As principais diretrizes da Ashrae, da Abrava e da Smacna para atender a QAI são anteriores à pandemia e continuam sendo muito importantes na realização de projetos e instalações de sistemas de ar-condicionado. Com a pandemia um “alarme” dos riscos que a má qualidade do ar interior pode causar na saúde das pessoas foi emitido! E, sim, tivemos atualizações de orientações, com destaques para pontos importantes como renovação de ar, filtragem de ar e manutenção. Em termos de orientações, a proposição mais contundente é a nova Norma Ashrae 241: -2023 – Control of Infectious Aerosols, que propõe requisitos mínimos para o projeto, instalação, operação e manutenção de sistemas de AVAC em edifícios existentes e em novas construções. Ela apresenta propostas de redimensionamento de condições de vazão de ar exterior e de filtragem para um sistema que tenha um patamar de operação extra, emergencial, para atender situações similares a uma nova “pandemia”, de modo que esta condição de operação possa reduzir o risco de contaminação pessoa a pessoa no ambiente.

Após a pandemia a sociedade ficou mais atenta às questões que relacionam ar de qualidade à saúde. Mas avalio que há necessidade de investirmos intensamente na divulgação de boas informações que possam provocar um processo educativo nos consumidores e nos empreendedores que definem a aquisição de sistemas de tratamento de ar.

Fabricantes e projetistas precisam evoluir de modo a oferecer novas alternativas para equipamentos e instalações AVAC que proporcionem QAI com bons resultados em termos de energia, saúde e conforto. Oferecer sistemas flexíveis, com maior vazão de ar exterior e melhor filtragem para períodos determinados, pode trazer excelentes oportunidades para novos projetos e equipamentos. Estes sistemas de tratamento de ar devem ser integrados a dispositivos que monitoram a Qualidade do Ar Interior e o Ar Exterior, possibilitando tomar decisões durante as condições de operação. A medição de parâmetros relacionados à QAI em tempo real, com a divulgação destes dados para os usuários vai colaborar muito para a informação e educação dos ocupantes.

No Laboratório de Estudos da Qualidade do Ar Interior (LEQAI), da Escola Politécnica da USP, estamos implantando um sistema deste tipo aplicado a uma sala de aula-laboratório. Com equipamentos sofisticados, que permitem operação flexível, com mudança da vazão de ar exterior e das condições de filtragem tanto no ar exterior como no ar de retorno, de modo independente, pretende-se indicar condições ótimas para a garantia da QAI. Estes equipamentos estarão integrados com detalhada monitoração do ambiente interior e exterior, que determinará quantos ocupantes estão na sala e quais concentrações de amplo espectro de poluentes estão presentes na sala a cada instante. Também, com uma estação de monitoração do Ar Exterior, pode-se definir a melhor filtragem e a condição de vazão para este ar exterior.

A variação das condições de operação implica na alteração do uso de energia elétrica, que pode ser maior em períodos de pior QAI e de maior risco de transmissão de doenças, podendo ser menos no contexto inverso.

O que precisa ser mudado é a realidade de como ocorrem a aquisição, a implantação e o uso de equipamentos de ar-condicionado individuais. Estas soluções de equipamentos unitários, do tipo split, sem a associação com unidades de renovação de ar, sem filtragem adequada, sem utilização nas condições corretas de operação, especialmente em ambientes e locais de uso coletivo, precisam ser mudadas radicalmente.

Por outro lado, avalio que com mais informação, maior educação de todas as pessoas, especialmente aquelas que frequentam ambientes com uso coletivo, teremos melhores perspectivas e melhor qualidade no ar interno. Isto pode ocorrer com a monitoração de múltiplos parâmetros relacionados ao ar e com o acesso à estas informações especialmente para os usuários. Desta forma teremos ambientes com melhores soluções, com boas condições de operação dos equipamentos para obter alcançar a QAI no futuro.

As tecnologias fundamentais que garantem a QAI para um ambiente interno saudável de modo comprovado, avaliadas há mais de 100 anos, são aquelas que garantem a renovação de ar e a filtragem do ar. Novas soluções com unidades de renovação de ar, caixas de ventilação que possam receber filtros de ar com maior eficiência, estão sendo propostas por fabricantes. O uso de ventiladores operando com vazão variável, junto com a monitoração de parâmetros da QAI no ambiente interior, e o conhecimento da condição no ambiente exterior, podem definir a necessidade de renovação em cada momento da operação. Filtros de ar com menor perda de pressão e maior eficiência de filtragem estão sendo oferecidos no mercado.

A filtragem pode ser variável em função das condições dos poluentes, da presença de particulados no meio exterior e no meio interior. Hoje entende-se que o particulado fino, representado pelas partículas identificadas como PM2.5, são indicadoras de QAI e da eficiência de filtragem, pois estas partículas têm alto potencial de prejuízo à saúde. Manter a concentração deste particulado (PM2.5) abaixo de 15 mg/m3 nos ambientes interiores pode ser uma boa meta para o momento atual. Assim, para uma dada aplicação, deve-se verificar qual a solução de filtragem do ar que resulta em boas condições para um ar monitorado por dispositivos de medição de QAI.

 

 

Antonio Luis de Campos MarianiProfessor do Departamento de Engenharia Mecânica e Coordenador do LEQAI – Lab. Estudos da Qualidade do Ar Interior da Escola Politécnica da USP

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