A qualidade do ar interior (QAI) tornou-se uma preocupação central para engenheiros, arquitetos, gestores de instalações e profissionais da construção civil, especialmente diante do aumento do tempo que passamos em ambientes fechados e da crescente conscientização sobre os impactos da exposição a contaminantes. Nesse contexto, a ventilação emerge como ferramenta fundamental, mas sua aplicação exige conhecimento técnico aprofundado para que seja verdadeiramente eficaz, evitando armadilhas comuns que podem comprometer os resultados esperados.
O presente texto consolida as respostas de três especialistas do setor — Laura Baldissera, engenheira mecânica e diretora comercial da Projelmec Ventilação Industrial; Jairo Alfonsin Cardoso, engenheiro mecânico e gerente de marketing na Soler Palau Brasil; e Eduardo Bertomeu, engenheiro mecânico e consultor na ECB Engenharia e Consultoria — oferecendo um panorama técnico direcionado a profissionais envolvidos diretamente com a questão da QAI.
- Eduardo Bertomeu
- Laura Baldissera
- Jairo Cardoso
A ventilação como estratégia para a QAI
Os especialistas são unânimes em afirmar que a ventilação constitui uma das estratégias mais eficazes para a melhoria da qualidade do ar interior. Conforme destaca Laura Baldissera, “em muitos casos ela é a principal estratégia”. Entretanto, a engenheira faz uma ressalva fundamental: existe uma confusão comum entre ventilação e simples movimentação de ar. “Ventilar não é apenas ‘mexer o ar’. É renovar, direcionar e controlar o fluxo de ar para reduzir contaminantes, calor, excesso de umidade, CO₂, odores e partículas suspensas.”
Jairo Alfonsin Cardoso corrobora essa visão, afirmando que a ventilação “promove a renovação do ar e reduz a concentração de contaminantes presentes no ambiente”. Eduardo Bertomeu complementa ao destacar que, quando associada à filtragem, a ventilação também reduz partículas, poeira e microrganismos.
Em grandes espaços, especialmente industriais, a relevância da ventilação se amplifica. Baldissera observa que, nesses contextos, “muitas vezes não é economicamente viável climatizar todo o ambiente”, tornando a ventilação “protagonista da estratégia de qualidade do ar, conforto térmico e segurança operacional”.
Mecanismos de atuação da ventilação no ambiente
Compreender como a ventilação atua no espaço é essencial para seu correto dimensionamento. Segundo a diretora da Projelmec, a ventilação promove renovação do ar e evita zonas de estagnação, pois “ar parado não é sinônimo de ar limpo”. Ambientes sem renovação adequada tendem a acumular calor, partículas, vapores, CO₂ e contaminantes. Quando corretamente projetado, o sistema cria um fluxo organizado do ar, retirando contaminantes e melhorando a distribuição térmica e a sensação de conforto.
Cardoso explica o processo de forma direta: introdução de ar externo combinada com remoção do ar interno, promovendo a diluição de poluentes como CO₂, odores, partículas, compostos químicos e agentes biológicos. Bertomeu sintetiza a atuação da ventilação em três etapas: remoção do ar contaminado, introdução de ar novo e mais limpo, e consequente diluição de poluentes, odores, umidade e microrganismos suspensos.
O dilema da qualidade do ar externo
Uma questão crítica frequentemente negligenciada é o risco de a ventilação piorar a qualidade do ar interno ao arrastar agentes poluentes do exterior. Laura Baldissera reconhece que “pode acontecer, por isso ventilação não pode ser tratada apenas como ‘colocar ar para dentro'”. O projeto precisa considerar a qualidade do ar externo, a localização da captação e o tipo de contaminante presente no entorno.
Para evitar esse efeito indesejado, a engenheira recomenda um conjunto de medidas: filtragem adequada, posicionamento correto das tomadas de ar, pressurização controlada, automação e monitoramento da qualidade do ar. Jairo Alfonsin Cardoso acrescenta a necessidade de “controle operacional em função das condições ambientais externas”, enquanto Bertomeu especifica os níveis de filtragem comumente empregados: filtros G4, M5, F7 ou HEPA, dependendo da gravidade da contaminação externa.
Umidade: desafios e oportunidades
A questão da umidade merece tratamento específico, pois apresenta duas faces. Em regiões de alta umidade, a ventilação pode introduzir vapor d’água no ambiente interno. Baldissera alerta que, nesses casos, “o sistema pode gerar desconforto, condensação e até favorecer proliferação de fungos”. A solução, segundo a engenheira, exige pensamento integrado, considerando vazão, renovação necessária, condição climática externa, ocupação e possibilidade de desumidificação e automação.
