Eficiência energética é um quebra-cabeça no qual todas as peças precisam se encaixar perfeitamente

A busca pela eficiência energética em sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado (AVAC) deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade estratégica. Diante de custos de energia em ascensão e uma maior pressão por práticas sustentáveis, engenheiros e técnicos do setor estão constantemente em busca de soluções para otimizar o desempenho das instalações. Para elucidar as principais medidas e tendências, especialistas apontam que a resposta está na tríade: projeto preciso, componentes de qualidade e controle inteligente.

A pergunta fundamental é: por onde começar a busca por um sistema mais econômico?

Para Jairo Alfonsin Cardoso, gerente de marketing da Soler Palau Brasil, a resposta é multifacetada, porém, clara. “Dimensionamento correto da carga térmica, evitando superdimensionamento”, é o primeiro passo, afirma. Ele complementa listando outras ações cruciais: “Automação para ajuste do sistema de climatização, conforme ocupação e horário e a manutenção periódica (limpeza de serpentinas, filtros e torres de resfriamento), sem esquecer do isolamento térmico adequado de dutos, tubulações e ambientes”.

Esta visão é compartilhada e aprofundada por Laura Baldissera, diretora da Projelmec, que defende que a base de tudo é um projeto que elimine o chamado “efeito sistema”. “A primeira e mais decisiva medida é garantir que a instalação não apresente ‘efeito sistema’. Sistemas bem projetados e bem executados consomem menos energia porque operam de forma previsível, com componentes trabalhando em harmonia dentro do ponto ideal de rendimento”, explica.

Baldissera detalha os problemas gerados por uma concepção deficiente. “Sistemas com dutos mal dimensionados, curvas acentuadas, filtros subdimensionados ou ventiladores mal selecionados geram turbulência, aumentam as perdas de carga e comprometem o desempenho de todo o sistema. Equipamentos fora do ponto, operando em regime caótico, consomem mais, desgastam-se mais rápido e oferecem conforto térmico inferior”.

A especialista também faz distinções entre as tecnologias: “Em expansão direta, é fundamental o uso de compressores com controle de capacidade, automação inteligente e manutenção constante de filtros e trocadores. Em sistemas de água gelada, além da automação e da escolha de chillers com bom IPLV, o balanceamento hidráulico, o controle de vazão e a qualidade dos componentes da rede são cruciais”.

O Impacto da ventilação no consumo energético

Frequentemente subestimada, a ventilação possui uma relação direta e significativa com a eficiência do ar-condicionado. Cardoso é direto: “Quando mal dimensionada, pode elevar significativamente o consumo de energia do sistema. Por outro lado, quando bem projetada, com recuperação de calor, sensores de CO₂ etc., pode reduzir a necessidade de climatização desnecessária e melhorar a eficiência do sistema”.

A diretora da Projelmec corrobora e explica a dinâmica por trás desse impacto. “A ventilação e a exaustão exercem influência direta sobre o consumo energético dos sistemas de climatização. Quando mal projetadas ou subestimadas, obrigam o sistema a compensar pressões indesejadas, recalques ou fluxos cruzados que prejudicam o equilíbrio térmico do ambiente”.

Ela enfatiza a importância crítica da seleção do equipamento correto. “Ventiladores selecionados fora do ponto de operação ideal ou operando em regime de turbulência contribuem para um aumento expressivo de consumo. Por isso, é essencial utilizar equipamentos fornecidos por fabricantes consolidados, com curvas confiáveis e comprovadas. Não se trata de testar em laboratório o que já é conhecido e estabelecido no mercado, mas de confiar em quem projeta ventiladores industriais com histórico técnico sólido e engenharia aplicada”.

Aliada na redução do consumo energético

Mais do que uma vilã em potencial, uma estratégia de ventilação bem-orquestrada pode ser uma poderosa ferramenta para aliviar a carga dos sistemas de climatização. O gerente da Soler Palau Brasil lista situações em que isso ocorre. “Quando se aplica o controle em dias de temperatura externa amena, substituindo o resfriamento mecânico, ao usar a ventilação controlada por demanda com sensores de CO₂, evitando renovação excessiva de ar, e, em casos específicos, em indústrias e galpões, a ventilação natural ou evaporativa pode reduzir a necessidade de ar-condicionado mecânico”.

Para Laura Baldissera, a abordagem estratégica é a chave. “Ventilação bem dimensionada e aplicada estrategicamente pode reduzir significativamente a carga térmica de ambientes climatizados. A exaustão eficaz de ar quente ou contaminado, somada à insuflação de ar externo sob controle, diminui a necessidade de refrigeração ativa. Em ambientes industriais ou com alta ocupação, por exemplo, isso pode representar uma diferença expressiva no consumo total”. E reforça: “Ao utilizar ventiladores adequados, com desempenho compatível ao ponto real de operação do sistema, é possível reduzir o esforço dos equipamentos de climatização e aumentar a eficiência geral da instalação”.

