Uma reflexão para um ano com eleições
Costuma-se dizer que a política é a causa de todos os males. Não é raro ouvir que tudo o que há de ruim no mundo nasce dela. Talvez essa afirmação esteja apenas parcialmente errada. A política, na verdade, não cria o mal — ela o organiza, o legitima e o administra.
O erro está em tratar a política como algo externo ao ser humano, como se fosse uma entidade autônoma, quase demoníaca. A política é apenas o reflexo mais visível do nosso estágio civilizatório. Ela revela aquilo que somos quando recebemos poder.
Não existe ideologia pura. Nunca existiu. Ideologias são discursos de superfície, ornamentos retóricos usados para encobrir o que realmente move a engrenagem: o desejo de poder. O poder como fim em si mesmo. O poder para dominar, subjugar, impor, aparecer. O poder como vaidade travestida de projeto coletivo.
Também não existe, na prática, espírito público. O que existe é o uso do público como instrumento. Fala-se em povo, mas governa-se para si. Invoca-se o bem comum, mas negocia-se nos bastidores. A política moderna não é um exercício de virtude; é um mercado de interesses, onde a moral entra apenas quando é conveniente.
Esse comportamento não é novo. Ele denuncia algo mais profundo: a nossa condição ainda primitiva. Evoluímos tecnologicamente, mas não moralmente. Dominamos algoritmos, energia nuclear, inteligência artificial — mas ainda operamos sob os mesmos impulsos tribais: orgulho, vaidade, medo e desejo de dominação.
O resultado é previsível. Povos são lançados à miséria em nome de estratégias geopolíticas, jogos de influência e alianças internacionais. Sofrem ontem, sofrem hoje e continuarão sofrendo amanhã, sempre sob o discurso de que isso é necessário, inevitável ou “para o bem maior”. A miséria, nesse contexto, deixa de ser uma tragédia e passa a ser uma ferramenta.
A política, então, não é o grande mal. O grande mal é o ser humano despreparado para o poder. Enquanto o poder for exercido sem consciência, sem limite moral e sem humildade, qualquer sistema — democrático, autoritário, liberal ou socialista — produzirá o mesmo resultado: concentração, exclusão e sofrimento.
Talvez o problema não esteja em mudar governos, partidos ou ideologias. Talvez o problema esteja em algo muito mais difícil: mudar o estágio de consciência da humanidade. Enquanto isso não acontecer, a política continuará sendo apenas o palco onde encenamos, repetidamente, nossas próprias falhas.
E, no fim, fingimos surpresa com o desfecho.
Fábio A Fadel, advogado e escritor






