às mesas de projeto. Para o engenheiro de AVAC-R, cujo trabalho é um intricado equilíbrio entre física, normas, criatividade e pragmatismo, a Inteligência Artificial (IA) deixa de ser uma abstração distante para se tornar uma realidade cotidiana e transformadora. Mas que transformação é essa? Uma ameaça existencial ou a maior alavanca de produtividade e inovação já vista na área?

Para entender os impactos profundos e multifacetados da IA, ouvimos profissionais que estão na linha de frente: da academia ao mercado, da aplicação cautelosa à reflexão crítica mais severa. Este artigo sintetiza suas visões, oferecendo um mapa para navegar pelos benefícios, riscos, aplicações práticas e limites éticos dessa nova fronteira tecnológica.

Libertação criativa ou commoditização da expertise?

A visão consensual entre os especialistas é que a IA atuará, inicial e fundamentalmente, como um potente descarregador de tarefas repetitivas. Francisco Pimenta, projetista e diretor da Climatizar, e Francisco Dantas Filho, também projetista e diretor da Interplan Planejamento Térmico Integrado, convergem ao afirmar que a automação de cálculos massivos, simulações e geração de documentação liberará um recurso escasso e precioso: o tempo do projetista. “Liberando tempo para as atividades mais customizadas que exigem reflexão e criatividade”, destaca Dantas Filho.

O projetista Anderson Rodrigues, diretor da gaúcha Artécnica, leva a análise a um patamar mais estratégico e contundente. Ele enxerga um impacto “brutal e ambivalente”. No lado positivo, uma “revolução na produtividade”, com a integração de dados de BIM e IoT em níveis antes impensáveis, permitindo que o profissional foque “mais na concepção, na criatividade e na solução de problemas complexos”. No entanto, ele lança um alerta sombrio: “O impacto mais profundo e perigoso é a transformação da nossa própria expertise em commodity”. O risco, segundo ele, é que a IA, alimentada pelo conhecimento extraído de milhares de profissionais, se torne um concorrente que desvaloriza o “know-how tácito, aquele que se adquire com anos de experiência prática”.

João Pimenta, professor da Escola de Engenharia da Universidade de Brasília (UnB), oferece uma perspectiva temporal clara. No médio prazo, a IA democratizará ferramentas avançadas, como simulações computacionais de CFD e desempenho energético. No longo prazo, vislumbra um cenário onde a IA poderá gerar “um projeto executivo completo”, redefinindo o papel do projetista para um “coordenador/gestor”, cuja função principal será avaliar, ajustar e validar as soluções propostas pela máquina.

Eficiência radical e decisões mais informadas

Quando detalham os benefícios, os especialistas pintam um quadro de ganhos significativos:

  • Eficiência e produtividade exponenciais: A palavra “tempo” é central. João Pimenta aponta que a IA oferece “respostas quase instantâneas” a questões complexas, combatendo a cultura de “cronogramas apertados” que força a adoção de soluções padrão por falta de tempo para inovar. Anderson Rodrigues fala em “simulações dinâmicas, que hoje levam dias, poderão ser feitas em horas”, permitindo testar milhares de cenários.
  • Otimização integrada e multidimensional: A IA pode buscar o ponto ótimo que equilibra variáveis conflitantes. Francisco Dantas Filho cita a “maximização dos resultados com a adoção de critérios de economicidade”, como no traçado otimizado de dutos. Rodrigues complementa: “Encontrar o ponto ideal entre custo inicial, eficiência energética, conforto térmico e manutenibilidade”.
  • Qualidade e previsibilidade aumentadas: A detecção precoce de falhas em modelos BIM, a consistência no dimensionamento e a capacidade de realizar análises sofisticadas sem depender exclusivamente de um especialista específico elevam a robustez do projeto. “Aumentam a segurança no cumprimento das metas”, afirma o professor da UNB.
  • Apoio documental e de conformidade: Francisco Pimenta e outros citam a geração rápida de relatórios, memoriais e a verificação de conformidade com normas como benefícios diretos que reduzem a carga burocrática.

Contudo, Rodrigues insere uma crucial advertência: “O ‘benefício’ só é real se a ferramenta de IA for ética, transparente e desenvolvida com dados legitimamente adquiridos”. Benefícios obtidos sobre a exploração do conhecimento coletivo sem consentimento são, em sua visão, uma ameaça à sustentabilidade da profissão.

Ferramenta auxiliar, nunca oráculo

A adoção já é uma realidade, mas marcada por cautela e estratégias defensivas. Todos os entrevistados utilizam IA, porém com escopos e regras bem definidos.