Maurílio Oliveira, engenheiro de aplicação e novos negócios da Multivac, acrescenta uma perspectiva de equilíbrio entre eficiência e qualidade do ar. “A ventilação tem um papel essencial na redução do consumo de energia em sistemas de AVAC. A reposição de ar é necessária, mas a quantidade desse ar precisa ser bem dimensionada. Quanto menos ar quente e úmido for introduzido no ambiente, menor será o esforço exigido do ar-condicionado. Ao mesmo tempo”, pondera, “não podemos esquecer da qualidade do ar interno: níveis adequados de CO₂, oxigênio e outros parâmetros precisam ser respeitados. Por isso, um dimensionamento correto, aliado à escolha de equipamentos adequados e ao uso de elementos filtrantes bem mantidos, garante tanto a qualidade do ar quanto a eficiência energética do sistema”.

O futuro da ventilação eficiente

O mercado já dispõe de tecnologias que elevam a eficiência da ventilação a um novo patamar. “Entre as tecnologias mais promissoras para a eficiência energética em ventilação, os motores eletrônicos merecem destaque. Essa evolução veio para ficar: oferecem maior durabilidade, melhor performance, níveis de ruído mais baixos e, principalmente, redução significativa no consumo de energia”, afirmaOliveira da Multivac.

Ele ainda ressalta a vantagem na integração e custo. “Além disso, a possibilidade de controle modular, por meio de sensores ou automação, torna o sistema muito mais versátil e inteligente. Embora no início o preço fosse uma barreira, o aumento da escala de produção tornou essa tecnologia mais acessível. Sua operação também é mais simples: ao contrário dos motores tradicionais, os eletrônicos não precisam de variadores de frequência, o que reduz custos e facilita o controle. Combinando eficiência, confiabilidade e praticidade, os motores eletrônicos estão se consolidando como um dos pilares da ventilação do futuro”.

Laura Baldissera complementa com outras inovações:automação integrada com sensores de pressão, CO₂ ou temperatura, para ventilação sob demanda; plug fans e ventiladores centrífugos de alto desempenho, ideais para retrofit em sistemas antigos; sistemas de recuperação de energia (ERV/HRV) que aproveitam o calor do ar exaurido para pré-condicionar o ar novo.

No entanto, ela faz um alerta importante: “O ponto de partida, no entanto, continua sendo a seleção correta do ventilador — com base em curvas levantadas e confiáveis, fornecidas por fabricantes sérios e com tradição técnica. Não basta ter motor eficiente se o conjunto está mal aplicado”.

Jairo Cardoso também menciona tendências similares. “Motores EC de alta eficiência em ventiladores”, recuperadores de calor, controle inteligente com sensores (temperatura, umidade, CO₂) e, até mesmo, o uso de inteligência artificial para otimização preditiva do consumo”.

Sustentabilidade e a visão sistêmica

Para encerrar, os especialistas refletem sobre o panorama geral.”O maior potencial de economia está no controle inteligente da interação climatização x ventilação”, sintetiza Cardoso. Ele alerta que “sistemas superdimensionados e mal mantidos respondem por grande parte do desperdício energético. Pode-se dizer que eficiência energética, mais qualidade do ar interno, equilibrando saúde, conforto térmico e sustentabilidade é o caminho”, conclui.

Laura Baldissera oferece uma visão holística e prática sobre sustentabilidade. “Sustentabilidade não é uma equação resolvida apenas na ponta do consumo. Ela começa no projeto, passa pela escolha de cada componente e se consolida no equilíbrio do sistema. O ‘efeito sistema’ é o grande vilão oculto de muitas instalações ineficientes — e muitas vezes não se resolve apenas com a troca de equipamentos.Na Projelmec, temos visto como a simples substituição de ventiladores genéricos por modelos industriais bem dimensionados, com curvas reais e alinhados com o ponto de operação, gera não só economia de energia, mas também maior confiabilidade, redução de ruído e maior vida útil. Sustentabilidade também é isso: operar com inteligência, consistência e previsibilidade”.

A mensagem unânime é que a eficiência energética no AVAC é um quebra-cabeça onde todas as peças – do projeto à manutenção, da climatização à ventilação – precisam se encaixar perfeitamente. A recompensa é um sistema não apenas mais econômico, mas também mais confiável, durável e alinhado com as demandas de um futuro sustentável.

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Crédito da foto http://www.dreamstime.com/stock-photo-hvac-as-heating-ventilating-air-conditioning-ac-heater-industrial-air-conditioning-ventilation-systems-system-image82876220

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