Cardoso recomenda o controle da taxa de renovação de ar, uso de sistemas de desumidificação, aplicação de recuperação de energia por entalpia e integração com sistemas de climatização. Eduardo Bertomeu, por sua vez, reforça que “a filtragem sozinha não remove umidade, sendo necessário tratamento térmico do ar externo”, por meio de serpentinas de resfriamento, desumidificadores e automação da renovação.
Por outro lado, a ventilação pode contribuir positivamente para remoção de umidade interna quando o ar externo possui menor carga de umidade. Laura Baldissera observa que essa situação é comum em cozinhas industriais, áreas de lavagem, processos produtivos com evaporação e ambientes com alta ocupação. Jairo Alfonsin Cardoso e Eduardo Bertomeu convergem ao afirmar que a eficiência dessa remoção depende da diferença entre as umidades absolutas interna e externa, sendo mais efetiva em climas secos, períodos frios ou ambientes internos muito úmidos.
Pressupostos para projeto e execução eficazes
A eficácia de um sistema de ventilação não decorre apenas da escolha de bons equipamentos. “Muitas vezes o problema não está no ventilador, mas na instalação. Perdas de carga não previstas, tubulações inadequadas, captação incorreta, obstruções e distribuição ruim do ar comprometem completamente o desempenho”, enfatiza Baldissera.
Os pressupostos fundamentais elencados pela engenheira incluem: entender corretamente o processo e ocupação do ambiente, definir vazão adequada, evitar zonas mortas, distribuir corretamente o fluxo de ar, selecionar corretamente os ventiladores, considerar filtragem, prever manutenção e monitorar o desempenho real do sistema.
Jairo Alfonsin Cardoso acrescenta a necessidade de atender às taxas mínimas de renovação de ar conforme normas técnicas, garantir distribuição uniforme do ar, manter controle de pressões para evitar infiltrações indesejadas e assegurar manutenção periódica. Eduardo Bertomeu sistematiza as referências normativas aplicáveis no Brasil: ABNT NBR 16401, Resolução ANVISA RE nº 9/2003 e Lei Federal 13.589/2018 (PMOC), além da norma internacional ASHRAE Standard 62.1.
Efeito chaminé e ventilação cruzada
A integração de estratégias naturais aos sistemas de ventilação pode trazer benefícios significativos. A diretora da Projelmec explica que a ventilação cruzada utiliza diferenças de pressão e posicionamento das aberturas para criar fluxo natural do ar, enquanto o efeito chaminé aproveita a tendência do ar quente de subir, facilitando a remoção de calor e contaminantes por pontos elevados.
Quando integradas corretamente à ventilação mecânica, essas soluções podem melhorar a renovação do ar, reduzir o acúmulo de calor, diminuir a sensação térmica, reduzir o consumo energético e melhorar o conforto e a segurança dos ocupantes.mBertomeu ressalta, porém, que tais estratégias “exigem análise climática, controle de ruído, poluição externa e correta distribuição dos fluxos de ar para garantir boa QAI”.
Automação e monitoramento
Laura Baldissera afirma que “automação e monitoramento deixaram de ser diferencial e passaram a ser necessidade”. Sensores de CO₂, temperatura, umidade, pressão diferencial e partículas permitem entender o comportamento real do ambiente e ajustar o sistema conforme a demanda. Inversores de frequência e sistemas supervisórios viabilizam o controle eficiente da vazão e do consumo energético.
Cardoso especifica os sensores necessários: CO₂ (para controle por demanda), temperatura, umidade, partículas e compostos orgânicos voláteis, integrados a sistemas de automação predial. O consultor Bertomeu acrescenta a importância de sistemas que supervisionam alarmes, pressão diferencial, saturação de filtros e desempenho dos equipamentos, além de medidores de vazão e pressão para balanceamento e manutenção preventiva.
Conclusão
A ventilação eficiente para qualidade do ar interior transcende a simples movimentação de ar, exigindo uma abordagem sistêmica que integra projeto criterioso, seleção adequada de equipamentos, filtragem compatível, controle de umidade, automação inteligente e manutenção contínua. Como sintetiza Laura Baldissera, “qualidade do ar interno não depende apenas de equipamento. Depende de projeto, instalação, operação, manutenção e entendimento do comportamento do ar dentro do ambiente”. O profissional que domina essas múltiplas dimensões estará apto a projetar sistemas que não apenas renovam o ar, mas verdadeiramente controlam o ambiente interno, promovendo saúde, conforto e eficiência energética de forma integrada e sustentável.
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