  • Tarefas genéricas e de suporte: Revisão de textos, reestruturação de documentos, geração de cronogramas básicos e pesquisa para síntese de tópicos técnicos são usos comuns, como relata Anderson Rodrigues.
  • Análise e processamento de dados internos: Há uma preferência por usar IA para analisar dados próprios e históricos de projetos, identificando padrões, conforme Rodrigues menciona, ao invés de gerar projetos “do zero”.
  • Ferramentas específicas e embarcadas: Francisco Dantas Filho cita soluções que comparam versões de arquivos e dimensionam redes, usando padrões visuais para destacar problemas. A preferência, para muitos, são plug-ins em softwares consagrados (como Revit), onde os dados permanecem em ambiente controlado.
  • Validação cruzada rigorosa: Este é o ponto unânime. “Qualquer sugestão ou resultado de uma ferramenta de IA é submetido a um escrutínio minucioso”, enfatiza Rodrigues. A IA é vista como um assistente que pode errar com convicção, exigindo verificação constante contra normas, catálogos e, acima de tudo, o bom senso e a experiência do engenheiro. Como resume Francisco Pimenta, a intervenção e interpretação humana são irrevogáveis, sob pena de o processo se tornar “maléfico”.

Responsabilidade, contexto e ética

Aqui reside a parte mais crucial da discussão para o profissional. Os limites da IA não são apenas técnicos, mas fundamentais para a prática ética e responsável da engenharia.

  1. A responsabilidade técnica é intransferível: Este é o limite absoluto. “O CREA não vai aceitar ‘a IA que errou’ como justificativa. A IA não assina ART”, alerta Anderson Rodrigues. A ferramenta é assistiva, nunca delegativa. A responsabilidade final, civil e profissional, é sempre do ser humano que a utiliza.
  2. A falta de contexto e juízo: A IA lida bem com dados, mas não compreende nuances. Francisco Pimenta aponta sua dificuldade com “contextos específicos de obra” e “particularidades arquitetônicas”. Rodrigues é taxativo: “IA treinada com dados globais falha miseravelmente na especificidade brasileira”. Ela não entende a realidade do canteiro, a instabilidade da rede elétrica ou a criatividade necessária para resolver um problema imprevisto. “A IA não tem julgamento, intuição ou capacidade de negociação humana”.
  3. Riscos de inconsistência e “alucinação”: João Pimenta lembra que as respostas podem ser inconsistentes, com erros ou invenções de dados (“alucinações”). Francisco Dantas Filho adverte: “A maioria das plataformas prefere responder qualquer coisa a deixar o usuário sem respostas”.
  4. A barreira ética e da propriedade intelectual: Para Rodrigues, este é “o maior limite”. Utilizar sistemas treinados com dados extraídos sem consentimento ou remuneração dos próprios profissionais é “eticamente inaceitável e um risco jurídico”. A sustentabilidade do ecossistema depende do respeito à inteligência humana que alimenta essas máquinas.
  5. Segurança de dados e soberania: Projetos são patrimônio intelectual e dados sensíveis. Inseri-los em plataformas de nuvem não confiáveis, como alerta Rodrigues, é um risco de “vazamento industrial e espionagem”.

A serra elétrica e o artesão

A metáfora final de Anderson Rodrigues é perfeita e define o momento: “A IA é uma serra elétrica: pode acelerar um trabalho ou amputar um membro. O impacto final não depende da ferramenta, mas de quem a controla”.

O futuro do projetista de AVAC-R não está em ser substituído, mas em ser potencializado. A IA é a serra elétrica que libera o artesão do trabalho bruto com um formão, permitindo que ele dedique sua expertise, criatividade e julgamento ao desenho fino, à solução de problemas únicos e à gestão de projetos cada vez mais complexos.

No entanto, isso exige uma postura ativa. O profissional deve: a) dominar a ferramenta, entendendo seus princípios e limitações; b) adotar uma postura crítica permanente, auditando e validando todos os seus outputs; c) defender a ética e a propriedade intelectual, escolhendo ferramentas transparentes e reivindicando regulamentação; e, d)m investir ainda mais no que é humano: experiência prática, julgamento de valor, criatividade para soluções inéditas e a compreensão profunda do contexto local.

A IA veio para ficar. O desafio, como bem resumiu Rodrigues, não é apenas aprender a usá-la, mas “lutar para que ela não use a gente como recurso descartável”. Ao fundir a produtividade brutal da máquina com a inteligência, a ética e a responsabilidade do engenheiro, podemos, sim, construir um futuro de projetos mais eficientes, inovadores e bem-sucedidos. A ferramenta está em nossas mãos; cabe a nós definir o corte.

Crédito da foto http://www.dreamstime.com/royalty-free-stock-photos-futuristic-industrial-pipeline-digital-interface-generative-ai-image-depicts-high-tech-glowing-ideal-representing-image321698378

 

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